«Tudo é um momento – nada é verdadeiramente real!”

«Tudo é um momento – nada é verdadeiramente real!”

Tudo na vida são momentos,
Estórias e apenas alguns reais,
Momentos que ficam na memória!

Gota de orvalho, no lapso temporal,
Reflexo de teu alvo rosto espelhado,
Brisa que te agita, movimento liberal,
Terra molhada, brota envergonhado,
Horizonte longínquo, no sol nascido,
Acordam, revivem, da noite erguida,
Brotam flores em botão, amanhecido,
Força natural que renova toda a vida!

Tudo é instante, momento, inconstante,
Tudo é igual, diferente, ilusão, realidade,
Tudo é sentido, pressentido, excitante,
Tudo é uma mentira, engano, verdade!

Tudo é etéreo permanente, como a rosa,
Tudo é belo, completo, apenas instante,
Brisa do bater de asas de uma borboleta,
Peixe em poça de água na baixa maré,
Nada parece que é, e o tudo que parece,
Na nossa realidade nada foi, nada é!…

Tudo é sentido no momento,
Tudo nos parece ser natural,
No parco nosso entendimento,
Nada é verdadeiramente real!

Alberto Cuddel®
30/11/2015

«A solidão não tem hora de chegada – aconchega-se num regaço intemporal.”

«A solidão não tem hora de chegada – aconchega-se num regaço intemporal.”

O caminho segue amaldiçoado,
Por uma dourada ceara ceifada,
Toque da brisa Outubro na cara,
A manhã de Outono orvalhada!

Segue o destino da vida, o ciclo,
Do nascimento e morte, o vício,
De que no final tudo recomeça,
Temperada tarde de Primavera!
Cansado da solidão do pensamento,
Vive desgastando-se por dentro,
Na corrida perdida contra o tempo,
Desfilando palavras soltas no engodo,
Do engano sofredor do eterno perdão,
Lançado da busca da perfeição,
Buscando e redescobrindo o eterno modo,
Macabra e entediante dificuldade,
Na solidão encontrar uma saudade,
Conjunto dos tempos de felicidade!

Eterna contradição perdida da memória,
Num conflito interior de um pensamento,
Numa desfasada e nefasta ideia premonitória,
Que nos leva a este inevitável momento!

Noite esta que não desejei, ausente de mim,
Distante, na obscura luta da sobrevivência,
Noite de lúcidos pensamentos, divergentes,
Revoltantemente confusos, difusos no ser,
Entre o partir e o ficar, o sair a encontrar,
Entre a espada e a parede, desejos sem rede,
Noites estas de incúria, desmedido sentir,
Vivendo o feitiço da lua, nula sorte a tua,
Eu na noite, tu no dia, apenas um olhar,
Um sentir a amarga saudade, que noite,
Noite da saudosa aurora, do dia, encontro,
O doce toque do beijo, o calor de tua pele,
O parar o tempo e ficar, entre a despedida,
O doce e terno movimento do verbo amar!

Revolvo passados agindo pelo futuro,
Conforto de pensamento limpo e puro,
Por um presente em tudo diferente,
Vivido rodeado por muita outra gente!

Detém-nos a longínqua e ténue visão,
De alguém que recusa e diz não,
Que vencendo a morte se faz nascer,
Uma pequena flor em liberdade,
Na longa solidão da planície a crescer,
No aconchego deixando Saudade!..

Alberto Cuddel ®
01/12/2015

Luz

No longínquo corredor do tempoExistem portas fechadasque jamais se abrirãoExistem memórias rasgadasRostos riscados pela distânciaVultos esfumados e esquecidosExistem vidas de outroraSegredos guardadosQuartos escurosAlguns assombradosCavalinhos de madeirae bonecas de pano empoeiradasExistem livros e filmes a preto e brancoAlguns mudos, outros nãoMas entre todasHá uma porta fechadaCuja luz rompe todas as frestasInvade o longo e estreito espaçoMostra […]

Luz

Jardim de ontem!

Jardim de ontem!

Colhi em mim as flores abandonadas
Num qualquer outro jardim plantadas
Numa qualquer esperança, ali regada
Encantamento, fonte das aves amada!

Caminhos, passeios, não levam a lugar algum,
Rodopiam, contornam, ladeiam, circundam,
Caminhos, correm, pulam, dançam, choram,
Ficam, partem, caem sozinhos na triste solidão
Sozinho assim fica sentado no único banco
Que o jardim moribundo não viu partir!
Aves que ontem se abrigavam, partiram
Os jogos de tabuleiro, acabaram
As crianças que brincavam, cresceram
Hoje passam apressadas, não param
Pobre cantoneiro saudoso, sentado
Deixado só, na saudade, tempo passado!

Alberto Cuddel®
08/12/2015

Não me procures amanhã

Não me procures amanhã

não me procures amanhã,
porque amanhã não existo
procura-me e encontra-me hoje,
pois hoje estou, hoje sou
hoje sou, o que ontem vi
o que ontem senti,
o que ontem ouvi,
o que ontem disse,
o que ontem aprendi,
mas amanhã não,
não me encontras amanhã
pois hoje, ainda tenho muito
muito a ver, muito a ouvir,
muito a sentir, muito a dizer,
muito aprender, muito amar
ainda tenho muito a viver!

Alberto Cuddel®
09/12/2015

Caem poemas…

Caem poemas…

Caem as palavras
momento ondulatório
um verso, desenhado
queda, folha dourada
sol outonal que me aquece
círculos que se afastam
queda do charco da vida
ali fica, ondulando,
ali fica, rodopiando
fingindo ser prosa
representando
desejando ser verso
ensaiando uma quadra
sem nada, poema
fim de vida, fingindo
ser o que fingia
poesia!

Alberto Cuddel®
10/12/2015

Adormeço

Adormeço

Adormeço meu corpo, sol de Inverno
Espraio-me caído areia branca
Marés que me embalam os sonhos
Mar roncando, rugindo aflito
Novas de longe, corpos boiando
Inertes sem vida, da guerra fugindo
Nuvens que passam, passando em mim
Caio deitado, ficando à espera
Que tu ou eu, ou mesmo ninguém
Perguntando me erga, no mundo
Que hoje ainda me espera!

Alberto Cuddel®
17/12/2015

Nós…

Nós…

Renascemos nas palavras a cada dia,
Reinventamos novas ordens e magia,
Vestimos agora de nova cada ideia,
Fazemos crescer reacções em cadeia!

Reinventamos a escrita na resenha,
Nascemos, crescemos unidos na senha,
Palavra rescrita na vida pela vida,
Publicada, republicada a cada visita!

Textos, poemas, card´s, resenhas, cronicas,
Desenhos, imagens, sons, formas bucólicas,
Unidos num sentido, a palavra nosso umbigo,
Das letras perdidas assim unidas um sentido!

Unidos num projecto, nascido da vontade,
Muitas, diversas origens, uma verdade,
A cada dia reinventamos, a ideia, o pensamento,
Moldamos, redesenhamos, o aberto firmamento,
Propagado no poder, de continuar a escrever,
Sem nada vir a ganhar, ou culturalmente perder!

Alberto Cuddel®

22/12/2015

Vislumbres de lucidez de uma alma reclusa

Vislumbres de lucidez de uma alma reclusa

Há nesses vislumbres do mundo um olhar distante
Uma fuga rasgada aos sonhos, à realidade fingida
Eram ontem e todos os dias depois, reclusão
As portas abertas, as janelas também, e o medo…

As paredes negras sem luz, e a voz da vossa mãe
Mas fico, ficas, ficamos, e a vida lá fora, distante
Há nas árvores que se agitam ao sabor do vento
Um não sei quê de liberdade, não vão a lugar algum
Mas vivem livres na sua reclusão das raízes térreas…

Onde moram os pássaros, e os peixes dos lagos?
[eu que tudo tenho para fugir, fico-me olhando o mundo]
Nesse amontoado de pedras a que chamam história
Não rosna a minha alma, eu fiz-me meramente palavra
E nela livre, dentro do meu próprio universo…

Sou, para lá de cada pedra, de cada vidro, de cada porta
Sou para lá da existência, sou consciência, lágrima e riso
Na lucidez que a prisão me devota, eu sou tudo, poeta do mundo…

Alberto Cuddel
11/06/2021
23:20
Alma nova, poema esquecido – IV

Alma rasgada pelos espinhos da vida

Alma rasgada pelos espinhos da vida

cravei a fogo em lapide inclusa
rip aqui jaz um poeta sem versos…

esperei como quem espera o tempo que basta
como se o amanhã fosse agora e já não houvesse segredos
as árvores agitavam-se adivinhando o futuro
e partiam as andorinhas… as cegonhas, ai as cegonhas
e as garças e os patos… todos partiam…
e eu? e tu… ficamos ali, indiferentes ao passado que mudou
a um presente que não existe, a um futuro perdido…

e calaram-se os versos…
teceram uma coroa com os silêncios
e coroaram-no de espinhos…
as palavras trespassavam-lhe a carne
as metáforas, queimavam-lhe a pele
e as ironias e hipérboles secavam-lhe a garganta…
pelas três da tarde, chegaram-lhe à boca um poema,
a custo declamou um verso e expirou…

a biblioteca adormeceu, rasgada ao meio
entre a dor da perda, e a certeza de viver nela tudo o que sobra…
a palavra ressuscitou o poeta…

Alberto Cuddel
11/06/2021
03:00
Alma nova, poema esquecido – III

Cúpula do tempo

Cúpula do tempo

É nessa cúpula do tempo
Na dualidade de ser palavra
Que me divido, entre a loira e a morena
Tempo enraivecido pela pasmaceira das horas
Há um verde de esperança que me brota do silencio
E flui a conversa e o trago, entre um cigarro e o outro
Discutimos, discutimos longamente
Como um casal velho…
Eu e tu, maldita caneta que teimosamente não escreves…

(…)
Nesse vento distante que te agita os braços
Um sussurro veraneio, um chamamento
Um pedaço de vida que se agita, um cigarro cortado
Uma palavra fresca, solta assim na mesa
Como uma conversa distante sem nexo, sem sexo, apenas poema
E a vida acontece à mesa, ali à distância dos dedos
Palavra a palavra…
Enquanto se saboreia o tempo
Pleno de companhia…

Alberto Cuddel
11/06/2021
00:30
Alma nova, poema esquecido – II

Desafio de Ruth Collaço, Foto de João Gomez photography

Há essa voz de eco que o tempo esquece…

Há essa voz de eco que o tempo esquece…

eco do tempo que se faz voz em majericos
ecos da porta da igreja e a voz dos mexericos…

arrastas pelo chão o nome de mulher
na invenção de um leito de uma noite qualquer
dizes-te voz da consciência,
bates no peito em obediência
mas és meramente invejosa da vida alheia…
que as almas do purgatório te perdoem
e todas as outras que escorregaram na vida
solteiras à força de trabalho criaram uma filha…

há essa voz de eco que o tempo esquece
mas que o povo sábio enaltece, na letra de um fado
antes que a vida te leve, pelos bairros de alfama
és força vida entre o tejo e o sado…
amada por tantos os que te deitaram na cama…

ó mulher, doce mulher… onde te mora a liberdade?
na inveja de muitas, as que te escarnecem na rua
pura inveja de vida, por a sua sorte não ser a tua!…

Alberto Cuddel
07/06/2021
Alma nova, poema esquecido – I

O doce pinho hirto…

O doce pinho hirto…

já não morrem de pé como ontem…
as pedras ferem-me os pés, quelhos
neste céu verde que me cobre
apenas os pássaros, e eu… esse gritar doente
nem eles ou as águas me abafam os gritos
dou comigo sentado numa pedra, perdido neste mundo
olhando à minha volta alheio, indiferente a tudo
vejo a vida que passou por este corpo, qual borboleta
num voo irregular ziguezagueante e mudo
levantei um braço, como que a dizer, vai-te embora!
vida que me deixaste, qual sombra de mim a vegetar
o vento frio agreste me acorda e me desperta
do torpor em que caí, neste eterno arrastar
um caminho que me leva, que me traz, que me deixa
e um pinheiro que se agita, que me olha e me fita
uma ave que não identifico, asas curtas cor de ameixa
e uma mente inquieta que se ergue da pedra, fica…
olho-te ao longe na curva da estrada…
e penso… penso e não te vejo…
a estrada morreu… e o pinheiro caiu…
e eu? Onde me perdi eu…

Alberto Cuddel 
24/05/2021 
17:30
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXV

Apaguem-me a luz…

Apaguem-me a luz…

rasguem-me a alma e cosam-me a túnica
apanhem-me do chão, colem-me os cacos
ou apenas deixem-me, ali espalhado ao tempo…

apaguem a luz e partam… aqui nada há a ver…
deixei de me importar… deixei de viver…
que me advenham os ventos e tempestades
que me esqueçam as humanas almas…

que me enclausurem nos calabouços do tempo
sem esperança nas palavras que me anoitecem
rogo-vos celtas divindades que me tomem
que me levem na viagem eterna, sem luz e sem lanterna
sem a visão do caminho, que me deixem, só, sozinho…
não me importa o gelo eterno, ou o calor do submundo
apenas quero a paz do silencio, e a luta comigo mesmo…

vão, vão, desapareçam… mas apaguem a luz…

Alberto Cuddel 
22/05/2021 
12:00
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXIV

Entre a noite e o passeio pela bruma marítima do olhar…

Entre a noite e o passeio pela bruma marítima do olhar…

“Sofri em mim, comigo, as aspirações de todas as eras, e comigo passearam, à beira ouvida do mar, os desassossegos de todos os tempos. O que os homens quiseram e não fizeram, o que mataram fazendo-o, o que as almas foram e ninguém disse — de tudo isto se formou a alma sensível com que passeei de noite à beira-mar.”

Bernardo Soares

sofri em mim, os males do mundo e os erros que cometi
rasguei-te o peito no sofrimento das palavras,
essas que se cravam na alma como punhais…

e as almas e foram, e a dor que ninguém disse
os pés no chão, o gelo das águas…
a brisa no rosto, areia molhada,
e esse querer… essa força que me chama…
mas a dor é para ser sentida, a culpa para ser carregada…

aqui, bem em baixo, afastando-me do alto onde estou
em desnivelamentos de sombra, dorme ao luar,
ao longe, dormes e contigo a cidade inteira.

há um desespero em mim, uma angústia de existir
dizes “culpado”, mas presa a mim carrego a culpa da dor
essa que extravasa de mim todo sem me exceder,
compondo-me o ser nessa vontade de morrer
em ternura, na pressa de te arrancar do peito a dor
e do olhar a minha imagem…
e eu caminho, sem pressa, já sem tempo, sem medo, dor ou desolação.

apenas caminho, sem pressa e sem destino…
na esperança vã de que me purifiquem as águas
a culpa que minha alma carrega…

Alberto Cuddel 
19/05/2021 
02:43
In: Entre o escárnio e o bem dizer, 
Venha deus e escolha LXIII

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