Poema XXI

Poema XXI

Entardece o dia
Por entre areias molhadas
Nuvens transportam sonhos
Olhares que se cruzam na lua
Fome de ser minha, na fé creio…

Amanhã velarei o dia de hoje
Ontem, qual ontem?
Voam folhas em marés esvaziastes
Lua embarcadiça no horizonte
Lívida solidão que me conforta
Reflexo das águas turvas…

Externo exposto ao vento dos tempos
Alma encoberta por alvos mantos
Purificado na baptismal crença
Banhado em águas frias…

No peito teu que leio
Deposito o meu olhar
Descanso das letras dos montes
Por vales de estrofes rimadas…

Passos, largos, apressados
Perdidos nas areias da vida!

Alberto Cuddel
01/10/2017
21:40

Poema XX

Poema XX

Emparedado por muros altos
Vivo longe do mundo que me tenta
Tudo me tenta, nada me acalenta,
Loira ou morena de altos saltos…

Isolo-me do mundo torpe e imundo
Desejos pecaminosos de tão bons
Vagueio por distantes sentires do mundo
Palavras sussurradas e em roucos tons!

Fecho-me em paredes brancas e ouro
Preso, enclausurado mapa do tesouro
Ciente de que os sonhos, habitam-me
Prendo-me por detrás de portas sem chave
Viajando entre versos, entrego-me
Voando pela mente, solta ave…

Fecho-me em mim, protegendo-me
De mim mesmo…

Alberto Cuddel
01/10/2017
18:00

Poema XIX

Poema XIX

Tenho livros em casa
A casa cheia de livros
Sem vontade de os ler
Porque o haveria de fazer?

Ontem, apeteceu-me viajar
Li-te, nas loucas viagens
Rios sem foz, margaridas sem jardim
Eu, lia, lia… assim… assim…

Perdi-me nas rimas de amor,
Lagrimas de saudade
Numa carta ferida
Uma ou outra verdade…

Li, li, reli, voltei a ler…
Agora não me apetece
Já não tenho vontade
De tanto ler, só quero é viver…

Tenho livros em casa
A casa cheia de livros
Sem vontade de os ler
Nasce em mim o adormecer…

Alberto Cuddel
30/09/2017
21:00

Poema XVIII

Poema XVIII

Nada pronuncies
Acerca-te de mim
Sente o vento passar
Que passe, entre nós
Até que espaço não haja
Lábios unidos no silêncio…

Sejamos descrentes do mundo
Na vã filosofia da realidade
Distâncias que se anulam
Desejos fecundos
Nossos e outros mundos…

Descruzemos pernas cruzadas
Levantemo-nos daqui…
Onde desaguam os rios
Mares que se encontram no luar
Migremos, como migram andorinhas…

Abandonemos os preceitos
Regras, corpos, existência
Sejamos energia, alma
Sejamos nada… apenas…
Um sentir inquieto
Que o tempo separa…

Universo conspira
Constipado espirra
Neste tempo
Baralhado…

Alberto Cuddel
30/09/2017
16:45

Poema XVII

Poema XVII

Quem me roubou de mim o que sou
Por entre olhares despidos, letras soltas
De dentro de mim os sonhos, versos
Arrastados e lidos entre poemas…

Quem me roubou o que sonhei
Lendo, relendo, juntando e separando
Sonhos e segredos inconfessados
Escondidos nas vírgulas desalinhadas…

Erros nos passos atrasados
Misturados com palavras futuras
Ervas daninhas nas bordas
Canteiros de rosas e margaridas
Um malmequer nascido no meio…

Quem me roubou de mim a vida
Vida caiada de branco e cinza
Fogo que arde no peito aberto
Saudade de um hoje que nunca foi….

Sou a amputação provocada
Homem, ou um quase nada…
Roubado a cada rima…

Alberto Cuddel
29/09/2017
18:50

Poema XVI

Poema XVI

Despem-se os dias inglórios

Mãos vazias em alma cheia

Despejo-me, esvazio-me

Abandono-me, dou-me…

Vem,

Sei que o vento me varre

Que me ergue e limpa nos braços

No baralho dos pensamentos

Ideias desordenadas e vazias

Vem… leva tudo de mim…

Deixa-me a fome de cor

Telas vazias de palavras ocas

Rimas soltas por inventar

Lombadas brancas sem título…

A luz, atravessa a sala

Os quartos, divisões

A luz penetra-me

Extinguindo-se na sombra

Paisagem inventadas dentro

Fora, na mente que mente

No sentir que sente

inventa e que dói nas mãos…

Vazio… Escorro-me

Pelo mar que me assalta

Que me adentra na alma

Enchendo-me de Azul…

Alberto Cuddel

28/09/2017

17:50

Poema XV

Poema XV

Rodam rodas redondas
Tic, tac, tic, tac…

Tempo, cru e nu
Veste-me as lágrimas
As que caem e as que calo…
Silêncio velado na ilusão
Sonhos? Nos que adormeço
Esperança de um acordar…

Tempo, redonda medida
Veste de branco, verde
Dourado e cinza
Ardem-me os dedos
Pernas cansadas
Duro caminho
Vozes desprezadas…

Engordam-me as pedras atiradas
Olhares de soslaio atirados ao desdém
Ombro amigo? Mão? Ninguém…
Arrastam-me as horas, as que perco
As outras perdidas que perco…

Rodam rodas redondas
Tic, tac, tic, tac…

Alberto Cuddel
27/09/2017
22:00

Poema XIV

Poema XIV

Deste amor sem pele
Que me adentra na alma
Que mói e que queima por dentro
Que tem fome de corpo
Que vive e sobrevive
Nas marés do tempo
Nos ciclos da lua
Entre os sois e as madrugadas
Em ledas alvoradas chorosas…

Que me consuma nos dias
Nas noites paridas nos dedos
Nas mãos esquecidas e medos
Nos espinhos do tempo
Nas chegadas e partidas
Nos minutos em contratempo…

O doce e velada saudade
Dormindo nos ramos caídos
Nas folhas douradas levadas
Por ventos quentes e tristes
Que morrem no solstício…

Matam-me as frases feitas
Um amor enjaulado nas formas
De um anafado corpo corporativo
Que me dita a vida…
Amo, livremente…
Ainda que me condenem
As horas de solidão…

Alberto Cuddel
26/09/2017
18:18

Poema XIII

Poema XIII

Na consciência de existir,
Na raiz da génese, feitiço
Folhas douradas onde escrevo
Vazias do tempo, que não conheço

Enlouqueço na ânsia do desejo
 -sonho, realidade, pecado
Onde me esqueço de mim
Noites tristes, hirtos seios ao luar…

Viajo nos versos sem tempo
Lugares distantes que desconheço
E teço, teço, teço…
Sonhos e volúpias sem fim
Virtuosa nereida que me elevas
À loucura minha que desconheço
Nas loucas horas que me afasto…

Correm seivas livres
Troncos hirtos, florestas virgens
Palavras caladas, silêncios lidos
Desvendas-me, livre e solto
Sem arreios ou sela
Cavalgando mares e praias
Desertas, despidas, águas cálidas…

Onde me deito, nas noites claras?
Ardendo no peito, palavra que calas…
Uma saudade sem tempo, sem verdade
Que quem nunca viveu a tua liberdade
Poeta, poeta onde sonhas?
Rimas soltas, e armas erguidas aos céus
Vozes que clama caladas
As saudades dos seus…

Alberto Cuddel
24/09/2017
06:31

Poema XII

Poema XII

Seguem as noites desamparadas

Brancas vestidas de nadas

Distantes entre o céu e a terra

Neste inferno de mar, barca, barca

Leva-me, vem-me passar…

Abrem-se as portas ao vento

Poltronas esquecidas vazias

Salas despidas de gente sã

Frases vazias, soltas, diferentes

Onde moras saudade?

Pesa-me o céu como porto de abrigo

Cavalo alado, triste meu fado

Olhar que pragueja sem sentido

No vale, no rio, sem abrigo

Fé perdida fora, crença no pó

Eternos portões de Pedro, triste só…

Onde habitas corpo meu

Carente necessitado do teu?

Palácio em ruínas, onde morrem os sonhos

 – Nas vozes distantes, perco-me…

Algum dia me votarei a encontrar?

Alberto Cuddel

23/09/2017

23:36

Poema XI

Poema XI

Oh sorte manca onde te calas
Nas serras dos dias e no parto
Laranjas, amarelos comem azul
Cantam pássaros partem andorinhas
Fé no oiro desce no vale, fruto maduro
Mingam os dias em noites mais frias…

Folhas levadas pelo vento
Vazias de versos tristes
Manto que recolhe, leviandade
Ajuntamento caminho triste…

Anuncio, pronúncio da chegada
Partida muralhada rumo ao sul
Bandos de asas livres, soltas
De tudo, de nada, terra vazia
Espiga madura, que dorme no celeiro…

Oh sorte manca, onde te calas
Lençóis de estopa, vazios
Sem nada…

Alberto Cuddel
22/09/2017
06:15

Poema X

Poema X

Desfazem-se ritmos sem forma
Pedras caídas e lembradas
Não há movimento que lembre
Um gemido que hoje me cale…

Em tudo isto que agora se faz
Nada lembro, em ribeiras secas
Gaivotas planam soltas na lota
Barcos que não chegam a partir
Sonhos e ilusões acordadas
Paixões fingidas nos dedos da mão…

Calem-me os arautos astutos da heresia
Num poema sem dono e decadente
Métricas livres entre rimas de antítese
Nada me lembro no tudo que calo
No tudo que digo talvez inventado
Arrastam-se os pés por caminhos de pó
No meio da multidão caminho tão só…

Permiti que a alma de detivesse
Apenas diante da tua….

Alberto Cuddel
21/09/2017
23:00

Poema IX

Poema IX

Na clandestinidade das rimas
Deambulas entre orações ordeiras
Frases feitas em montanhas e marés
No doce sonho levado nas asas!

Escondidas nas vogais abertas
Consoantes hirtas de desejo
Sopram sussurros ocultos
Ósculos prometidos nos sonhos…

Esperas como quem espera
Que um dia mude a vida
Que imutável continuará igual
Mesmo assim esperas, nova vida, nova era…

Ensaios, prosas e cronicas contadas
Esquecidas virtudes adjectivadas
No olhar treinado, transparente
Nada é, verdadeiramente nada é…

Poesia, mentira de tão verdadeira…

Alberto Cuddel
20/09/2017
23:00

Poema VIII

Poema VIII

Ergui-me do trono dourado pelas vozes
Sopro declamado duros prantos capazes
Nobre verso em campa repousa dormente
Sopro que o desperta na alma que se sente!

Coiro arrastado pelas noites gélidas
Mulher, feitiço triste onde me levas
Despida alma, seduzes manhã cálidas
Ó desgraça, perdido por entre trevas!

Formam-se duras e despidas imagens
Prosas fingidas no duro e certo desejo
Enganosas palavras formando paisagens
Matreira sedutora, infame ladra sem pejo!

Ó certa consciência pagã que me cerca
Sem proveito homem rude, desprezado
Seja amor, consciência, sem que perca
 – Diferente dizem, talvez apenas amado!

Noites despidas onde me deito
Por mulheres lânguidas sem proveito…

Alberto Cuddel
20/09/2017
02:30

Poema VII

Poema VII

Na chuva que o rosto me lava
Levada no tempo a dor da saudade
Verdade caiada no ser ao ser chorada
Sal da tristeza na minha sinceridade…

Gemem as tábuas no beijo da despedida
Partida fora de tempo a ser sentida…

Dor que me trespassa o peito
Deitada morta no leito
Olhar que esmoreceu
E que em mim se calou!

Tempo perdido sem história
Ou doce memória,
O amor que sempre calei e nunca contei…

Na chuva que o rosto me lava
Vai a dor que meu peito carrega!..

Alberto Cuddel
19/09/2017
06:05

Powered by WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: