Exausto

Exausto

cansado da fraude
do embuste que sou
mãos que apenas copiam
os pensamentos tidos
lidos nas imagens retidas
pelas retinas treinadas
a ver o que outros
distraídos não vêem
cansado do tempo perdido
em deixar escrito
memória da visão
adjectivos da paisagem
do sentir
do perder
da aragem
cansado das palavras
das pragas
de tudo escrever
cansado do papel
da caneta
da tinta
do fingir
cansado de ver
de querer
do agir
cansado da poesia
perdida
escrita
descrita
relatada
sem fim
sem nada!

Cansado apenas cansado!

Sírio Andrade
27-03-2015

Raiva

Raiva

devolves cativos os gélidos sentidos,
das cores escuras, depressão confusa,
querer fugir, reprimir o negro desejo,
escapar esfumando-se por entre os dedos,
escorrendo pela brilhante lamina, gotas da vida!

gotejando quentes no gélido mármore,
uma após outra, sorvendo de ti a vontade contínua,
partir em demanda, gritando impropérios,
contra os felizes donos dos impérios,
cor-de-rosa pintados, onde reina o amor,
há raiva! força contida que se espera soltar,
num abrir do peito, rasgado, pelo sofrimento!

há dor! quietude, aninhado num canto,
gotas escorrem, reprimindo o alto pranto!

Sírio de Andrade!

Asas do querer!

Asas do querer!

Devastação da noite,
Gélido tremor que te trespassa,
Asas das trevas cobrem-te e envolvem,
Gritas, prazer na solidão,
Agrilhoado, preso e ferido,
Por sorte, prazer ou morte!

Penas, sonhos que te fazem voar,
Palavras gemidas, gritadas,
Esquecidas no amordaçar,
Aí dona de mim que me condenas,
Asas partidas, soltas na cela,
Há fome, há sede,
Há vontade de te querer,
Revolta em mim, dor
Nesta lua me prende!

Sírio de Andrade
30/01/2015

Voltas

Voltas,

Volteios nas palavras,
Torces e retorces,
Valendo-te da tua verdade,
Nada mais importa,
Nos retorcidos volteios,
Da imposição velada,
Do querer ver o já gasto
E fechado portão onde
Constantemente procuras-me,
Assim por meias-verdades assumidas,
Abalas todo o muro que o suporta,
Fazendo pender de novo a corda,
Enlaçada na figueira,
Despertando os espíritos
Os fantasmas que este portão encerra,
Soltos na noite que se abateu em mim!

Sírio Andrade
26/01/2015

Ausência

Ausência

Não a escuridão não existe,
É apenas ausência de luz!
Não o frio não existe,
É apenas ausência de calor!
Não o mal não existe,
É apenas a ausência do bem!
Não o ódio não existe,
É apenas ausência de Amor!
Não a depressão não existe,
É apenas a ausência de ti,

Assim estou vazio,
Sem que o espaço em mim
Esteja por ti preenchido!

Sírio Andrade
17/01/2015

Não sou por não existir

Não sou por não existir

crendices poéticas, bebendo palavras,
rimas quebradas, plágios, ditas por ti,
vês, pelos meus olhos, os que os teus apenas imaginaram,
adjectivos, imagens transcritas, sentimentos 
finjo ver, escutar teu mundo
agarrar, aprisionar em mim
o som das marés, o abafado
caminhar dos teus pés…

não, não sou diferente
finjo poeticamente, ouvir-te
no bater de asas de um morcego
ver-te no brilho quase apagado
de uma estrela no firmamento…

não sou poeta, não sou ninguém,
escondo-me, por detrás das palavras,
nas entrelinhas, nas vogais, 
por detrás de um ódio, figadal
à luz, que me abrasa, que me queima
que me entorpece os dedos,
que me faz ser, 
quem não quero revelar,
por apenas querer,
continuar a ser,
palavra,
nada mais!

Sírio Andrade
 13 de Agosto de 2015

Pesadelo!

Pesadelo!

cego no errante vício caminhante,
hirtas árvores erguidas aos céus,
força da sorte nas tábuas cortadas,
repouso caído, fechado por pregos,
firmemente cravados no madeiro,
onde o corpo do filho do homem,
padeceu cravado por minha incúria!
revolvo nos pés rubras folhas,
gastas e desgastas no tempo,
como escritas num passado,
que se quer esquecido, apagado,
sombras disformes, humanas,
no pesadelo assombrado do sonho,
que um dia este mísero homem,
ousou sonhar a felicidade!

Sírio Andrade®
26/08/2015

Escuridão

Escuridão

Escuridão,
E se um dia ao acordar,
O que existe acabar?
Podemos de novo começar?
Teremos essa coragem?
Poderemos iniciar essa viagem?

Com todos os fragmentos que nos ligam ao passado?
Podemos verdadeiramente de novo começar?
O passado não se esquece ou apaga,
Mas podemos escondê-lo nos recantos da memória!
Abandona-lo e mudar,
De novo começar,
Outra vida,
Outro Lugar!

Alberto Cuddel®
07/03/2015

Esperança…

Esperança…

nessa esperança que espera, ante o tempo que passa
os dias que desconta do sonho por cumprir
e os passos dados em calçada gasta… há essa virtude…
esperança…

não há muito que mais faça, além de uma inglória espera conformada
aparte isso… passa o tempo que corre, com pressa de um depois
mesmo que o depois apenas seja a morte do sonho
num fim anunciado que não foi aceite no tempo que me restava…

e morre a esperança sem se cumprir…

Alberto Sousa
01/05/2022
Poemas de nada que se perdem na calçada

Um adeus

Um adeus

Chego com um vazio plenamente preenchido
Pelo silêncio que hoje ecoa nas paredes despidas
Alimento das memórias que me ventem da alma
E a dor… – corroí-me as entranhas em abandono…

Sei-te distantemente ausente
Aquele adeus…
Dito fermente, com a voz segura
De um adeus eterno…

Um sentir que acaba?
Como ditas verdades impossíveis?

o amor não acaba, esquece-se
Uma meramente substituição
Por uma jovial e doentia paixão!

Um dia, meramente lembrarás
Que amaste alguém que efectivamente
Ainda te amava….

Sírio de Andrade
2:01
28/11/2016

Poema do Adeus!

Poema do Adeus!

poderá ficar a saudade, poderá ficar a ausência,
que tonteira a minha, que presunção egoísta,
nada fica, tudo passa, esta bola redonda,
continuará rodando, saltitando no vazio,
eu, mero ser pensante, sem corpo, sem alma,
que falta faria?

pela parcas palavras que inusitadamente escrevi,
pelo negro abismo que abri numa alma, pura, cuidada,
singela, decidida, fui mera purga na desilusão cabal,
dos pensamentos fora de tempo, do instinto animal,
quem fui eu? uma parte, um aneurisma, arrancado
rasgado, dilacerado, um mero paliativo
que chegada a hora é abandonado
no fundo de uma qualquer gaveta,
parto, na minha sombria tristeza,
parto, mas não me dou por vencido
fico expectante aguardando, no fundo,
de uma qualquer gaveta cerebral,
até que a necessidade me chame,
eu poeta Sírio de Andrade, não morri,
Matei-me…

A noite que me abrace por dentro

A noite que nos abrace por dentro

Há nessa escuridão que nos abraça um conforto capaz, um abraço quente em nós mesmos, esse abrigo do vento das palavras vãs, esse crer absoluto de que nós somos, e somos apenas em nós, que que outra alma possua luz ou calor que nos reconforte… há momentos na vida em que abrimos portas, e por mais negro que seja o interior dessa sala entramos, por estar cansados, por estar fartos da luz, da existência, apenas procuramos o silêncio, a imobilidade, o ficar ali, enrostados num canto, sem absolutamente um som, uma gota, sem a distracção das sombras, do movimento… queremos apenas que tudo desapareça, absolutamente tudo… que não exista mais nada para além disto… eu quero apenas que o silêncio me preencha, que a escuridão me conforte… que nada mais exista…

António Alberto Teixeira de Sousa

Rasgos de lucidez

Rasgos de lucidez

…embarcado nessa viagem sem tempo
onde as horas são a mera desilusão
rasgada por areias estreitas
em peito rude e aberto, o corpo fede
a alma definha, a vida esgota-se…

as árvores morrem de pé, queimadas
a estrada esburacada, não me leva a casa
e a casa ruiu há muito… palavras frias e nuvens altas
acordei… dormia em sonhos, e vejo claramente
este movimento depressivo por onde me arrasto
espero, sem esperar nada que tudo se extinga
onde nem a vontade já sobrevive…

possui-me a alma… o corpo é teu…
no sofrimento com que te carrego
corpo morto açoitado pela corrente
que o espírito me consuma inteiro
que se calem as vozes… eu já não espero…
embarcado nessa espiral sem tempo
onde o purgatório é agora o meu inferno…

Alberto Cuddel
18/09/2021
12:00
Alma nova, poema esquecido – XXXIII

Ruínas

Ruínas


todo eu em ruínas,
sim, vagas e vagas de réplicas,
alma desfeita,
não ficou um sentido,
uma vontade,
que não caísse por terra…
não ficou pedra sobre pedra…
sofrimento atroz que me devora,
que me consome…
não há vontade de me erguer
levantar, mover…
nada de nada…
raiva…
a fúria…
que me faz estar…
apenas estar,
sem movimento
pele dilacerada
carne que se desprega dos ossos
não, não me moverei…
as ideias rodopiam
já fora de mim…
onde, onde caí
sim, ficarei aqui
para onde havia de ir…
se ninguém me procura…

Sírio de Andrade
In: Antologia depressiva (2013)

Nesse acordar de amanhã

Nesse acordar de amanhã

sete palmos no dorso, e um pedaço de terra
entre a esperança no acordar, uma vida vazia
um pedaço de nada, entre a cidade e a serra
um arrepio na espinha, a desilusão da fantasia…

mundo mudo, silêncio mudo —
o ruidoso ronco em que dormes
faz de mim um corpo surdo
rebolando em camas disformes.

vida que me corre nas paredes sombrias
que desliza pelos gélidos lençóis do leito
memória do tempo que em mim sorrias
dor da solidão que carrego no meu peito!

sete palmos no dorso, e um pedaço de terra
uma esperança perdida, sombra no torso
essa voz que ecoa, na consciência adormecida
numa mão estendia, uma vontade que voa…

entre a esperança no acordar, uma vida vazia
num cérebro tolhido, escondem-se as rimas
palavras que mergulham numa total anarquia
nessas arvores azuis que crescem anonimas…

um pedaço de nada, entre a cidade e a serra
as mãos sujas de terra, lágrima escorre finada
e se acordar amanhã, não viverei aqui sozinho
neste mundo ninho, orvalho da doce manhã…

um arrepio na espinha, a desilusão da fantasia…
a certeza consciente de que morri em vida
antes que parta deste da aspereza deste inferno
abrindo o peito, expondo escancarando o esterno…

sete palmos no dorso, e um pedaço de terra
entre a esperança no acordar, uma vida vazia
um pedaço de nada, entre a cidade e a serra
um arrepio na espinha, a desilusão da fantasia…

um coração que morreu… abraçado no silêncio…
que se faz vida nesses pinheiros altos
enquanto ainda ardem as serras…

Alberto Cuddel
10/05/2021
15:40
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LX

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