O desespero das casadas

O desespero das casadas…

há homens que não esfregam o clitóris das suas mulheres
mesmo que o quisessem não o sabem fazer
com o mesmo dedo que tantas vezes levam à boca
humedecendo para virar impressos no seu emprego…

há homens que não beijam o clitóris das suas mulheres
com a mesma língua com que insultam os árbitros
com a mesma língua com que sentem a cerveja gelada
onde humedeceram o dedo para virar impressos….

há homens que não fazem amor, ou sexo, “aliviam-se”
enfiam o pénis na vagina como o carro na garagem
e ficam ali, para dentro e para fora, até bem estacionado
depois saem, viram-se para o lado, satisfeitos com o trabalho…

Depois há mulheres que mesmo assim teimosamente sonham,
com um príncipe em cavalo montado…
ou apenas com o vizinho do lado…

Januário Maria
08/02/2018

Voz queixosa de deus

Voz queixosa de deus

fiai-me o manto que me cobre
diante do queixume de deus
abrigai-me no centro da noite escura
diante do vapor da madrugada

que se erguem as vossas mãos
nesses braços silenciosos que pendem
que caminhem os vossos pés
nos corredios caminhos de pastos verdes

que nesses gemidos dos gregos deuses
não cuideis das oferendas aos homens
não vos embeiceis por ledas deusas
fertilidade da terra que vos chega ao nariz

cuidai de ser… a guerra nasce do ter
dessa avareza gananciosa da terra
nessa voz queixosa de deus, morremos
não escutamos as palavras que nasceram
por morrem fora dos nossos ouvidos
não sofre a nossa terra esta linguagem;
país onde se queimam feiticeiras
descobrem o mal numa inocente imagem,
como o demónio em casa das primeiras.

fiai-me o manto que me cobre
diante do queixume de deus
afastai dos vossos olhos a vergonha
da visão que minhas palavras mostram…

Alberto Sousa
29/05/2022
Poemas de nada que se perdem na calçada

Coleccionador de vazios

Coleccionador de vazios

colecciono o tempo que não tenho
esse que não uso na esperança do depois
lá fora existe o mundo e a esperança de chegar,
existes tu e os braços abertos,
existem as raízes pela verdade,
e uma imobilidade que prende…

deitou-se no horizonte o medo
asas da alma que te elevam
sem que partas a lugar algum,
bosques de silêncio onde te fitam os olhos
ribeiros mansos que correm
por ente avencas que se agitam, uma sombra
de um sol que não nasceu
não senti o seu calor na face
mesmo assim desejei-o
permanece vazio esse espaço…

permitir que os relevos tenham relevo,
que as cores tenham luz e as noites alvura
existindo, aparentemente, só para que essas possam existir
de resto, não somos nós feitos de pó como as estrelas
no leito despido das noites?
o vazio dos dias que nos adormece…
sem esse abraço cheio que nos ampara
coleccionamos esperanças
com medo de caminhar descalços
com medo das pedras e dos espinhos
ganhamos vazios, perdemos vidas cheias…

há em nós esse inercia do partir sem bagagem
esse medo de viver que nos prende a uma morte lenta…
eu, um medroso coleccionador de vazios, com medo de viver…

Alberto Sousa
28/05/2022
Poemas de nada que se perdem na calçada

Na gaveta

Na gaveta

Em vagas horas
Em que o silêncio se estende
Vagueia redondo o pensamento
Perdido por entre os espaços da mente.

Nuamente na orfandade latente
Perdem-se ideias, sentir que mente,
Seguem correntes e brisas modistas
Sem conteúdo, apenas comodistas
Cópias, ideias curtamente repetidas
Ideias sombrias e sujas, escorregadias
Politicamente e socialmente aceitáveis
Mornas, travestidas de conceitos morais
Ideias em versos tristes, sem apoios sociais!

Em vagas horas
Em que silêncio se estende
Escrevo e escondo
Pensamento redondo
Que me liberta a alma,
Ao pó, na escuridão da gaveta,
Poesia escrita a tinta preta,
Tantas vezes tingida de sangue!

Alberto Cuddel®

16/08/2016

Velei teu sono!

