Sem Mim

Sem Mim

A noite caí, 
Fria, solitária,
Aqui neste posto,
Penso, medito, oro,
Sim porque sei pensar, 
Ser falante, racional…
E penso, abandonar-me ao delírio,
Errante na queda das trevas,
Que nos guia e conduz,
Arrebatando o sentir!
Entre um ou dois pensamentos,
Fazes-te presente no ambíguo luar,
A saudade, da luz, do calor, 
Do apenas longo abraçar,
Que deixou a tua partida,
Assim me entrego a tortura da dor,
De sentir perdida a vida…
Assim arrancada no triste penar…
Na solidão a noite passar!…

Alberto Cuddel
22/11/2014
Palavras Desconexas – 14

Canícula

Canícula

… e este estio que me cansa
dizem-me com lábios quentes
experiência… maturidade…
há na temperatura da vida um cansaço
no cansaço dos dias um calor que me derruba
e sem vontade ainda grito: – ama-me
como por obrigação de uma doença
me obrigasse ao movimento que não busco…

…e anoitece, longe o luar chama-me por entre dunas
rebolamos em areias tépidas,
na busca da espuma das ondas
em explosões repetitivas de prazer
inéditas em cada uma delas…

…e nasce o dia, e volta o cansaço
e essa pressa de chegar a lugar nenhum
de fazer o que foi feito
movimentos repetidos
as mesmas cores, as mesmas palavras
as mesmas imagens
e esta canícula que me transpira
que me leva à imobilidade do prazer…

Alberto Cuddel
08/09/2020
14:13
Poética da demência assíncrona…

Canícula na aridez do tempo manso

Canícula na aridez do tempo manso

“Estou vazio como um poço seco
Não tenho verdadeiramente realidade nenhuma
Tampa no esforço imaginativo!”

Álvaro de Campos

nessa vastidão dos sonhos ocos
tropeço em realidades vazias
dia a dia, de sol a sol, a lua mórbida
nesta realidade de acordar e nada ser
a vida escorre sem memória de janelas fechadas…
o que quis do passado por brisas se desfolha,
o que pude de oculto tive em tempo medo;
e olho a sorrir o título no alto da folha:
do calor, nem a água que nos afaga, imagino
coisas vazias que carrego nos braços como nuvens
esperanças vãs que algo mude sendo igual…
não ouvi o que dizias…
ouvi só a música, e nem a essa ouvi…
das tuas palavras retenho apenas a verdade
esse aviso tão certo, nunca vivi estando morto
procurava um sonho, uma irrealidade que julgava
que sonhei existir…
nesta aridez do tempo manso, tudo é tédio
faço apenas o que tem de ser feito
sem prazer ou vontade, tudo é,
porque assim está escrito que seja
uma vida sem sentido, não sentido a vontade
de simplesmente a viver…
falta-me soltar força de existir, por um prazer de ser
que de mim perdi num poço seco sem vida
tenho vontade de renascer sendo eu
mar que me espera entre mundo as descobrir…
olho a janela, fechada como se quer
o calor do mundo não me aquece
e o frio não me estremece
não sinto, e fito o tempo que passa
na copa das árvores imóveis…
nesse arco solar não meço ou espero a realidade
apenas um tempo seco sem vida
de uma vida sem sabor…
e passa na rua uma velha, dessas que esperam a morte
no olhar um sorriso, no rosto o cansaço…
a solidão estampada no movimento dos braços…

Alberto Cuddel
10/05/2020
03:50
In: Nova poesia de um poeta velho

Delírios da noite…

Delírios da noite…

Despejo palavras, arremessadas no papel,
Sinto uma fulgurosa vontade de jogar com elas,
Num momento de pausa, seguida pelo ponteiro fiel,
Escrevo sem nexo, frases como janelas,
Em que por meio delas se vê uma parte,
Nunca o todo, apenas uma fatia da tarte,
Da imensidão que compõe meu ser,
Podes aos poucos como um puzzle conhecer!

