Reflexões do amanhecer

Reflexões do amanhecer

“sabes em quantos dias divido o mundo?
ou qual é a distância entre a madrugada e o crepúsculo?
quantas as vértebras que arranquei para expor a alma,
ou a roupa que vesti para esconder a lágrima?”

despertam as pernas no orvalho,
e os pés que caminham em direcção ao trabalho,
correm as pedras soltas, e as linhas do caminho
o sol que timidamente aquece, esmorece ao dourado da cor…

vesti-me de túnica purpura… era comum o verde
na expiação da alma, penitência imposta
caminho descanso sob espinhos, as mãos estendidas vazias…
cingi os rins…

invento sonhos que nunca sonhei,
em dias que nunca dormi,
poemas que nunca escrevi,
mesmo que sinta em mim que o fiz,
que o quis, nesta poética macabra de pensar o nada e o tudo,
o tempo que foi e o mundo, uma ausência temporária,
uma outra imposta, neste tempo que avança sem retrocesso,
neste novelo que desenrolamos!

passeamos pela alvorada de mão dada,
em jardins que nunca floriram,
embalados pela brisa do fim do Verão,
sem nunca lá termos estado, beijei-te,
como quem beija intensamente e sem pecado,
ali, diante de todos, de nós e do mundo,
fomos sonho, e carne, e sentir, e desejo, fomos tudo… e os dias?

os que não fazemos, apenas existem,
esperamos o depois de amanhã,
ou um futuro que chegue, ou um sonho, um poema,
ou apenas um acordar juntos com o sol batendo no rosto,
enquanto caminhamos…

Alberto Cuddel
01/10/2021
09:00
Alma nova, poema esquecido – XXXVI

Esta dor de amanhecer longinquamente…

Esta dor de amanhecer longinquamente…

Aqui, bem aqui, amanhece devagarinho
Rangem os troncos pelo sol a romper
Cheiro de urze, resina e algum pinho
Humedece esse orvalho de amanhecer…

Assim é todos os dias,
Tão vividos em surdina, tão cheios de esperanças
Fazendo de tudo arte, nas pétalas que se arrancam à consciência,
Tudo é limpo, puro como ribeiro de degelo…
Quadros férteis, não de figuras femininas imaculadas
Mas de mulher, de terra mãe e aconchego
De abraço reconfortante…

Na alma ressoa uma orquestra oculta, sons naturais
Essa voz que me chama, entre raios que me entram pela janela
Um apelo estomacal de café quente…
Brincam as borboletas irreais pelo excesso de luz…

O tédio da solidão em leito vazio,
Ainda que me arda o peito em saudade,
Quem tem, não perde, encontra…
Mesmo que creia, até a dúvida é impossível
Nesta impossibilidade real de ser hoje…

Mas o sol nasce, ergue-se
(vagarosamente)
Entre o cheiro de urze, resina e algum pinho
Pelo que é naturalmente natural
Num caminho verdadeiro de ser
Apenas perfume de um corpo ausente…

Alberto Cuddel
07/02/2019
17:30
#osuaveaconchegodopoema

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