Velei teu sono,

vi-te descansar,
acordaste, comeste
reuniste, e saíste,
de novo e sempre a trabalhar,
agora repouso,
agora espero,
agora descanso,
tua chegada,
para abraçar,
teu olhar,
cansado exausto,
para de novo,
teu sono, teu descanso, velar!
descanso, aguardo, espero…
teu chegar!

Alberto Cuddel®
02/07/2013

Joana Vala – Este inferno de ser mulher

Joana Vala – Este inferno de ser mulher

talvez seja eu, este inferno que me consome
talvez esteja em mim toda esta ebulição
todas as hormonas, progesterona
estrogénio, hcg, ocitocina
estradiol, estriol e testosterona
talvez seja esse o inferno que me faz mulher

não queria muito, apenas que me amasses
não nesse entre o beijo da chegada e partida
não no prazer, mas queria sentir-me mulher
queria sentir-me humana, amada…
é-te assim tao difícil homem compreender-me?

que me importam as roupas, o desejo dos vadios
os piropos e os assédios, sim sou boa e daí?
amais-me? ou apenas me desejais?

tudo isto me arde no ventre e no peito
quero ser quem sou, dando-me
e dou-me sem estímulo, sem desejo,
sem esse amor que me toca na mão,
sem essa palavra que me suporta
sem os gestos banais que me carregam ao colo…

é-te assim tão difícil másculo ser compreender?
essa necessidade básica de ser mulher?
tão igual a ti, e tão completamente diferente
sou-te tudo o que não tens, tudo o que não és…

talvez seja eu, este inferno que me consome
talvez esteja em mim toda esta ebulição
é-te assim tão difícil saber quando são as consultas?
quando estou menstruada? quando estou mal e cansada?
é tão difícil para ti nesse cérebro tosco de macho
compreender-me na minha imensidão da existência?

talvez seja eu, este inferno que me consome
talvez esteja em mim toda esta ebulição
talvez queria uma coisa tão simples de tão difícil
talvez queria ser simplesmente mulher, herdar o paraíso
e encontrar nos gestos simples do salto do pardal
um pouco de amor, doado sem pedir…

22/05/2022

A existência de almas além da minha

A existência de almas além da minha…

Na compreensão da vida, existo
Existo pela existência do outro
Na clausura do ego não há existência…

Seja a vida a plenitude da troca, da dádiva
Realizo-me cada vez que dou, que recebo
Enalteço-me no teu sucesso, na tua vitória
Seja na amizade, no ensino, no exemplo
Eu sou tanto mais eu quanto mais tu o reconheces!

Partilhar é um acto nobre de poder ser “mãe”
Sou grato pela vida que partilho, por ser
E ser é amar-me e amar o mundo, ter fé
Sentir-me parte do futuro, ser no amigo
No conhecido, no desconhecido, no pupilo
Reconhecer o outro como ser em crescimento
É apenas o primeiro passo para um outro amanhã!…

Na existência de almas além da minha
Vejo-me como único, não melhor, não diferente
Apenas único, podendo dar-me nesse amor
A vida é amor, apenas isso, amor a dar
A receber, fazer amigos é a arte de se doar
Não a arte de negociar contrapartidas e trocas
Acreditar na amizade e ter fé nela, e construir
Todas as pontes que nos irão levar ao amanhã…

Creio na existência de almas além da minha
Na tua que me escutas e em todas as outras
Que aos poucos edificaremos, doando-nos ao mundo!

Alberto Cuddel
13/02/2019
11:20

Exausto

Exausto

cansado da fraude
do embuste que sou
mãos que apenas copiam
os pensamentos tidos
lidos nas imagens retidas
pelas retinas treinadas
a ver o que outros
distraídos não vêem
cansado do tempo perdido
em deixar escrito
memória da visão
adjectivos da paisagem
do sentir
do perder
da aragem
cansado das palavras
das pragas
de tudo escrever
cansado do papel
da caneta
da tinta
do fingir
cansado de ver
de querer
do agir
cansado da poesia
perdida
escrita
descrita
relatada
sem fim
sem nada!

Cansado apenas cansado!

Sírio Andrade
27-03-2015

Provocação

Provocação

A provocação tem um preço…
As vezes alto de mais para se pagar…
Continua a provocar,
Depois não tem como se queixar…
O desejo provocado, ou é consumado….
Ou leva à loucura de um corpo marcado…

Sírio Andrade
24/03/2015

Pensei amar-te…

Pensei amar-te…

“pensei amar-te, mas queria-te possuir na alma
todos os teus orgasmos pertenciam-me, assim o desejava”

Doar-me-ei por inteiro na vida e na alma
Não pelo altruísmo do ego, mas por amor
Esse que ganha significância na dadiva plena
Entre um rubro luar e um laranja do sol por

Nessa réstia de humanidade sou-te pleno
Nesse ondular da perfeita e alva maresia
Num crente caminhar duro e terreno
Diante de tudo o que o sonho mais queria

Ofertei-me no corpo, na excitação rubra
Nesse almiscarado e doce odor do prazer
Diante do desejo que de mim te cubra

Força orgasmica do corpo conhecimento
Dessa força que nos amarra e faz viver
Todo o orgasmo, eternidade, momento…

Alberto Sousa
22/05/2022
Poemas de nada que se perdem na calçada

O mundo era…

O mundo era…

o mundo era…
e depois? não voltou a ser o mesmo…

depois da primavera que chegou sem aviso
ruas desertas e ervas nascidas
chegou depois de nós todos, e não lhe fizemos falta
chilreiam os pássaros soltos
ninhos armados onde podem
palhas que voam e estradas vazias…

e o mundo era… e continuou…
mesmo sem a gente de ontem…

Alberto Cuddel

Imagem própria:
Um borrão de café…

Conjecturas

Conjecturas

selamos o tempo
congeminamos teorias
inquirimos o nosso íntimo
apenas uma pergunta
uma única questão
sem qualquer resposta
sem qualquer razão
porquê?
porque continuam a florir as flores?

rebobinamos passados
procuramos, revemos
nada, sem hipótese
nem uma ínfima teoria
porquê?
continuam as ondas a chegar à praia?

que prepósitos ocultos?
que esperanças?
que ideias, que desejos?
que quebra de algo
que não descortinamos?
porquê?
a vida é um ciclo sem fim?
porque o vidro depois de quebrado não pode ser colado?

nessas conjecturas sem propósito, sem significância cabal
caminhamos parados numa terra que gira,
de um tempo que não pára nem abranda
é tudo é, como tudo será, mesmo que ninguém intervenha…

Alberto Sousa
20/05/2022
Poemas de nada que se perdem na calçada

Abandono

Abandono

abandonaste-me à loucura do sofrimento,
na mais abençoada solidão,
cama vazia de tormentos,
não espero, não anseio tua chegada,
cansei-me da vida, cansei-me do tudo, do nada,
cansei-me apenas da ânsia de ti!
acordo livre solta, apenas mim!

Sírio de Andrade
20/03/2015

Raiva

Raiva

devolves cativos os gélidos sentidos,
das cores escuras, depressão confusa,
querer fugir, reprimir o negro desejo,
escapar esfumando-se por entre os dedos,
escorrendo pela brilhante lamina, gotas da vida!

gotejando quentes no gélido mármore,
uma após outra, sorvendo de ti a vontade contínua,
partir em demanda, gritando impropérios,
contra os felizes donos dos impérios,
cor-de-rosa pintados, onde reina o amor,
há raiva! força contida que se espera soltar,
num abrir do peito, rasgado, pelo sofrimento!

há dor! quietude, aninhado num canto,
gotas escorrem, reprimindo o alto pranto!

Sírio de Andrade!

Não me dês a mão

Não me dês a mão, não me segures ou ampares, não me ergas ou me eleves… quero-te apenas comigo a meu lado…

Quero o teu amor feito lábios, ainda que o sol nasça todos os dias, a cada madrugada por detrás as montanhas. Quero os teus lábios feito beijo, a cada banho, a cada café forte bebido, a cada manteiga derretida no pão quente, a cada manhã…
Quero o teu amor novo descoberto a cada acordar, a cada gesto de paixão, a cada beijo do despertar, a cada vontade de se fazer dia, de nascer e viver, de olhar o céu…
Quero um amor feito de areia molhada, caminho traçado, a cada pegada, a cada perdão do passado…
Quero o teu amor conquistado, a cada abraço, a cada vontade de ficar, a cada saudade, em cada liberdade de partir, na vontade de sorrir…
Quero o teu amor feito braços, feito pernas que se entrelaçam…
Quero apenas amar-te hoje, não ontem ou amanhã, apenas hoje…

Alberto Cuddel

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