Ruínas

Ruínas


todo eu em ruínas,
sim, vagas e vagas de réplicas,
alma desfeita,
não ficou um sentido,
uma vontade,
que não caísse por terra…
não ficou pedra sobre pedra…
sofrimento atroz que me devora,
que me consome…
não há vontade de me erguer
levantar, mover…
nada de nada…
raiva…
a fúria…
que me faz estar…
apenas estar,
sem movimento
pele dilacerada
carne que se desprega dos ossos
não, não me moverei…
as ideias rodopiam
já fora de mim…
onde, onde caí
sim, ficarei aqui
para onde havia de ir…
se ninguém me procura…

Sírio de Andrade
In: Antologia depressiva (2013)

Loucura consciente

Loucura consciente

Encontro em vós expoente máximo da loucura,
Contra-ciclo, contracorrente, amor imprudente,
Saudade incoerente, elevada conscientemente,
À saudade dormente, ao encontro noite segura,
Diferentes entre a gente, verdadeiros no sentir,
Com palavras amigas ao acordar e ao dormir,
Partilhas, vivências, loucos amantes literários,
Abertos ao mundo, sem julgamentos arbitrários,
Sois loucos, bem o sabeis, mas bons até demais,
Continuai, não mudeis, pois sois assim,
Firmes amigos, constantes e leais!

Sírio Andrade®
In: Antologia Depressiva

Eu quase poema

Eu quase poema

Gotas cristalinas embatem na vidraça
Lágrimas perdida caídas do nada
Almas solitárias choram sozinhas
Grito chorado de não ser amado!
Dispo-me de mim, de cada palavra
A cada nome, uma verdade
A cada poema, capa caída
Não me mascaro, espio o passado
Sou disforme ausente
Consciente de mim
Arranco palavras, capas
Versos, mascaras
Dispo-me de mim
Para que conheças por fim
O nada que sou
No tudo que escrevi!

Gotas cristalinas embatem na vidraça
Lágrimas perdida caídas do nada
Anjos perdidos, já não cantam assim
Choram caídos, apenas meu fim!

Sírio de Andrade®
In: Antologia depressiva

Poder de me dar ou tirar!

Poder de me dar ou tirar!

Olho-me no espelho
não reconheço a imagem disforme
do homem errático que se reflecte
perdido nos sonhos rosa do mundo
encontro-me,
nas folhas que apodrecem
na berma suja da estrada
suspenso nos fungos que me consomem
eu, imagem perdida e abdicada de mim
por um tudo, que nada é de concreto
abjecto sentir que me condena
à doce loucura do suicídio
aí de mim, que tenho o poder
para me conceder ou abandonar a vida!

Sírio de Andrade®
In: Antologia Depressiva

Contornos

Contornos

Dou de mim,
De um corpo vazio
Dou de mim,
Do que não tenho
Dou de mim,
Do que imagino
Dou de mim,
Do que em mim invento!

Penso, não sinto
Sinto, não penso
Corro, ainda parado
Paro, estando correndo!

Reinvento-me,
Reescrevendo-me no passado,
Vivendo nas memórias momentâneas,
Desprezo dos homens, traído sentir
Numa suicida ansiedade
De me diluir no tempo…

Sírio de Andrade®
In: Antologia Depressiva

Dissolvido

Dissolvido

O coração cheio de vazio contínuo.
Nada que mude o cego destino.
Rosto pálido, semblante caído,
Águas negras infestadas,
Demónios do passado,
Descrenças, desconfianças,
Atolado neste negro propósito,
Sem salvação, sem vontade de sair!

Queda,
Forças, uma a um abandonam o ser,
Vontade, desejo de mergulhar,
Deixar afundar, aguas profundas,
Ausência de luz, palavras, querer,
Lua, noite eterna,
Luar ambulante que me perde,
Que me encontra, despedaçado,
Arremessado continuamente pela corrente,
Há rochas firmes da certeza do orgulho,
Assim me diluo, neste mar que me absorve!

Sendo noite, na desilusão, deste (A)mar!

Sírio de Andrade®
In: Antologia Depressiva
09/10/2015

Negro despertar

Negro despertar

Do sonho que desperto
Pesadelo da realidade
Queda ansiosa em mim
Dura consciência de ti
És e não existes no ser
Visão deturpada do querer
Asas quebradas não voam
Não se elevam, caem esquecidas
Agrilhoada em ti, desprezas-me
Como um ser disforme
Horrivelmente usável
Descartável, esquecível
Desprezivelmente violável
Desperto usado sem nome
Apenas uma noite, palavras
Foi bom, apenas foi
Passado, o presente não existe
O futuro, esse já foi esquecido!
Desperto e caio,
Na realidade
Que eu não sou
Não existo
Por não me saberes
Existir!

