Dor da alma inquieta que há de partir…

Dor da alma inquieta que há de partir…

os meus passos soam no passeio
como um dobre ridículo a finados,
um ruído de espanto que nos acorda a noite
como uma gaiola ou uma janela.

separo-me de mim e vejo que sou
não que existo, mas que apenas sou
pela eloquência do estar vivo.

morreu quem eu nunca fui.
esqueceu a deus quem eu havia de ser.
da minha necessária morte
ninguém se lembra, não há coisa alguma a recordar
apenas era, antes de ser e de estar.

hoje ninguém sabe de onde vim
-nem mesmo eu…
apenas sei que pela palavra me fiz
entre o bolor dos livros, e as palavras dos antigos
obriguei-me a nascer poeta, antes de uma outra coisa qualquer
por isso fiz-me morrer, para nascer assim…

amante idiota das palavras por inventar…
-noivo de um livro por escrever…
viúvo de uma língua que se martiriza
por vergonha das almas velhas…

Alberto Cuddel
13/06/2021
03:00
Alma nova, poema esquecido – V

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