Vampira do meu querer…

Vampira do meu querer…

Pudesse eu calar esta fome em mim,
Atingisse eu o apogeu celibatário de ti
Extinguiria o fogo que me consome
Sangue bombeado, ânsia disforme
Pensamento tolhido, corpo de mulher
Libidinoso sonho erótico, ser em ti
Consumir-me nos loucos movimentos
Escravo do teu ávido e sedento prazer
Sossega-me, deixa-me repousar
Lenções escarlates, húmidos e quentes
Deixa-me repousar no conforto do teu seio
Reconforto de me saberes teu
Sempre, e só, servo dos teu desejos!

Sírio de Andrade

Nesse olhar temeroso

Nesse olhar temeroso

olho-te, olho-te
nesse olhar temeroso
nesse medo do adormecer
saudades de uma vida plena

rasga-se-me a alma cheia
nesse olhar que irei perder
nesses olhos que não me reconhecem
nesse olhar de medo de criança
e é tão fácil arrancar-te um sorriso
tão fácil chorar, tenho medo
não por ti
mas pelo vazia que iras deixar…

olho-te, olho-te
vejo-te criança assutada
com medo de tudo e de nada
por já não saberes quem sou
pelo alheamento que tens da morte

embalsamo na alma rosas negras
laminas que me cortam as palavras
e sorrio, perante as lagrimas retalhadas
e esse olhar temeroso que me ira deixar…

Alberto Cuddel
30/08/2020
23:13
Poética da demência assíncrona…

Sinto-me às vezes tocado, como um pronuncio de morte…

Sinto-me às vezes tocado, como um pronuncio de morte…

sinto-me às vezes tocado, como um pronuncio de morte…
como se a vida acabasse ali, debaixo do chão
depois de tudo e antes do amanhã,
e como se tudo o que tenho feito, pensado,
sonhado, imaginado, querido, não valesse nada…

talvez seja uma doença amar assim tão desconcertadamente
amar como homem, com os genitais…
talvez seja quente ou frio, mas não si o sabor da morte ou do seu beijo
não sei se ela me abraçará, sei que virá o silêncio…

é difícil descrever o que se sente, quando realmente se sente
é tão mais fácil e cómodo descrever o que se finge
não sei quais serão as palavras humanas as que usarei
sê é que usarei algumas para dar voz ao que sinto…
não sei se estou ou sou doente, mas habita-me um sarcasmo na vida
um desalento que ultrapassa os limites da minha individualidade
impondo limites colectivos a coisas que apenas são minhas
que morrerão em mim sem que as grite…

porém sou um homem normal, com normais doenças
– será à morte apenas um sono do qual não se acorde?
[será que sonhamos mortos?]
Há momentos em que cada pormenor vulgar tem toda a importância
Apenas pela sua vulgaridade, e pela singularidade da sua ocorrência
(como um beijo antes de ser dado, na desistência de o dar)
Fica a penas o desejo de o receber…

sinto-me às vezes tocado, como um pronuncio de morte…
como se a vida acabasse ali, debaixo do chão
depois de tudo e antes do amanhã,
e como se tudo o que tenho feito, pensado,
sonhado, imaginado, querido, não valesse nada…
em que as paredes do meu reles quarto se fechassem sobre mim
e me absorvessem como matéria, e eu fosse apenas pó…
sem memória da existência do abraço que ficou por dar…

Alberto Cuddel
30/07/2020
00:50

Poética da demência assíncrona…

Afloramento do sentir, mãos que suportam…

Afloramento do sentir, mãos que suportam…

Cravam-se no peito sombras apunhaladas, sangue que jorra
Dor arrastada pelo corvo da alma, um voo rasante em estrada aberta
Revolvo em voltas infinitas, roucos lençóis clamando o espírito
Sono moribundo do abandono solidão profusa,
Corpo inerte no brado do teu nome, arde em desejo, crente e suicida,
Sofre, cão abandonado sem dono, por não querer suportar o conforto,
Privação de uma trela, uma jaula de porta aberta à vida…
Há uma solidão em cada garrafa vazia, entre um sono e o sonho de não acordar…

Peito sombra de um eco profundo de um não bater
Porque o que trago no peito partiu e deixou apenas o espaço ao sofrimento
E à dor constante que leva esta mente alucinada verter lágrimas em forma de insónia
Pelos lençóis de camas impuras ou cadernos com histórias loucas…
Eu já tive o teu nome à porta de entrada daquele corpo para a alma!
Eu já te tive no final de cada grito de prazer onde o orgasmo era alvorada!
Eu já te tive em cada horizonte por estrada ou céu, mas hoje fecho-me…
E em cada garrafa procuro mais argumentos e explicações para ainda acordar…

