Chove-me longamente em dias de Sol

Chove-me longamente em dias de Sol

já não me resta muito tempo depois disto
não que antes houvesse, mas antes os peixes voavam
na minha varanda em que olho de longe o sol
morrem-me os perfumes da lavanda
enquanto exalo um fumo azul sob os malmequeres…
espero uma chuva que me lave, que me baptize…

Tudo se gasta e se consome, a roupa gasta-se
O dinheiro gasta-se, o tempo gasta-se
O amor consome-me por dentro, e amo
Acho que está tudo perdido enquanto não me levanto
Enquanto não me ergo e não dou um passo em frente
A vida escorre gota a gota como resto de água sobrante
Há fome de viver ali, na janela de fronte a mim
Talvez espelho baço do que foi, do que ainda é…

Dou por mim a chamar pessoas que nada significam
E também as outras, os amigos, ou os que pensam ser
E todos os que me orbitam e que acham que me devem
A mim? A mim ninguém me deve, nunca emprestei a eles as mãos
E chamo as outras… as que me são nada, por saberem quem são…

Chove-me longamente em dias de sol
Enquanto espero uma doce alvorada
Enquanto acordam depois de terem dormido
Depois de um enorme sonho
Depois de um grande nada, que nos ira acontecer depois…

Alberto Cuddel
25/09/2021
05:10
Alma nova, poema esquecido – XXXIV

Aborrecimento!

Aborrecimento!

Passo adiante, apressado e constante,
Que aborrecimento, ver-te assim caído,
E sonho distraído, vago e ausente,
Diferente, indiferente a tanta gente!

Corra o mundo,- grite o mundo insanidade,
Que aborrecimento, que suja esta a cidade,
E esse vestido preto, onde me fazes sonhar,
Dispo-te o pensamento, na alça descaída,
Que me importa, não deixo perder-te no olhar,
Saio, não saio, fico, sonho e passo a saída!
Que aborrecimento, que faço eu da vida?

E chove, algures no mundo,
Aqui e agora pouco importa,
Sei-me indiferente, ao sol,
À chuva, ou a uma qualquer porta!

Que aborrecimento,
Tudo por um preto vestido,
Que quis em teu corpo despido!

Alberto Cuddel

Céu disforme…

Céu disforme…

há um céu cinzento
sob uma clareira azul e seca
um sussurrar que se esquece
um silêncio rasgado de água

como uma coisa certa que nos minta,
como um grande desejo que nos mente.
chove. nada em mim sente…
nada do mundo que em mim já sinta

se chovesse ao menos, sob o sol do mundo,
qualquer seca e árida realidade não
esse eterno abismo sem fundo,
seria vida singela no fraco coração

ah, se chovesse ao menos em minh’alma
nessa hora final em que estorvasse
num voo suave me esvaísse
na liberdade certa de um céu disforme
seria vento seria lágrima, seria alento…

Alberto Cuddel
25/05/2020
18:07

In: Nova poesia de um poeta velho

Seco o sonho de chuva

Seco o sonho de chuva

– humedeceste os lábios finos
pedras soltas atiradas pelo vento
e o destino quem o soubesse?

no espaço sepultado da fome
rasga-se o desejo da sede
procura mundos e fundos
mares e marés nesse querer fecundo
maternidade que te abandona o corpo

cânticos de Salomão
– ilusão dos seres mitológicos
sereias que me embalam
que me venham as virgens de candeia
a força de Sansão, o uivo materno
esse alimento de gémeos…
multipliquem-se os peixes e a fome
voz que sacia os espíritos,
acalmem-se as águas…
que seja pedra a força e a voz
edifique-se sobre ela a poética
neste sonho seco de uma chuva mórbida
de silêncios lidos em lábios gretados
clama o deserto por lucidez
e pendem-me espadas de calcário no olhar
pela inveja mesquinha do homem novo…

Alberto Cuddel
23/05/2020
19:15
In: Nova poesia de um poeta velho

Ontem Choveu

Ontem choveu

Tantas vezes choveu ontem,
Mesmo assim com chuva sai de casa,
Percorro ruas e vielas, passeios estreitos,
Mas não procuro ninguém,
O meu olhar hoje não te procura,
Porque ontem choveu,
E eu sei onde estás, onde estavas,
Onde te encontrei
E te deixei à espera,
Há minha espera.
Ontem choveu,
E eu não te procurei…

Alberto Cuddel®
In: Palavras que circulam – VI
06/09/2016

Numerosas eram…

Numerosas eram…

as areias do deserto
os filhos de Abraão
(os filhos dos deuses)
as gotas da chuva que caem…

palavras arremessadas
distorcida e amarrotadas
insultos-balão, de ar-água
verdades caladas e mentira ditas…

numerosas eram
as mãos que te ergueram
os nomes que se esqueceram
as lições aprendidas
e as graças que ficaram por louvar…

numerosos eram…
os beijos, que nunca foram dados
os abraços apertados
e os passos que me levam…

Alberto Cuddel

Poema XL

Poema XL

chovo-me onde tantas vezes há sorrisos
na realidade é suportável existirmos
porque tudo é certo quando rasgamos o peito!

é por ventura própria a arte de sermos
(para vergonha de deus, fundimo-nos)
nesta doença do crer, creio-te dormindo
sorriso dos sonhos, nesse onde me faço
nesse onde não existe poema, poeta…

nos diálogos dos dias, jardins floridos
copos e pratos amontoados, e rosas
ali, enquanto te olho, com olhos doces
nessa necessidade de engolir a chuva
que me abraça a alma em silêncio

às vezes enquanto olho vago o horizonte
perco-me do mundo, explanando-me nesse vazio
reconhecimento de fé, que eu sou, pelo facto de seres
nada há de mais real que esse crer que nos abraça
nascendo de novo a cada dia, rasgando-nos o peito…

(…)
serão nossas as madrugadas?
Algumas, mas a vida essa, já o é…
numa chuva miudinha que me nasce do sorriso…

Alberto Cuddel
12/04/2019

Peço ao tempo chuvoso um raio de sol

Peço ao tempo chuvoso um raio de sol

Peço calma e ao frio o teu abraço
Peço desculpa longínqua ao sul
Pelo calor que roubou à noite…

Declarei saudades robustas
Idealizadas em corpos crescentes
Num tempo fechado e embalado
Enclausurado nessa caixa que bate…
Que nos move e inquieta
           Que ama em surdina
Tudo é momentâneo
     Tudo é o que nos dizem as mãos…

Peço ao tempo cinza
Que se abra, que se mostre
Que se faça vivo e crente
Quente nos lábios em palavras nuas
Que longínqua seja a nossa verdade
Encerrada em nós mesmos como segredo
Degredo aflorado das nuvens negras
Essas que se abrem e se espraiam
Mostrando o sol da tua alma
Abraçando-me nesse olhar doce…
Onde já tanto choveu…
Alberto Cuddel
19/01/2019

Às vezes chove

Às vezes chove

Cuidas tu que a noite cai para todos? Não, existem aqueles que não se lembram de ver o dia, que olham o chão sujo, que não dizem bom dia, ainda assim não chove em todas as almas, algumas apenas existem, deambulando com fantasmas. Outras há que a chuva lhes escorre pelas janelas da alma, num sofrimento causado pelo mundo dos homens, e homens que não cuidam, que dizem não, que não ficam, que não pedem perdão. Há homens, nesta dura humanidade que orbitam o comodismo do seu umbigo, e como demónios fazem chover.
Às vezes chove, outras faço-me chover, neste inconformismo do desassossego que me habita e me povoa, às vezes encho-me de água, esvaziando-me em sorrisos, outros, contenho as nublosas inquietações que me perseguem, outra evaporam-se com o teu sorriso, na suavidade da tua voz…
Mesmo assim chove, porque a chuva também limpa a alma, e purifica os demónios do passado que nos perseguem, umas vezes chove, outras apenas te banho o rosto com o meu sorriso, num leve sussurro, como brisa tocando nos lábios, abre-se o sol no teu rosto… às vezes chove mesmo com sol, e abre-se entre nós o arco-íris…

Alberto Cuddel
10/11/2018
Marvila, Portugal

Por entre mentas e canela

Por entre mentas e canela

No roçar de lábios hálito fresco
Maresias enroladas em paus de canela
Ninhos redondos na palma da mão
Vínculos secretos por entre matas de amor
Humidade que te escorre da nascente…

Verbos gemidos contra paredes
Vaso hirtos em folhas de menta
Haste que te cresce nas mãos
Senhora minha de voz puríssima
Gemei baixinho ao meu ouvido
Lábios trémulos garganta cheia
Embriagues do sonho, erguido
Rosto que se prostra aos céus
Grito aprisionado nos lábios cerrados…

Por Deus caído no teu colo
Nas chuvas de amor pleno verão
Por ontem sonhado e desejado
Por hoje adormeceu…

Alberto Cuddel
06/09/2017
03:12

Poema do dia 29/06/2018

Poema do dia 29/06/2018

Chovia, num choro imperceptível, quase inaudível, num suicídio húmido contra as janelas do quarto… de ouvido colado ao chão escutava a terra, e o mundo em silêncio…

A terra gritava por amor e cumplicidade
A crosta por verdade chorada e saudade!

Corria pelo caminho apinhado de gente
Sem nada saber ao ódio indiferente
Sorria às moças loiras sem saber
O que diziam não conseguia perceber!

A chuva envergonhada calou-se… deixou de cair e sofrer…
O sol que brilhava por detrás, aqueceu e limpou o sal que escorreu…

Nas ruas apinhadas o granito, sujo e gasto guardava em silêncio o calor do verão!…

Alberto Cuddel
29/06/2018
18:03

Poema do dia 08/06/2018

Poema do dia 08/06/2018

Sabes, chove lá fora!

Sabes, chove lá fora, apenas lá fora, aqui não, não no reflexo de uma alma cansada, não no teu olhar… mas chove lá fora, nem me incomoda o som da gotas que morrem contra a vidraça, sinto apenas o aconchego quente do teu abraço, nos braços que me ladeiam, na forma elegante com que te aninhas em mim. No carinho absoluto de apenas ficar, sem mais, sem uma palavra, apenas no silêncio de estar um com o outro!
As horas jamais passam por nós, apenas estamos ali, naquele doce momento em que chove lá fora, e o frio esse não mora no calor das nossas almas, o frio é apenas a saudade de ontem, quando os nossos corpos não se conheciam, na intimidade do abraço, por que as almas essas, há muito que se pertencem…

Alberto Cuddel
08/06/2018
15:30
 

Não há chuva que nos separe!

Não há chuva que nos separe!

Preso na loucura do teu olhar,
Refrescante sentir no meu querer,
Revivo de novo no terno estar,
Tremendamente comprometido no teu ser!

Quero-te nos quentes dias de verão,
Quero-te nas frescas noites de primavera,
Dançar na outonal chuva refrescante,
Sentir na pele a nortada gelada,
Quero-te aqui, agora, sempre,
Desejo ardente que me corrói,
Enfeitiçado pelo luar do teu olhar,
Pelo rubro calor dos teus lábios,
Quentes palavras, gemidas, ditadas,
No cálido, sedento e avido ouvido,
Da ternas palavras que me elevam,
Na decisão de amar sem fronteiras,
Sem medos de entregas verdadeiras,
Incondicionais, sem condições,
Apenas no querer ser,
Uma vontade,
Um desejo,
Um querer,
Uno, no sentir,
Uno, na decisão,
O mundo somos nós,
Blindada que foi a vontade,
Nada nos inquieta,
Nada nos abala,
Senda refrescante,
De renovada que fora,
A decisão de amar,
Sem condicionalismos,
Intriguistas, do nos podermos molhar,
Na chuva das palavras soltas sem amarras,
De rostos escondidos, tolhidos pela visão,
Que o tesão que nos move, não é apenas vontade,
É querer, é desejo, é saudade,
É amor real e de verdade!

Alberto Cuddel

Ontem choveu

Ontem choveu

Tantas vezes choveu ontem,
Mesmo assim com chuva saio de casa,
Percorro ruas e vielas, passeios estreitos,
Mas não procuro ninguém,
O meu olhar hoje não te procura,
Porque ontem choveu,
E eu sei onde estás, onde estavas,
Onde te encontrei
E te deixei à espera,
Há minha espera.
Ontem choveu,
E eu não te procurei…

Alberto Cuddel

Pompa ou a falsa realidade!

Pompa ou a falsa realidade!

Chovia, uma chuva estupidamente miudinha,
De palavras pequenas, vocábulos pequenos
De grandes e irreais mensagens, ingenuidade
Compenetrado nas verdades dogmáticas do ser…

A irrealidade das coisas, tangencialmente amor,
Loucura assoberbada entre duas despidas almas
Um cantar de melancolia, entre tronos dourados
Assim prostrado, moendo os joelhos, – amo!

Nas ruas, representação estereotipada do ego
Refutam asas e agoiros, e silêncios gemidos
E coisas sem nexo, e bocados jurados de Fé,
Ainda assim invejam tudo o que poderiam ser!

No prestígio falso da pompa de todas as realidades
Reinventam-se em compenetradas falsidades
Criando personagens irreais e vorazes, mutantes
Ficção reflectida e inflamada num espelho curvo!

Alberto Cuddel
Sou conto, sou poema – Autor Publica – 2017 – ISBN 978-989-691-667-1

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