Esse corpo em que desabito

Esse corpo em que desabito

 

rasguem-me o peito e os seios

arranquem-me o coração e levem-no

de nada se me aproveita neste corpo que desabito

que alma é esta aprisionada entre braços?

 

aporto num rio sem foz, num cais tosco

um ribeiro seco de ideais, conformismo

um amar sem sal, nesta terra infértil

nada, nada, me ergue os braços, nada abraçar…

 

perco-me do tempo, uma amanhã que foi

um ontem que ainda será igual a depois

e as palavras que me fogem como punhais

enchendo-me de sangue as mãos vazias…

 

rasguem-me o peito e os seios

arranquem-me o coração e levem-no

levem-no nas garras de uma águia

deixem-me voar, livre, para longe

nessa distância onde vivo, sem rédeas…

 

Alberto Cuddel

O oposto onde nos beijamos

O oposto onde nos beijamos

nesse tempo em que chove de céu limpo
em que não chegas, esse tempo oposto
esse beijar devagarinho sem pressa
e um ficar que demora a concretizar…

há um leito despido de silêncios coberto
um rosto cansado que olha o amanhã
essa esperança beijada que te chega
essa noite povoada de abraços e corpos
esse ficar que tarda em ser certo,
uma porta que se fecha de madrugada…

hoje não, mas amanhã, esse sonho
não mais sairá, será beijo eterno
devagar, devagarinho, entre abraços e beijos
de palavras e sonhos, sem promessas
apenas um acordar pela manhã
sem silêncios…
nesse oposto de hoje onde nos beijamos…
onde eu me faço em ti, sempre…

Alberto Cuddel

Levo o teu beijo no olhar

Levo o teu beijo no olhar

Tenho desenhado no peito o teu beijo
o terno sorriso no meu olhar…

esse grasnar de gaivota presa no Tejo
uma vida em suspenso pelo tempo
correm os desejos contra o vento
há em terra a dor de não partir…

feliz daquele que se faz milagre a cada chegada
floresta de sorrisos abertos
diante da dor do beijo da despedida
no rosto a verdade da saudade
e o teu beijo no olhar…

Alberto Cuddel

Powered by WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: