O doce pinho hirto…

O doce pinho hirto…

já não morrem de pé como ontem…
as pedras ferem-me os pés, quelhos
neste céu verde que me cobre
apenas os pássaros, e eu… esse gritar doente
nem eles ou as águas me abafam os gritos
dou comigo sentado numa pedra, perdido neste mundo
olhando à minha volta alheio, indiferente a tudo
vejo a vida que passou por este corpo, qual borboleta
num voo irregular ziguezagueante e mudo
levantei um braço, como que a dizer, vai-te embora!
vida que me deixaste, qual sombra de mim a vegetar
o vento frio agreste me acorda e me desperta
do torpor em que caí, neste eterno arrastar
um caminho que me leva, que me traz, que me deixa
e um pinheiro que se agita, que me olha e me fita
uma ave que não identifico, asas curtas cor de ameixa
e uma mente inquieta que se ergue da pedra, fica…
olho-te ao longe na curva da estrada…
e penso… penso e não te vejo…
a estrada morreu… e o pinheiro caiu…
e eu? Onde me perdi eu…

Alberto Cuddel
24/05/2021
17:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha LXIV

Cálice de Fel

Cálice de Fel

Não me reconheço nos teus sonhos
Asas da noite que o mar engole,
-como te atreves a sonhar-me?
Gota do nada, silêncio que te falava
Tentações vibrantes da sede incólume
Já mais, escorregarei na “Ínsula divina”
Cálice, me atentas, contra divino amor!

Vai-te de mim, má sorte, regente da noite,
Ladeias melosamente o quintal adormecido,
Dormindo, luar que me mantem enfeitiçado,
Doce perfume, gerbérias desfolhadas…
-Nada podes, absolutamente nada,
Sou entregue, livremente…

Levanta-te Afrodite, condena-me,
Antes entregue aos leões do coliseu,
Que aos prazeres enganosos da tua carne,
Vai-te de mim, sob deusa do Amor,
Nada me aprazes nesta triste saudade!

Alberto Cuddel®
30/03/2016

Rebordo amordaçado do luar

Rebordo amordaçado do luar

aquilo mesmo que senti me é claro.
alheia é a alma antiga; o que me sinto
chegou hoje, de longe uma onda que morre
enrolada n’areia fina que se move, espuma-se…

não há nuvens entre mim e o céu
as estrelas brilham e adormecem
Maria imóvel baila nos pensamentos e adormece
como quem beija o penhasco, fustigado pelas águas
entre a claridade das copas, brilha a lua que esmorece…

pares e diferentes nos regemos
por uma norma própria, e ainda que dura,
será à liberdade, inconfidência clara
de tudo é que por Deus ama, e sofremos
mesmo que morramos um no outro, sentimos
porque sentir é amar plenamente,
mesmo que nada façamos, a vida condena-nos
a esta verdade estupidamente humana
que é amar apenas por isso,
por ser esse o nosso propósito…

Alberto Cuddel
17/05/2020
05:17
In: Nova poesia de um poeta velho

Culpada

Culpada

Há na culpa que carrego uma doença
– Levei e eu mereço

Não foi a escrava que desejavas
– Respondia e maltratavas

Não foi a empregada que almejavas
– Não fazia e tu berravas

Culpada, por não ser a amante perfeita
Por não ser a esposa perfeita
Pelas derrotas do teu club
Pela falta de dinheiro
Pelo comportamento da sogra
Pelos choro do filho…
Culpara e saco de pancada
Culpara sem ter para onde fugir
Por ter medo de partir culpada
Por achares que o chegar era trair…

Culpada…

#poeticamortem
@Suicídio poético
13/09/2019

Se amo não me basta, quero saber-me

Se amo não me basta, quero saber-me

Que sejam brandas as horas nessa lonjura
Ancorado na profundidade da tua alma
Não me basta amar-te, quero saber-me
Quero saber-me de ti e por ti nos gestos!

Descobre-me debaixo da rudez da face
Nesta alma carente e incompreendida
Sorriso tantas vezes roubado do semblante
Hoje, depois de um ontem sorrio, sei-me!

Não busco a compreensão das palavras
Sons proferidos sem sentido nos lábios
Tão pouco beijos apressados de despedida
Procuro gestos, um gesto que me diga…

Procuro as borboletas que morreram
As andorinhas que nasceram e partiram
As nuvens que desenhavam céus a correr
A brisa no rosto que nos levou a nascer…

Olha-me além dos olhos, além do visível
Além do que dou e do que sou, Amor,
Completa-me a alma, a carência de afecto
Encontra-me, preenche-me no que te dás!
Se te amo, não o digo, sabe-me nos gestos
Nesses teus onde me desejo saber!

Alberto Cuddel
21/10/2018
Sob Reserva Privada

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