Rasgo os dias e as noites nas ruas bafejadas pela memória
Em todo lado a sangue grito pelo teu nome, loucura dos passos sem destino
Na porta fechada ao mundo crente, não há fé que habite esta alma
Apenas licor, apenas leigo, apenas ateu dessa vil estrada
A felicidade é a letargia do tempo a que chamam céu
Procuram os olhos o sal… esse que me alimenta num último trago…

A memória passou a ser um saco velho e sem fundo de pensamentos antigos
Com tinta de caneta transformada em mar de lágrimas de um tinteiro inesgotável
Entornado todos os dias e todas as noites em que estás sem corpo
E me habitas o alma num voar descontrolado a caminho de lugar nenhum…
Eu sei que um dia te tive e fui o teu amor e que isso não foi um sonho!
Hoje no pesadelo da tua ausência, coleciono garrafas e acordares de solidão…

Dueto Sírio de Andrade e João Dordio

Noites irritantemente sombrias

Noites irritantemente sombrias

Sem sombra de dúvida
A noite morde a sombra imaginaria
Daquele que se deita ausente da vida…
O luar grita contra a parede branca
Folhas que se agitam vazias,
Limpem-me o olhar…

Alberto Cuddel
3.4.19
In: Dor da salinidade do olhar

Asas do querer

Asas do Querer

Devastação da noite,
Gélido terror que te faz tremer,
Asas das trevas te cobrem
Gritas prazer na solidão,
Agrilhoado, preso e ferido,
Por sorte, prazer ou morte!
Penas que te fazem voar,
Palavras gritadas,
Esquecidas, no amordaçar,
À dona de mim que me condenas,
Asas partidas, soltas na cela,
Há fome,
Há sede,
Há vontade de te querer,
Revolta em mim,
Que a lua me prende
Sírio de Andrade®

In: Antologia Depressiva
10/10/2015

Dissolvido

Dissolvido

O coração cheio de vazio contínuo.
Nada que mude o cego destino.
Rosto pálido, semblante caído,
Águas negras infestadas,
Demónios do passado,
Descrenças, desconfianças,
Atolado neste negro propósito,
Sem salvação, sem vontade de sair!

Queda,
Forças, uma a um abandonam o ser,
Vontade, desejo de mergulhar,
Deixar afundar, aguas profundas,
Ausência de luz, palavras, querer,
Lua, noite eterna,
Luar ambulante que me perde,
Que me encontra, despedaçado,
Arremessado continuamente pela corrente,
Há rochas firmes da certeza do orgulho,
Assim me diluo, neste mar que me absorve!

Sendo noite, na desilusão, deste (A)mar!

In: Antologia Depressiva
Sírio de Andrade®

Dissolvido

Dissolvido

O coração cheio de vazio contínuo.
Nada que mude o cego destino.
Rosto pálido, semblante caído,
Águas negras infestadas,
Demónios do passado,
Descrenças, desconfianças,
Atolado neste negro propósito,
Sem salvação, sem vontade de sair!

Queda,
Forças, uma a um abandonam o ser,
Vontade, desejo de mergulhar,
Deixar afundar, aguas profundas,
Ausência de luz, palavras, querer,
Lua, noite eterna,
Luar ambulante que me perde,
Que me encontra, despedaçado,
Arremessado continuamente pela corrente,
Há rochas firmes da certeza do orgulho,
Assim me diluo, neste mar que me absorve!

Sendo noite, na desilusão, deste (A)mar!

Sírio de Andrade®
In: Antologia Depressiva
09/10/2015

Ausência

Ausência

Não, a escuridão não existe,
É apenas ausência de luz!
Não, o frio não existe,
É apenas ausência de calor!

Não, o mal não existe,
É apenas a ausência do bem!
Não, o ódio não existe,
É apenas ausência do bem!
Não, a depressão não existe,
É apenas a ausência de ti,

Assim estou vazio,
Sem que o Teu espaço
Esteja em mim preenchido!

Sírio de Andrade
In: Antologia Depressiva

Confissão

Confissão

Afaste de mim o gosto que eu não gosto
Acredite-me no que ainda não aposto
Encha-me o meu crescente e parco vazio
Noites sós em que de ti me distancio!

Sou apenas metade do que fui, não ligo
na perda do todo afastei de ti o perigo
crente fui eu na abnegação do amor, cego
em mim esconjuro a convicção, eu me renego!

Certezas clamaste que em ti edifico
nunca semelhantes aos actos que prático
fiz-me passar viscerais tormentos
nas palavras, carinhos e outros alentos!

Deixo de mim versos escritos
de paixões, traições, e outros ditos
não espero remissão ou compaixão
na alma sei que não terei redenção!

No inferno onde resido e mantenho
sofrimento do pecado tudo o que tenho
apenas de mim, por amor a ti te peço
na verdade que hoje aqui confesso!

