Tempo

Tempo

Tempo que cura,

O que na noite perdura,

O tempo que passa,

A ideia que ameaça…

O que o tempo esconde

E recalca…

O que a noite lembra,

E não perdoa….

A fuga,

O isolamento,

O fugir,

Desse impuro sentimento…

No recato da solidão,

Podes ver então,

O que certo estava,

A mais pura razão…

Que o tempo esconde,

Não perdoa…

O tempo recalca e magoa….

Seca a mais ténue esperança…

De que na vida tudo passa…

Como um sonho de criança…

Alberto Cuddel®

15/09/2013

Segredo

Segredo

Encontrei-me onde sempre me perdi,
Toda minha alma coabita no teu beijo
No toque salvífico dos teus lábios
Ébrio no ser pecado ávido no desejo

Caberia todo o meu corpo
Alma que formamos no segredo
Ignorância condenada, pelos deuses
Abrem-se, olhos, lábios por Eva ao Adão
Condena Vénus o homem à paixão
Desejo que perpétuo da fusão!

– Amor, meu doce amor…
[como desejo possuir todos os teus orgasmos]
Bebo sofregamente nos teus lábios
A poesia que me incitas
No movimento das ancas!

Alberto Cuddel

Soneto de Amor!

Soneto de Amor!

No todo amor que de mim intento
No antes propósito, assim o tanto
No olhar, alma todo o teu encanto
Confirmado fiel, todo o pensamento.

Sopro certeiro, sempre louva o momento
No amor divino que se espalha no canto
Na saudade, rezo ao Deuses o meu pranto
Meu pesar, nasce o nosso contentamento.

Tudo de mim que ainda em ti procure
Toda a carne e alma que em nós vive
Pelo sentir que na carne sempre dure.

A dor feliz, deste ser que hoje ama
Força da decisão que em mim tive
Amor-perfeito que em Deus me chama!
Alberto Cuddel
23-01-2017

Corpos… apenas isso

Corpos… apenas isso

Cenário dos desejos mudos e quedos,
– Raios de lua afagam-te os cabelos.
Lábios húmidos, desejo de beijos,
Lua sonâmbula adormecida,
Ondulantes formas de mulher,
Perpetuamente dormente…
Olhar cego e recto como destino
Entre o cansaço do dia e o desejo de carne,
Tolhem o olfacto as nuvens pardas de baunilha,
Mãos que se cruzam junto ao peito
Entre o abraço dos corpos,
O calor que apenas restou!

Olhemos as horas,
E o tempo que resta,
Céus rasgados pelos raios de sol!

Alberto Cuddel
08/06/2016

Podia ser prazer!

Podia ser prazer!

Toma-me os braços,
Inibe-me o movimento dos pulsos
Deixa que as mãos apenas sintam o ar
Esse que sopras no gemido os teus lábios…

Venda-me…
Impede-me de te olhar
De te sentir na alma o contorno…

Comprime-me
Contra o leito
Sobe o peso movimentado
Do teu corpo freneticamente apaixonado…

Apenas não me deixes só…
Neste escuro silêncio que me aprisiona o peito!
Alberto Cuddel
#ComoFazerAmor

De Amor

De Amor

Das carnes de onde me formei
Desejada e amada aos olhos
De uma presente paternidade
Mãe também é, também foi
Tão singelamente mulher!

Do amor derramado que advém de Deus
Dálias, tulipas, orquídeas aos céus
Jarras de lágrimas na saudade branca
Uma declaração vinda do céu, franca!

De amor, são os dias e as horas declaradas
Nas esperas nocturnas e madrugadas veladas!

De amor são as vidas entregues por nada
Pela fé, pela consciência, pela certeza decidida
Pelo sangue, pela superior vontade firmada
Por uma vida maior que o mundo, concedida!

De amor são as cartas,
As formas delicadas,
Do sensual corpo da mulher,
De amor, são os desejos e os beijos!

De amor são todos os gestos que constroem
Que edificam e glorificam o dom da vida!

Alberto Cuddel
10/05/2017
02:50

Desejos perdidos…

Desejos perdidos…

Revolvemos o relógio,
Retraímos o desejo,
Ansiamos o reencontro,
Numa qualquer manhã,
Revisitamos a memoria do cheiro,
Dos sabores, do calor e suavidade,
De nossos desnudos corpos,
Avidez luxuriante de contacto,
Em movimentos ritmados,
Da música que nosso amor produz…

Curtos encontros,
Longos desencontros,
Desejos reprimidos,
Aguardando o breve momento,
Em que no tempo nos encontramos,
Num mesmo espaço, ao mesmo tempo,
Desejo-te metade que me completa…

Alberto Cuddel
28/11/2013

Despertar

Despertar

Renova-se a cada dia,
Nasce-se de novo,
A cada gota de orvalho,
Espelho de minh’alma…

Desnudados ao acordar,
Somos quem queremos ser,
Novo dia para crescer,
Novo dia para viver…

Damo-nos de novo,
Entregamo-nos por inteiro,
Decidimos amar cada dia,
Decidimos ser amantes da vida…

Nos renovamos,
Nos reinventamos,
Nos damos e entregamos,
Pelo Dom que nos uniu….

Pelos ribeiros correntes,
Pelas pedras dos caminhos,
Pelos pássaros nos beirais,
Queremos sempre mais e mais…
Decidimos AMAR, cada dia mais e mais…

Alberto Cuddel
22/11/2013

Cansaço…

Cansaço…

Na terna vontade de despejar palavras,
Num horrendo cansaço que de mim se apoderou,
Volto pensando, nas palavras do passado,
Do abrupto corte de ideias,
Na imobilidade cerebral
Que me envolve o espírito…

Quero mas não tenho vontade,
Tenho vontade e não quero,
Imóvel me encontro,
Pensando em pensar,
Saber o que despejar,
De uma amálgama de ideias,
Vagas e sem sentido…

Estou,
Apenas estou…

Alberto Cuddel
20/11/2013

Nas palavras a revoada

Nas palavras a revoada

No tudo que bafejo
Exalo a ficção do sentir
Quem sabe sonho, desejo?
Mera representação anacrónica da memória
Concepção impenetrável da alma
Vivendo por outros
Existindo em mim
Na força deprimente de não ser
Sendo todos ou ninguém…

Ódio carnal e estonteante
De mim próprio
Nos impróprios desejos da carne
Meu ser desastrado que nos odeia,
E ama em segredo na noite
De todas a mulheres do mundo
Maria!

Incompleta visão, destemido
Em todo o mistério oculto
Afinidade e concisão rogo
Genuflectido ao teu poder
Imploro a cada dia – amor
Um mero torpor nos dedos
Curvas disformes das letras
Arredondados seios, indigência das mãos
Inactivas e soltas, ainda que distantes!

Na revoada das palavras
Descuro todo o seu significado
Libertando a morte certa
Do fim, concedendo-lhe a eternidade!
Ainda que essa eternidade efémera
Se chame em mim apenas Maria!

Alberto Cuddel
18/05/2017
03:12

Supérfluas

Supérfluas

Sempre neste mundo haverá a luta,
Sem decisão nem vitória,
Entre o que se ama e o que não há
Meramente porque existe,
O que ama o que há
Porque ainda não existe.

Sempre, sempre, haverá
O abismo entre o que renega
O mortal porque é mortal,
E o que ama com todo o amor
E não deseja que morresse.

Ainda que a morte
Absorva apenas os bons
Os odiados nunca morrem
Apenas quebram-se os vasos
As flores que nunca murcharam…

Alberto Cuddel
18/05/2017
03:23

Cómoda

Cómoda

Era apenas uma cómoda
Com gavetas e segredos
E nela todos os sonhos
Que sozinhos voavam!

Alberto Cuddel
18/05/2017
05:58

Ondas

Ondas

As mesmas que se quebram
Que se enrolam e escorrem
Numa areia mexida, remexida
Misturada entre espuma e algas
Nuvens que encobrem os dias
Chamamento da saudade
Cadência que me acalma
No doce e odioso canto do mar
Vai, vai, um dia irás voltar?

Alberto Cuddel
18/05/2017
00:27

Desde ontem

Desde ontem

Aqui, precisamente aqui
Desde ontem, ou já
Cansaço ladeado de flores
Separados pela distância do ponteiro
Um acordar
Manta que deslaça de quente
Sentir que se governa
Decide e impera
Dormindo na traseira do dia
Na esperança da noite fechada
Calado, olho, reparo, concentro
Cuidado,
Voltas e reviravolta de uma vida
Estupidamente fingida
Viagem vertiginosa dos minutos…
Espero,
Esperas,
Dormes,
Acordas,
Sob uma manta quente
Que te separa de mim
Assim,
A vida nos encobre
Sob o olhar desconfiado dos dias!

Alberto Cuddel
19/05/2017
05:46

Sempre ou nunca

Sempre ou nunca

as noites morrem todos os dias
os dias nascem de todas as noites…
(…)
inevitavelmente persigo o tempo
todo aquele que perco
no qual me encontro nos teus lábios
nos sonhos recompenso-me
notícias que me nascem na consciência
alma voa pela letra da melodia
pisando flores, perfumando
a dura e bela essência da vida!
(…)
combates com obuses cor-de-rosa
que se calam ao poder económico
manténs o eu inviolável, e o nós?
caem crianças à morte sem vida
sob o peso do meu egoísmo
movimentam-se orações audíveis
braços elevados aos céus, à vista
mas cruza-os na solidão do mundo!
(…)
– talvez o amor te salve!
salvífica virtude, essa a de amar
sem homem, sem mulher, apenas amor
humanidade que te procura,
benevolência que te encontra,
(quanto nos vale o eu, o ter?)
quanto nos vale um sorriso?
os sorrisos acabam com as guerras!
(…)
sempre esqueceste o amor, o sentir
o decidir e perdoar, o buscar perdão!
nunca te importaste com o mundo?
tu bastas-te a ti próprio?
a felicidade reside em ti?
ou no mundo que te abraça?

Alberto Cuddel
18/05/2020
0:20
In: Nova poesia de um poeta velho

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