Sírio de Andrade®
In: Antologia Depressiva

08/10/2015

Fantasmas

Fantasmas

Reescrevo longa considerações,
Angustias veladas perdidas no tempo,
Aninhado em mim, querendo partir,
Escuros lugares de onde quero fugir!

Há trevas que me envolvem, fantasmas,
Desoladores pensamentos, pesadelos,
Triste passado, sempre e sempre recordado,
Na fuga que quero, sair de mim esquece-los!

Há vontade de mim que me consome,
Recolhe em mim no interior o sofrimento,
Que a ti nada te turbe, neste feliz momento!

Quero dar, sem sair, extrair o negro ser,
Triste e enfadonho, frio e calculista,
Que a capa exterior recolhe cá dentro!

Sou, sem ser, o que vês e não crês!

By Sírio de Andrade®
In: Antologia Depressiva

04/10/2015

Poema sem luz

Poema sem luz

Pudesse eu aniquilar-me no desejo de deixar de existir,
dar corpo à anti-matéria que me corroí as entranhas.
Pudesse eu imobilizar-me mo desejo apenas de estar quieto,
ate que o coração abrandando o ritmo, parasse nas batidas sincronizadas.
Pusesse eu tornar-me folha em branco onde coubessem todas as ideias do mundo, para que o pensamento se desliga-se.
Pudesse eu absorver em mim toda a luz, para que a luz se apagasse, e na ausência de luz, apenas contemplasse o vazio, e nesse vazio encontrasse o meu ser, o propósito, o meu fim…

Sírio de Andrade

Foram-se as pedras e as ideias

Foram-se as pedras e as ideias

Abandonei voluntariamente o trono
E todas as escadas onde me ergui
Esqueci-me da noite, das palavras e de ti…

Deixei que o pensamento vagueasse na rua,
Que a fome roesse a mente, desilusão
Deixei de pensar um tudo e os sonhos
Correm as águas por valetas porcas e secas

Vi a luz apagar-se nos homens
A morte correr, espreitando janelas
E tubos fumegantes, por entre roupas rasgadas
E moços de calças baixas, rindo em grupo
Sob corpos estendidos no chão…

Não há pedras que se atirem
Ou escritas na areia de cabeça baixa
E as ideias? Prendem-se escondidas
Por entre massa cinzenta e paredes de cálcio
Calam-se as vozes, discriminam-se os que pensam
E todos pintam de dourado, os fios que pendem
De uma triste bola cimeira, onde nascem duas bolas
Que esbugalhadas seguem o rebanho…

Fetidamente escorrem os dejectos pelas soleiras,
Esperas timidamente na “fila” papel plástico estendido
Onde hipotecas os dias, e as noites, nos gestos mecânicos
Engordando os já gordos senhores do mundo…

Foram-se as pedras e as ideias…
Condenaram-se os mestres à pobreza
E os doadores de DNA, geram-te
Mas não te educam…
Esqueceram de te ensinar a pensar…
A censura do mundo dita, e tu ordeiramente
Fazes… Fezes a que chamas vida…

Alberto Cuddel

Confissão

Confissão

Afaste de mim o gosto que eu não gosto
Acredite-me no que ainda não aposto
Encha-me o meu crescente e parco vazio
Noites sós em que de ti me distancio!

Sou apenas metade do que fui, não ligo
na perda do todo afastei de ti o perigo
crente fui eu na abnegação do amor, cego
em mim esconjuro a convicção, eu me renego!

Certezas clamaste que em ti edifico
nunca semelhantes aos actos que prático
fiz-me passar viscerais tormentos
nas palavras, carinhos e outros alentos!

Deixo de mim versos escritos
de paixões, traições, e outros ditos
não espero remissão ou compaixão
na alma sei que não terei redenção!

No inferno onde resido e mantenho
sofrimento do pecado tudo o que tenho
apenas de mim, por amor a ti te peço
na verdade que hoje aqui confesso!

Ai de mim pobre e enganado pecador
prazeres da vida, fiquei com a dor
por narcisista egoísmo vi-me sofrer
a solidão que tenho até morrer!

Sírio de Andrade

Powered by WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: