A Carta!

A carta!


Lisboa, 18/08/2015

Boa tarde amada, já algum tempo não te escrevia, talvez por descuido, talvez por humana cobardia, pelo receio de declarar, de permanecer escrito. Tanta coisa se passou desde a minha última missiva, tanta água correu debaixo da ponte, movimentou moinhos, passado, todos os nossos mais ternos momentos, os desencontros, os pequenos arrufos, as discussões (que já quase não temos tempo para isso), as pazes feitas, ai fazer as pazes. Mas sabes, continuo a escrever poesia, a todo e a cada dia, por ti, para ti, por mim, ou por ninguém. Dia após dia a publico, dando a conhecer, o meu dom, o que me move e alimenta. Sei que os lês, e que tantas vezes comentas-me em privado, que me corriges, que me das alento, que me pedes este ou aquele tema, que me encontras imagens. Mas amor, as vezes sinto-me desiludido, pois hoje, sinto que perco a cada dia, o toque, o impulso transmitido às pessoas que me lêem, pois os comentários são menos a cada dia, os likes são espaçados, e sempre das mesmas pessoas. Só tu amada minha me consolas, deixa para lá dizes, talvez tenhas razão, o facto de sermos quem somos, como somos, como nos apresentamos inibe quem me lê a comentar, talvez seja isso quem sabe…

Mas nada disso importa, hoje mais uma vez renovo e escrevo, a decisão que há mais de 20 anos tomei.

Hoje, escolho-te novamente a ti, como a pessoa que amo e com quem decidi partilhar a minha vida!


Alberto Cuddel

Tudo é uma corrida do tempo…

E tudo é uma corrida do tempo…

“tudo me interessa e nada me prende.
atendo a tudo sonhando sempre;
fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo,
recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos”

e tudo porque tenho o tempo que não tens
esse que gastas sem ter a noção que o perdes
sem nunca o ter perdido por não ser teu o tempo

perdes a noção de humanidade, corres para chegar
sem perceber que na corrida a meta se afasta
olhas o teu umbigo, não percebendo que todos tem um mesmo destino
não olhas a paisagem, o lado de dentro das coisas
sentes o beijo, mas não dialogas com a alma que o ofertou…

desejas chegar, partir, nunca amas estar, produzir
desejar ter, mas esqueces de ser…
e tudo é uma corrida contra o tempo
esse que perdes sem viver, sem olhar o caminho
sem apreciar a paisagem, sem sentir o calor da mão
que a tua segura… conduzes depressa,
comes depressa, dormes depressa, cresces depressa
para ter o que perdes… e iras perder o tempo que tentas ganhar
porque depois… depois não terás tempo…
tão pouco esperança…

Alberto Sousa
Poemas de nada que se perdem na calçada
22/12/2021

Saudades de mim

Saudades de mim!

tenho saudade das estrelas,
das noites que as trazem,
agora de partida, ó sol,
longa calmaria em que te deitas,
adormece sereno, traz-me a noite,
deleite supremo, lençóis estrelados,
só com a areia e com a espuma
mar que canta apenas em mim,
não é solidão, é a vastidão,
águas, apenas comigo estar,
que venhas, sim que venhas,
quando na alta da noite,
sobe o fogo do meu corpo,
ao brilhante luar,
eu me encontrar perdida,
no desejo de tua, salgada
e terna companhia!

Alberto Cuddel
18/08/2015

Amanhecer em mim

Amanhecer em mim

sou, despido de qualquer capa,
definho na tua ausência,
anoiteceu em mim,
na falta da tua luz,
no gélido querer,
corpo coberto pelo teu,
espero em vão na noite,
certo que amanhecerei em ti,
quieto, palpitante coração,
sôfrego choro, clamor,
arde por dentro, saudade,
conto horas, minutos, segundos,
na memória, o beijo, e o estrondoso,
ruído do bater da porta,
fechou-se em mim,
consciência de não te ter,
velas que ardem em silêncio,
num corpo mal despido,
trémulo, ressacado pela falta,
pela abstinência do teu,
teu calor, tua paixão,
teu amor…
fico, tremendo na espera,
que amanheças em mim!

Alberto Cuddel
Sedução e Erotismo – 25
24-08-2015

Sim pode chocar…

Sim pode chocar… Mas esta é a verdade…

Não me orgulho da língua que falo ou escrevo, não me orgulho do país onde vivo nem me orgulho das instituições nele existentes… Sejam elas quais forem… Por obra do acaso fui parido e educado cá… Sou humano, não português, não europeu, não branco, não católico, sou humano… O resto são catálogos dados para nos separar por grupos… Na minha árvore genealógica existe uma miscelânea imensa de outros seres humanos… Dos quais não sei língua, raça ou religião… Por isso deixem-se de orgulhos parvos e toscos… De bairros, clubes, cores, línguas religiões ou pátrias…

Sejam felizes…

Alberto Sousa

Há quem sofra, e eu? Eu não…

Há quem sofra, e eu? Eu não…

aquela malícia incerta
e quase imponderável
que alegra qualquer coração humano
ante a dor dos outros, e o desconforto alheio,
ponho-a eu no exame das minhas próprias dores,
nessa comparação tosca das minhas com as deles…

ante o que me doi e o que te doi,
desdenho das tuas, mas jamais as minhas ofereço
tenho o dom de sofrer, às vezes silenciosamente
quieto, sem inquietar, mesmo que apenas me doa a alma…

dói-me que alguém sofra pela minha dor
pelos meu sofrimento… prefiro ser a montanha
essa cápsula que guarda dentro de si um vulcão
sobre uma estrutura cerebral gélida… impassível…

abstraio-me das necessidades humanas
das necessidades de homem, de alma…
deixo que tudo seja o que desejam que seja…
anulo-me na nulidade da existência sofrida
mas são aparentemente felizes…
e eu aparentemente não me doi
e aparentemente não sofro…
tudo porque me revolta
aquela malícia incerta
e quase imponderável
que alegra qualquer coração humano
ante a dor dos outros, e o desconforto alheio…
dói-me essa alegria mesquinha diante da dor do outro…

Alberto Sousa
Poemas de nada que se perdem na calçada

16/12/2021

Sonho corrido!

Poesia,
Gritos ecoam por entre neurónios entorpecidos,
Dormentes do cansaço, as palavras que rodopiam,
Doem mastigadas, impeditivas do repouso, do dormir,
Reescrevo vezes sem conta todos versos já escritos!

Palavras,
Seguem compassadas numa absoluta perfeição,
Nascem, uma após outra e seguem a sucessão,
Formando orações, frases, versos, poemas intermináveis!

Amor,
Combustível que me move, na vontade de seguir,
Elo inabalável da vontade de permanecer na união,
Na total comunhão da alma, compreensão dos corpos,
Fio condutor da linha da vida, partilhada na imortalização,
Das palavras decididas, assumidas no desejo uno!

Queda,
Solidão momentânea na tristeza que inunda o ser,
Imobilidade, sem desejo, querer ou vontade,
De se mover psicologicamente para longe do abismo,
Curiosidade mórbida de entender a mecânica
Do passo em direcção ao nada!

Fuga,
Corrida a passos largos sem sair do lugar,
Escondendo fino desejo de parado ficar,
Tudo roda em tua inquieta permanência,
Apenas o sonho te leva para longe deste lugar!

Sonho,
Ai o sonho,
Se sonho durmo,
Se durmo descanso,
Se descanso posso parar,
Se paro para quê mais pensar,
Se não penso para quê mais escrever,
Intermináveis versos sem sentido, num sonho agora tido!

Alberto Cuddel
01/04/2015

No sopro de uma brisa,

No sopro de uma brisa,

Despi-me de ti,
Desnudei meu ser e esperei,
Me abrindo, te abracei,
No suave encanto de um dente-de-leão,
Soprado ao vento, chegando ao coração,
Espalhando sementes, em fértil ser,
Querendo mais, querendo saber,
A razão do encanto, a razão da paixão,
Que feitiço é esse em que me prendes,
Em que querendo conquistar,
Sou completamente conquistado,
Em que querendo seduzir,
Sou seduzido,
Em teu jogo, em teu enredo,
Em que fugindo, me esperas,
E esperando, me afastas,
Deveras em teu jogo estou viciado,
No vício da paixão, me sinto amado,
E fico descansando em teu aconchego,
Partilhado contigo a vida,
A tristeza, alegria…
Renovando a cada dia,
A chama que nos alimenta,
Neste jogo, nesta partilha…
Que é o Amar metade de nós…
Sendo um…

Alberto Cuddel
01/04/2015

Desumanizado…

Desumanizado…

desflori os lírios e aprisionei as borboletas
a vida é uma bicicleta sem corrente
uma clareira de uma floresta abatida
um rio seco de pedras polidas na espera da enxurrada…

depois um tempo sem história, sem crença e sem memória
um tempo sem sentir, inerte, tosco, e sem suprir…
as calçadas apenas caminhadas sem destino
apenas a chegada a um lugar vazio, talvez porque sim
o contrário será exactamente o mesmo, porque não?

perde-se essa vontade de vida, uma eutanásia da alma
o corpo vive pela massa carbónica…, mas as ideias?
essas morreram, perderam o sentido, a existência do caminho…
já não são, já não eram, e ficam-se por ali
essa virtude defeituosa chamada desejo…

Alberto Sousa
Poemas de nada que se perdem na calçada

11/12/2021

Visto-me de rasgos de lucidez

Visto-me de rasgos de lucidez

entre o tempo morto que perco
e esse outro em que me condeno
visto-me de escolhas em cada defeito
entre um céu nublado e outro encoberto
serpenteio as gotas que caem e as que molham
caminhando por estradas lamacentas
realidade suja e ordinária na falsidade
tudo parece o que não é…

rasgas silêncios em palavras gritadas
pelas verdades sentidas, escondidas
nunca proferidas ou ditas, gemes em silêncio…

(onde moram as honestas declarações)
perfidamente confesso-me sentenciando-me
por verdades omitidas e mentiras ditas
sentimentos fingidos e outros sentidos
outros omitidos na alma, no silêncio escuro…

(onde me escondo? de quem?)
na poesia finjo ser quem não sou
sendo verdadeiramente o poeta que escrevo
nesta irrealidade das palavras sinto-me
na verdade, sou mentira, que inscrevo
sendo que a verdade é…
(quem de mim dirá o que sou,
sendo eu nada, sempre posso ser tudo)

percorro estradas vazias cheias de gente triste
penso, medito chuto pedras quadradas
morro? parto? perdoo-me?

entre um rasgo de lucidez e um corte nos pulsos
tatuo no peito um desejo… amor… e perdoo-me!

Alberto Sousa
Poemas de nada que se perdem na calçada

22/11/2021

Mulher!

Mulher!

Segura de si, firme vontade,
Confiante no teu estado de mulher,
Sabes quem és, sabes ser,
Firme aura que teu ser emana,
Inviolável perseguição ao sonho,
Azul celeste que em ti perdura,
Luz que reflecte a contagiar,
Agir, transformar, acreditar,
Olhares que te seguem,
Que te perseguem,
Trono divino da humana criação,
Ventre perfeito, humana geração,
És jardim florido na Primavera,
És a chuva do frio Inverno,
És raio de sol no calor do Verão,
És fruto maduro no Outono,
És tímida, delicada e sonhadora,
Forte, decidida, edificadora,
Mãe, amiga, esposa, amante,
Incansavelmente constante,
Porto seguro de amor ardente,
Teu sorriso, cansado, confiante,
Mesmo assim mulher sedutoramente
Bela e definitivamente certa,
Que ninguém lhe fica indiferente!

És mulher decidida, firme vontade,
Segura entre outra gente!

Alberto Cuddel

25/08/2015

Recebe-me

Recebe-me

Recebe-me apenas em teus braços,
Deixa-me dormir em teu regaço,
Quero apenas acabar com cansaço
Estampado em mim, finos traços,
Desgaste outonal, corrida veraneia,
Noite serena, preenchida lua cheia!

Recebe-me apenas em teus braços,
Como os filhos no ninho a cotovia,
Reforça hoje amor os nossos laços,
Afaga-me os cabelos, forma lascívia,
Beija-me, demora-te, volta amar-me,
Recebe-me, agora, volta a beijar-me!

Recebe-me apenas em teus braços,
Confirma-me de novo com ontem,
Renovadas que estão os sonhos,
Os novos quereres que agora existem,
Assim me dou, com apenas um pedido,
Recebe-me apenas em teus braços!

Alberto Cuddel
26/08/2015

Família ameaçada!…

Família ameaçada!…

Ontem…
Mulher casada, empregada arrumada,
Sai o homem a trabalhar, casa arrumar,
Roupa para lavar, chega, janta preparada,
Conversa de treta, dinheiro da jornada,
Pernas abertas, voltou a emprenhar,
Mais um filho a cuidar, fraldas a lavar,
Ensinar, educar, lavar, passar, arrumar,
Há noite a janta, chega conversa da treta,
A sogra doente, a mãe dormente, até os velhos,
Roupa a reparar, o campo a regar, ai os joelhos,
Escrava, da vida, do tempo, ao domingo,
A missa, os miúdos, mas nada de demorar!

Hoje…
Mulher casada, casa desarrumada,
Chega a casa do longo trabalho,
Depois de ir à escola e infantário,
Entra a porta com razão chateada,
Marido chegou cedo, e jantar nem vê-lo,
Mesmo que queria não sabe fazê-lo,
Fruto da educação da mãe de ontem,
Para não estar a ouvir sai ao café,
Com tanta cerveja ainda de pé,
Volta a casa já bastante anestesiado,
Cai na cama, amanhã é feriado,
Flores, cinema, prendas, para quê,
Se me quisesse agradar esperasse a pé,
Homem que assim espera e se dedica ao ócio,
Ao outro dia só um caminho, o divórcio…

Sonho…
Casal casado, casa que é lar,
Ele chega primeiro, lá está o jantar,
Os filhos, planeados, bem-educados,
Nem os sapatos fora, todos arrumados,
Tarefas partilhadas, tempo de namorar,
O tempo, mesmo que escasso, dá para falar,
Sair, passear, viver, criar, sonhar,
Dá até para ao fim do dia ver o sol pôr,
O tempo dá para tudo, até fazer AMOR!

Se hoje os dois decidirem sonhar,
A felicidade não é uma miragem,
E a família unida se irá sustentar!

Alberto Cuddel
(Casei por Amor, pois não tinha interesse nenhum na empregada de ontem)
28/08/2015

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