Não descrevo paisagens, nem arrebatadoras paixões,
Não hiperbolizo, nem dramatizo,
O que para nós idealizo,
Descrevo os sentimentos de nosso corações,
Apenas descrevo o sonho que realizo!

Escrevo por ti,
Escrevo para ti,
Vivo por Ti,
Vivo para ti!

A noite segue seu rumo,
Os minutos desvanecem-se,
Como seguindo o subir de um fumo,
Vagaroso e pálido no silencio arrebatador da cidade,
E tu? Dormindo, aconchegada na Saudade!

Alberto Cuddel
04:27 21/06/2013

Preso na letargia do calor

Preso na letargia do calor

Amaldiçoada temperatura,
Que nos fazes parar,
Sem vontade de agir,
Sem vontade de mudar,
Ficamos a destilar,
Parados, apanhando a brisa do mar.

Até a Paixão, nos faz desligar,
Volta amena noite, em que nos possamos amar,
Sem um som, apenas o crepitar arrepiante,
De um cigarro a queimar,
E tu, com o teu pedido incessante,
Vamos?
Como com este calor,
Que me tolhe a mente, já nem sei o que é o amor,
Que queres tu que façamos?
Então descobri, num pedido abraçado,
Contigo descobri que para nos amarmos,
Já existe ar condicionado…..

Alberto Cuddel
03/06/2013

Poema do dia 04/08/2018

Poema do dia 04/08/2018

Nessas pedras empilhadas, o sino que chama
Nesses rumos longínquos do tempo que passa
O sol em demanda aquece, aquece…

Tantos de nós, de vós fechados em conchas
Túlipas que secam em campos murados
Sem palavras que nos alimente a alma
Em raízes voláteis e secas de conhecimento…

Começa a haver noite e frescura, em vozes que aparecem daqui e dali, e vales e montes, e mãos e pés que caminham… Trovões e bombos… músicas do tempo de agora, de ontem que se lembram…

A paredes oprimem e aquecem, fecham ideias em janelas abertas, o mundo entra dentro do quarto, da sala, mas prendem-me o corpo… neste intervalo de tudo o que sonho e escrevo, perco-me procurando-me entre as brumas que não chegam e nevoeiros, meras recordações turvas dos copos que tilintavam entre gargalhadas e brindes…

É inútil prolongar este silêncio de escrever… não basta o olhar, a vontade, é preciso sair dizer, gritar… a poesia não é palavra mas voz que ecoe entre papoilas e margaridas ao luar, tulipas de cerveja a tilintar e cafés… “Amores entre aromas de café” a vontade de o dizer de pé, de o gritar, poemas de amor, ridículos, como ridículas as cartas… Nesta vontade de escrever silêncios, calo-me e fico, apenas fico…

Nessas pedras empilhadas, o sino que chama
Nesses rumos longínquos do tempo que passa
A lua vem… não arrefece, não aquece, não chega ninguém…

Alberto Cuddel
04/08/2018
20:50

Poema do dia 02/08/2018

Poema do dia 02/08/2018

Nesta canícula que te consome o corpo
Entre as estrelas e a destilação com calma
O desejo do espirito adormecido…

Noites longas devorando a alma,
Ardente desejo que te consome,
Deliro atroz, dor do sentir, ansiedade,
Preço da conquista,
Que nas palavras bebes… Mansidão…

O fogo do desejo que te inflama,
Estremece teu corpo nesta trama,
Na vontade de ter, de possuir na chama,
Que te incendeia na palavra distante,
No abraço espelhado do forte desejo,
A busca constante do prazer negado,
No toque suave do teu ansiado beijo!

Mãos que inquietas na noite tremem,
Buscam teu corpo, que os lábios bebem,
Líquidos frescos olhando a lua,
Nesse desejo de abraço, quente, nua…

Alberto Cuddel
02/08/2018
21:40

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