Poética XIV

Poética XIV

hirtos mastros erguem orgulhosamente bandeiras…
onde vos mora a pátria?
no chão? na voz?
no coração, na alma humana?

sou filho das gentes com quem me cruzei
filho do mundo e da língua que falo
enteado adoptado pela terra onde vivo
herdeiro das palavras já escritas
filho bastardo da literatura marginal

filhos dos mestres que me ensinaram
e de ti, madrasta filosofia que me ensinaste a pensar
e de ti alucinado poeta que me obrigaste a descobrir-te…

filho da rima e do ritmo do fado,
do vira do Minho e do volta a virar…
sou filho das gentes, não do lugar…
é nesta pátria língua que nos conhecemos
não na poeira dos pés, não nas pedras do monte…

quem somos e quem nos fez…
como viemos, onde estamos
pouco importa… apenas sei
que me entendem…
e ser humano é partilhar o que se sabe…
com outros que nos compreendem…
isso é ser… existir…
o resto…
bem o resto é apenas naturalmente natureza…

Alberto Cuddel
26/03/2021 15:15
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVIII

Poética XIII

Poética XIII

Há na noite vadia,
Pronuncio de sede
A leveza das palavras
E esse querer livre que nos consome…
Há copos partilhados
Segredos bebidos nos lábios
Voltas nocturnas nas dunas
E bronzeados de lua…
Esse tesão consumido
Querer gravado nos silêncios
E vírgulas em contramão.
Contra-ordenações da interpretação
Orgasmos nas exclamações
E comboio que passam
Sem a noção real das rimas
Caldeira cheia de carvão…
Pouca terra, pouca terra
Água que nos enche a caldeira
Mel bebido nos lábios
Em prece oração fálica
Bebes segredos da poética
E entre autores, ética…
Ninguém mama da inspiração
Apenas beija os seios
Do amago da significância…
Entre as eloquências da aparência
És… de Prada despida mulher
Rubro batom nos lábios
Verniz encarnado, nas faces de quem lê…
Assim é o orgasmo poético
Bebido lentamente
Em copos de poemas…
Engarrafados no tempo
Em que o poeta sadino
Com escarnio e bem-dizente
Cantava os orgasmos da corte…
Em resposta e contra-resposta
Que o ignorante nos pague a conta
Deste poema grosso
Que nos enche a boca…

Alberto Cuddel
22/03/2021 15:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVII
Poema resposta a Cristina Pinheiro / @asas da Cris

“Cabaré”

Gosto da noite vadia
Ostenta luxo e fantasia…
Sinto em mim odor sexo. ainda quente…
Excitante rotina de prazer!
Sou menina vestindo oiro
Talvez Prada ou Gucci talvez!
Me reinvento dia a dia
Neste alegórico trilho
Que preenche a minha vida…
Desfilando pelo baile
Oiço risos de engate
Derivam estes por vezes
Do Grant’s já embebido
De um coração desesperado…
Sim, gosto que olhes para mim
E me chames para ti…
Mas presta atenção… tem coragem
Olha-me nos olhos da verdade
Ouve o bater do coração…
Somos dois seres tão iguais!
Lembra-te que um dia eu também fui criança
Talvez criada no Nada…
Quedas mais quedas eu dei
Fiquei desenformada do que um dia talvez fui…
Tantas vezes o odor do vício desprezível me agoniza
E então vomito estas sequelas vividas…
De mim fujo!
Transformando-me então naquela boneca vestida de Prada preenchida d’um nada…

Cristina Pinheiro

Foto de João Gomez photography

Poética XII

Poética XII

o corpo essa alma móvel na perseguição do Olimpo terreno
arte de sonhar diferente do estar, sentir o sol em dias de chuva
uma linhagem de interpelação permanente, sou, és, onde estamos?

olhamos lado a lado a vida que nos passa pelos pés
essa vitória do espírito sob o corpo nosso
olhar os montes para lá do por do sol,
e o vento nos cabelos, o amor ali, na ponta dos dedos

juremos juntos segredos nossos, não da vida
mas da alma que sonha além do homem e da terra
além da vida e da existência, segredos pensados em sonhos
e neste desassossego da escrita, em que as palavras existem
somos apenas apêndices de uma alma velha que se desmembrou
vidas cruzadas e repovoadas pela história…

lemo-nos, nesses silêncios ocultos por de trás das vírgulas do tempo
no contorno acidentado das vogais…
há nas palavras esse rasgo de vitória
essa força sobre-humana de gritar ao papel palavras da alma…
essas que o corpo guarda em prisões neurónicas
quando à alma já não é permitido chorar…

sabes poeta… tenho inveja dos que não lêem…
esses não conhecem a tua angústia…
assim, sofro, não por mim… mas pelas palavras que te nascem…

