Duetos Improváveis – Duas mãos e dois tempos

“Escrevo! E o que escrevo é igual a qualquer outro escritor. Sem nenhuma diferença, diria!
Porque uso as mesmas letras, as mesmas palavras, a mesma emoção, a mesma raiva e a mesma ironia.”

Desenho letras tabeladas, sentires escutados, romances anunciados, copiados pelo dicionário, eu compilador de verdades que outros sentem.

“A forma como espalho as palavras é diferente, mas isso torna tudo ainda mais igual.
Talvez tudo se alterasse se inventasse palavras novas.
Quem me dera saber inventá-las.”

Quem me dera senti-las como as sentes, como reviras os olhos a cada exclamação, como as sentes no peito, como te humedece o olhar, no ricochete que te fazem na alma, ai sim, podia sentir, poderia ser poeta!

“Ponderei, então, sobre o que faria eu que me distinguisse dos demais, se utilizamos os mesmos travessões, os mesmos pontos finais, as mesmas interrogações e as mesmas exclamações. E percebi. De repente percebi que faço a diferença no que não escrevo.”

Faço a diferença no que não lêem, faço a diferença no que sinto, no que vivo, na forma de colocar os dedos, na pressão que exerço em cada palavra, em cada ditongo, em cada vogal

“Faço a diferença na forma como respiro quando escrevo.
Faço a diferença naquele espaço que existe entre as palavras que parece igual para todas, mas não o é.”

Faço a diferença quando me olhas de frente nas palavras que sentes, quando transmito o que pensas ter sido dito. Quando a alma se eleva ao dom de ser lida, sentida, declamada e gemida por ti.

“Faço a diferença sempre que rasteiro as palavras ou os leitores com uma vírgula que alinha o cérebro e desacerta o coração.”

Faço a diferença quando pinto a mundo com palavras repetidas, com pontuações repetidas, mas com um outro olhar, com um outro sentir, com os olhos da alma. Nesse pequeno espaço, entre a pausa e o silêncio.

“É aí que existo, que mudo o rumo das coisas.
É no espaço e na vírgula que eu sou eu, sem fingimentos.”

Nessa ínfima parte do poema, eu Poeta existo, eu faço-me eu, sem copias e repetições, sem interpretações incorrectas, sem julgamentos…

“No resto…bom no resto não passo de um ilusionista. De um actor. No fundo sou um manipulador de marionetas que conta histórias imitando poetas!”

Baltazar Sete-Sois
Alberto Cuddel

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