Ondulação metódica do caos que é o ser

Ondulação metódica do caos que é o ser

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas tuas palavras…

e os degraus eram três
depois dos dois que antes estavam sujos
e eu descei-os, deixei-os para trás
lá onde a infância morre…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

ecoava o cravo na nave vazia
esse ferir das cordas como quem mata
estridentes e lancinantes notas sem rosto…

e eu, eu tu, ali diante do altar…
a minha mão na tua, e pusemo-nos andar
a cidade vazia, o cheiro de morte no ar
não há vida para la porta, para lá do chão…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas minhas palavras…

tantos de nós, de vós fechados em conchas
túlipas que secam em campos murados
sem palavras que nos alimente a alma
em raízes voláteis e secas de conhecimento…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

começa a haver noite e frescura,
em vozes que aparecem daqui e dali,
e vales e montes, e mãos e pés que caminham…
trovões e bombos…
músicas do tempo de agora,
de ontem que se lembram…

eu vou amar-te, para que me perca
ainda que me encontre, nas tuas palavras…

As paredes oprimem e aquecem,
fecham ideias em janelas abertas,
o mundo entra dentro do quarto, da sala, mas prendem-me o corpo…
neste intervalo de tudo o que sonho e escrevo,
perco-me procurando-me entre as brumas que não chegam e nevoeiros,
meras recordações turvas dos copos
que tilintavam entre gargalhadas e brindes…
eu vou amar-te, para que me perca
ainda que te encontre, nas minhas palavras…

“Amores entre aromas de café”*
a vontade de o dizer de pé,
de o gritar, poemas de amor, ridículos, como ridículas as cartas…
nesta vontade de escrever silêncios, calo-me e fico, apenas fico…
nessas pedras empilhadas, o sino que chama
nesses rumos longínquos do tempo que passa
a lua vem… não arrefece, não aquece, não chega ninguém…

e eu?

Eu vou amar-te…
para que me perca
ainda que me encontre,
nas tuas palavras,
que levemente atiras na despedida
“amo-te ainda que não o saibas…”

Alberto Cuddel
02/04/2021 4:44
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LII
*Livro de Tomé Nicolau

Loucura consciente

Loucura consciente

Encontro em vós expoente máximo da loucura,
Contra-ciclo, contracorrente, amor imprudente,
Saudade incoerente, elevada conscientemente,
À saudade dormente, ao encontro noite segura,
Diferentes entre a gente, verdadeiros no sentir,
Com palavras amigas ao acordar e ao dormir,
Partilhas, vivências, loucos amantes literários,
Abertos ao mundo, sem julgamentos arbitrários,
Sois loucos, bem o sabeis, mas bons até demais,
Continuai, não mudeis, pois sois assim,
Firmes amigos, constantes e leais!

Sírio Andrade®
In: Antologia Depressiva

Momentos de outra vida III

Momentos de outra vida III

Sinto-me livre na tua partida, uma ausência liberta de todo o suposto controlo imposto pela liberdade partilhada de uma felicidade ilusória. Sinto-me livre na tua partida, liberto das garras do sentimento ignóbil que nos molda e tolhe a razão, os desejos carnais de posse, de todo o tesão religiosamente reprovável, pecaminoso.
Sinto-me livre na tua partida, nem toda a felicidade nos faz efectivamente felizes, enclausurado que estava por ti, preso nesta deplorável jaula, limitado pela epiderme, rodeado de preceitos e preconceitos, socialmente e moralmente aceitáveis…
Sinto-me livre na tua partida, nestes míseros e escassos minutos onde na tua ausência de homem perfeitamente convencido que me controla, eu poeta assumo, não és ninguém, não és nada, não te permites como eu sonhar livremente as palavras… eu neste tempo que nos separa sou o tudo no pouco nada que me resta!…

Sírio de Andrade®
In: Momentos de outra Vida

Eu quase poema

Eu quase poema

Gotas cristalinas embatem na vidraça
Lágrimas perdida caídas do nada
Almas solitárias choram sozinhas
Grito chorado de não ser amado!
Dispo-me de mim, de cada palavra
A cada nome, uma verdade
A cada poema, capa caída
Não me mascaro, espio o passado
Sou disforme ausente
Consciente de mim
Arranco palavras, capas
Versos, mascaras
Dispo-me de mim
Para que conheças por fim
O nada que sou
No tudo que escrevi!

Gotas cristalinas embatem na vidraça
Lágrimas perdida caídas do nada
Anjos perdidos, já não cantam assim
Choram caídos, apenas meu fim!

Sírio de Andrade®
In: Antologia depressiva

Poema XXXII

Poema XXXII

Autobiografia e psicanálise de ninguém

Virgens de Jerusalém erguei-vos
O noivo chega… Canta Salomão…
Forjei-me a ferro e fogo em cavalos de pau
Ventos de mares alados esquecido no oriente
Amores de Diniz, de Pedro, de Inês, poemas…
Viajem a Paris, incestos, em tempo de Maias
Sintra, tragédias pelo teatro de São Carlos,
Leonor pela verdura, esta estrada não é segura,
Chuva que cai, leve, levemente
Poemas que chamam por mim…
Eis que “o filho do homem” é Régio…
Oh Portalegre… Onde leccionas?

Por entre nadas que tudos são, e os sonhos do mundo
Cantos negros, filhos da mãe poesia, metafisica do querer
Pedras que filosofam e poetas que são maiores que o mundo,
Orgasmos sofridos de mulher açaimada pelos homens…

Rimas decimétricas e estrofes marcadas,
Língua que desenha e tinta folhas vazias
Saudades universitárias de amores à janela
Grândolas que se alevantam, povo que ordena
Ainda assim os meninos em volta da fogueira
Cantam rimas de pobreza e outra de canela…

Sou fruto da miscelânea de tudo
Herança, torpe do nada,
Dos vivos, dos mortos, dos penantes
Dos errantes, dos que escrevem
E de todos os que calam…

Sou porque todos me fizeram
E sem eles eu? Eu seria NADA…

Alberto Cuddel
09/10/2017
15:10

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