As mãos abertas acima das cabeças

As mãos abertas acima das cabeças

há palavras rebuscadas
no meio de nós o madeiro
e arde, queima, aquece
há essa eternidade nas mãos
essa distância nos pés
filamentos de tungsténio abandonados dentro de lâmpadas acesas
na voz versos sem rosto, e palavras vazias
nesses nomes plurais
mas que tocam as águas,
rosto de mulher e mar…

vento soprado num búzio, eternidade
pés que se arrastam por cidades vazias
escorre a vida pela imemorial saudade
sem que na verdade seja sentida
mergulha pelo olhar adentro
e vive, esse luar solitário que ilumina
os rostos de quem acompanhado caminha

e toda a água é fria quendo nos lava a alma
nos braços da mulher que me cinge
as mãos cercam-me os corpos
como se sempre fosse apenas dela
e sempre o fui, sempre o serei

e nessa cegueira infantil da meia idade
sentes a carne atravessada pelo desejo
ainda que em decadência é o espírito que te move
e sentes homem, mesmo que ingenuamente pagues
custos divinos por um ego que já não vive na realidade
apenas morres, aos poucos, a cada estucada que das na vida…

toda a juventude é vingativa
deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura
um dia acorda com toda a ciência, e canta
como se a vida não se extinguisse, nesse corpo que definha…

depois, passeio-me de candeia meia apagada
na esperança vã da expiação dos pecados pelo sacrifício do corpo
penso, esgoto-me, nutro-me desse quente silêncio.
há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
depois levanta-se com os olhos imensos
cheios de nada, quando sente
como sinto, que a vida se esgota…

Alberto Cuddel
13/09/2020
00:30
Poética da demência assíncrona…

Poema do dia 10/08/2018

Poema do dia 10/08/2018

No culminar das pétalas que se desfolham
Sem culpa, entre a indecisão e o pecado
Morrem os desejos na estrada sob o calor
Hoje, hoje já não há pressa, apenas paciência…

Nessas almas que se perdem alugando o tempo
Pagam-se marés entre dunas húmidas ao luar
Mesas frescas, palavras e amores
Aromas de café e gelados… espero a tarde!…

Existem cidades que se despem para a noite
Mulheres que nos procuram há janela
Entre laranjas e rosas, lingeries negras
Formas redondas e beijos, candeeiros perola…

Há fervorosos pensadores e filósofos de esquina
Largando frases com o mesmo cheiro das vielas
Ao desbarato pescam na noite com isco gasto…

No culminar do tempo em que se desfolham pétalas
Fica a culpa, de ver morrer no jardim mais uma flor…
Triste, cabisbaixa, já descrente no amor e na vida,
A felicidade foi-lhe arrancada pela raiz, já não crê…

Alberto Cuddel
10/08/2018
15:51

Poema do dia 02/05/2018

Poema do dia 02/05/2018

Pelos lábios dos sons
Das palavras vãs
Dos beijos na face
Pelo mundo
Na procura de alimento
Que lhe sacie a alma
A fome de querer…

Nas ruas onde procuram
Olham desolados os sinais
Os lábios cerrados traem
Em beijos triplos, solteiros
As palavras ocas de um aceno
Sem tirarem os olhos do chão
Almas envergonhadas
Pela vil condição humana…

Há lábios secos na esquina
Lábios que imploram
Em silêncio,
Uma misera migalha de amor,
Correndo ao seu lado
Em calçado de pele apressado
Lábios orgulhosamente vazios
De um conteúdo que se dê…

Como dar o que nunca se teve?
Como podem os lábios, as mãos
As almas, dar migalhas de amor
Que nunca possuíram…

Pelos lábios dos sons
Nada saí que não se tenha…

Alberto Cuddel
02/05/2018
18:06

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