Alberto Cuddel
19/03/2021 17:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVI

Poética XI

Poética XI

neste olhar distante, olho…
por essa nesga verde
por entre troncos hirtos
esse caminho de fuga
fechado, estreito, sem destino.

nessa frincha de céu visível
deposito os sonhos, como ovos que capto na lente
nessas nuvens que passam livre para lá do portão
aponto a nesga do olhar que ninguém vê…
confundidos entre o verde da vida
e todos os outros que se erguem estáticos do chão…

essa esperança que vive para lá da vedação…
para lá do hoje e do amanhã…
para lá deste carreiro cotiado até ao portão de tábuas…
e as tábuas… essa prisão eterna do corpo…
“ repousarás na terra numa caixa de tabuas,
sete pés abaixo do chão…”

e escondo-me aqui, bem aqui entre um tronco e o outro
e olho, o carreiro, pelo cristalino
enquanto sonho, com essa esperança de fuga
virtudes da liberdade, de pois de transpor as tabuas…
espirito e alma… livres dos vícios terrenos…

Alberto Cuddel
15/03/2021 16:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLVI

Poética X

Poética X

o que mostras nesse olhar?

mostras-te mulher, fértil
nessa fertilidade poética
nessa plenitude da existência
nas metáforas incompreendidas…

leio-te nos silêncios
nas quimeras sonhadas
estampadas no rosto
nas verdades ocultas por detrás do olhar…
leio-te nesse arco armado sem flecha
sem coração onde apontar
nas desilusões da alma
na carência do corpo…

leio-te sem julgamentos ou medo da morte
compreendo o sentir e a sentença aplicada…

leio-te no verde que carregas no olhar,
na falta de luz que o ainda faz brilhar
e essa tristeza ondulante como chama
de uma luz que arde, cintilante, mas frágil
soprada pela brisa de um vento sem norte…

entre a fronteira… uma tinha ténue
entre a vida e a morte, entre o amor e a sorte
entre o ódio e o azar, entre a partida e o ficar…
fica quem não ama, ama quem parte, e odeia…
odeia a sorte de não saber em que dia conhecerá
a sua alma a morte…

Alberto Cuddel
15/03/2021 15:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLV

Resposta ao desafio directo 1º de Ruth Collaço

Poética IX

Poética IX

corpo-vento na liberdade do sonho
movimento que me acaricia os lábios
transmutação das dunas, recolhimento
sabor espuma das ondas da madrugada
sorte oculta do acasalamento dos sábios
corpo-vento caricia longa e sagrada…

reveste-me a alma de sonhos
papagaio de papel em cordel de prata
percorre-me a alma de vento-corpo
abraça-me na brisa que percorre o ribeiro
faz-te foz em mim e desagua…
fresca e doce, límpida e oxigenada
repleta de vida em ti, toda tu fervilhas…

trilha-me os caminhos, serpenteando as acácias
eleva-me a copa frondosa dos carvalhos
sejamos pinho e sobreiros,
morramos de pé como os abrunheiros
agitemo-nos neste corpo-vento que nos toca
olhemos de frente o prado que baila
sob a brisa de nossos corpos nus…

sou poema e corpo-vento que sonha
vontade e alma-corrente, sejamos naturais
tão naturais como a fome e a sede que nos abraça
um querer absoluto que nos consome na virtude
a liberdade de ser, corpo-vento…

Alberto Cuddel
10/03/2021 10:00
In: Entre o escárnio e o bem dizer,
Venha deus e escolha XLIV

Espelho

Espelho

Tocasse eu o reflexo do teu corpo
Na gélida margem da realidade
Fizesse eu tarde do teu leito
Contorcionismo arqueado do teu ser,
Lençóis fumegantemente perfumados,
Perfume do amor em nossos corpos!
Fosses imagem refletida,
Desejo espelhado no sonho
Realidade ansiada, simétrica de ti
Toque na alma sedenta, ávida
Do querer possuir em ti
A fonte do prazer supremo
Realização do amor
Platonicamente sentido
Refletido
Habitante do meu ser
Embriagues das noites solitárias
Saudade arrepiante da minha pele
Sinto-te em mim,
A cada momento
Meu olhar toca o infinito
Mundo que habita o meu corpo
Elevando o meu querer!

Alberto Cuddel®

31/05/2016

Mau actor

Mau ator

Nas ondas,
Altos e baixos,
Texto roubado,
Marteladamente
Irónico
Sentir fingido,
Esfumado nevoeiro,
És sem que sejas
Mais que um ato, toscamente representado
Ode, romance trágico, sentimentos
Que já mais serão teus…
E mesmo assim,
Chegam as andorinhas na primavera!

Alberto Cuddel®
17/06/2016

Pensei escrever-te um poema, uma carta

Pensei escrever-te um poema, uma carta

Que recordasse o dia
A chegada, a partida
Das lágrimas secas
Dos motes, das veredas
Do amor, da paixão
Dos sonhos
Que nunca
Se realizarão!

Pensei escrever-te um poema, uma carta
Que te falasse do dia, da noite
Dos desejos, do trabalho
Do calor, do soalho
Do jardim, das flores
Das que floriram no teu olhar
Da vontade inconsolável de te amar!

Pensei escrever-te um poema, uma carta
De um amor que tenha vida
De sussurros, arfados arpejos
De loucas mãos e frutados desejos
De uma noite longínqua esquecida,
De corpos suados nos abraços
Dos brados perdidos nos espaços!

Pensei escrever-te um poema, uma carta
Mas porque escrever
Se não tenho o que dizer
E tu, vontade nenhuma
Para a ler!

Alberto Cuddel®
17/06/2016

Minuto

Minuto

nunca pedi o tudo,
nem que fosse meu, cada segundo,
apenas a serenidade
a liberdade da entrega
a cada lugar deserto
distante de mim, tão perto
se amo, aplaca em mim as dores
caídas na saudade vertida no olhar!
amo, se amo!
mas doem-me as noites distantes
a cada minuto que passa…

Alberto Cuddel®
18/06/2016

Sei o teu nome

Sei o teu nome

Sei o teu nome,
mesmo que não tenha principiado
que o tempo parado, não se tenha iniciado.

Sei o teu nome
Na posse que me concedes a liberdade
Olhar que me toma, que me edifica e acalma

Sei o teu nome
Escrito nas ruas por onde passo
No tudo o que sinto,
No tudo o que faço!

Sei o teu nome
Chamo-te, desde ontem
Chamo-te, no mundo
Fortalece-me na virtude
De me chamares também
Pelo meu… Sei o teu nome!

Alberto Cuddel®
18/06/2016

Por três vezes…

Por três vezes…

Sobem-me aos lábios duvidas estranhas
Sim, não, incertas negras montanhas,
Noites distantes, ausentes e suplicantes
Caem sob os telhados gotas brilhantes
Sentires alheios, sonhos e passos perdidos,
E por três vezes me negas o beijo
triste e caído, dormente desejo…

Alberto Cuddel®
19/06/2016
12:00

Sei que me procuras

Sei que me procuras

Sei que me procuras
Nas horas extraviadas da vida
Nas auto-estradas feridas
Amargura consciente em que me dou
No negro soalho polido do palco
Disperso nas rimas e palavras perdidas
Num coração dilacerado pelo fingir!

Sei que me procuras
Mas na verdade, não finjo, não minto,
Imagino parte do tudo o que sinto,
As hiperbolizadas lagrimas derramadas,
São meras gotas cristalinas, caídas e suadas,
Não me procures na desgraça, na vingança
Mas na solidão de uma praia deserta,
Apinhada de gente no verão!

Sei que me procuras,
Como procuras a felicidade,
Na saudade da perfeição,
Não estou lá, apenas aqui,
Escrevendo na doce paixão
Do sentir declamado pela imaginação!

Alberto Cuddel®
20/06/2016

Da alma,

Da alma,


Siga o caminho. E eu sigo, a luz o ilumina, a alma o conhece. Dizem-me:

“é longo, sinuoso, apertado e pedregoso, corte à direita siga por este atalho, mais largo que estreito, onde das paredes brotam rios de mel.”

E nesta duvida apertam-me os pés, nas pedras que afasto de mim, pedras que construíram castelos, muralhas sem fim. Rumo traçado reconhecido, de premio certo… sigo o caminho, a candeia que me concedes e a mão com que me amparas, ainda ontem a beijei. Concede-me tempo, para que diante de ti o aplaine e remova toda a areia que te ferem os pés… concede-me a mim, Homem, apenas o direito acompanhar-te…

Alberto Cuddel

08/06/2016

Soletro

Soletro

soletro soluços por entre lágrimas,
– olho o mar, e a ausência deixada
jamais pesquei saudades,
ou homens com verdades
inscritas a ferro e fogo no peito,
sem medos, pudores, afeições,
tudo pela vontade e desse jeito,
(nunca ao primeiro olhar paixões)
gravei, soletrei na areia o teu nome,
lavado e levado pelas lágrimas
que soluçando soletro!

Alberto Cuddel®
23-06-2016

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