Ai de mim pobre e enganado pecador
prazeres da vida, fiquei com a dor
por narcisista egoísmo vi-me sofrer
a solidão que tenho até morrer!

Sírio de Andrade

Apenas poema!

Apenas poema!

Porque me perco em mostrar-me?
Se apenas me devoram e absorvem?
O “eu” palavra, o “eu” escrita,
Nada importa, historia, sentir
Origens, o dia, a noite,
Nada, apenas palavras,
Frases construídas, dissertação,
Raiva, destruição do amor,
A queda, tristeza, depressão…
Nada de mim… Apenas Poema…
Raiva de mim…
Sou, ninguém
Sem vós, nunca serei nada
Se não me identificar, quem serei
Nada,
Basicamente um nada
Nem zero, nem vazio,
Tempo perdido,
Palavras esquecidas no nada,
Tudo que parte de mim compõe,
Vale nada,
Rigorosamente nada
Por nada ser, nunca serei,
Alguém cujo nome esquecido,
Jamais será lembrado!

In: Antologia Depressiva

Sírio de Andrade
01/10/2015

s_rio1

No tempo em que a saudade não tinha medo

No tempo em que a saudade não tinha medo

Tenho saudade do tempo sem medo
Sem pelo na venta e sem conhecer o prazer
Nesse tempo vivia destemido sem saber
 – Ainda que me morram as noites, irei nascer…

Que corra enjaulado espreitando a vida nas janelas
Nessas árvores queimadas em troncos hirtos
Nos olhos que me fitam sedentos de sangue
Não temo a saudade do que nunca foi meu…

Passam os minutos e carros nas ruas…
Passam barcos no canal, água debaixo da ponte
Trespassam-me o peito as dores
Flechas vermelhas, sem as saber nuas…
(não mato, não morro, apenas fui por outro caminho)

Nessa saudade sem medo, morro pelo teu corpo
Como ferros forjados na fornalha eterna que me trespassam
Entre o suicídio e a morte que chega pela manhã
Neste leito vazio a que te condenei…

Não derrames lágrimas frondosas de um amor sem limite
No tempo em que a saudade não tinha medo
Eu escolhi um outro destino, pelo medo de um ontem sem fim…

Sírio de Andrade
02/11/2018
Lisboa, Portugal

Decifrem-me

Decifrem-me

Tentam em vão decifrar-me,
Sou, não existindo, apenas sou,
Verbo, palavra, indiferente a género,
Indiferente, só, sentir, tristeza, depressão,
Ódio, conquista, perda, ou ser apenas,
Sou poeta, inconquistável, inacessível,
Sou mistério de vida, sou porquê,
Apenas já existia, já vivera, tudo
Ou o nada que escrevo…
Na plenitude de meu corpo,
Que hoje definhe desgastado
Pela idade dos verdes anos!

Deixem-me poetizar apenas,
A minha pobre alma de poeta!

Sírio de Andrade

Foi por mim, ou não

Foi por mim, ou não…

Sim, foi por mim que gemi
Ao escrever as linhas de vida
E outras que senti…
Mesmo as que cegamente fingi…

Nem na tinta amarelecida
Nem em gaveta profunda
Gritei tanto em silêncio
Como no dia em que morri…
E morro tantas vezes em ti…

Compreendi que o infinito do verso
Está escondido por detrás desse olhar
Na interrogação interposta ao significado
Que nunca lhe quis dar,
Ainda que dobrem os sinos…

Em todos os gestos que sonhei
Nos que escrevi e desenhei
Nunca me despi no poema
Nunca nasci ou me pus no horizonte
Sem luz… carvão apagado do ser…

Nem um vale sem rio
Um rio sem água
Um jardim sem flores
Um oásis sem água
Um deserto sem dunas
Um poema sem versos
Nada me saciará esta fome…
Esta vontade inconsolável
De expirar letras como uma alergia…
Como um vómito literário mal condimentado…

Por mim, respiro
Como quem escreve poemas
Sem pensar…

Alberto Cuddel
13/03/2018
02:07

Sentir violentado…

Sentir violentado…

Nunca foi amor isto que sentia
Dava e nunca recebia…
(talvez doença, talvez ilusão)
Violentaste-me o corpo… o sentir
Numa violência sem medida
E eu? Eu, temerosamente anuía…

… – Não me amava, nunca me tinha amado…
Olhava o espelho castigado
Num reflexo que não suportava,
Todas as pancadas eram merecidas
Apenas desejava a morte,
Entregue minha sina e sorte…

Descobri que me amava,
Quando a vida se fez em mim,
Quando me olhei sem reflexo

Descobri-me, pisada, maltratada
Partida, dilacerada, violentada…

Basta… Basta… Basta…
Eu sou, existo, e desisti de sofrer…
Amo-me, não mais te suporto,
Quero aprender a viver…

#poeticamortem

Nunca fique em silêncio… denuncie…

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