Se eu te deixar

Se eu te deixar

se eu te deixar amanhã
antes que o tempo finde
antes que o amor se odeie
saibas que o amor venceu,
antes mesmo de ter morrido!

Neste tempo vagaroso onde nada foi esquecido
Há um certo sentimento, neste gesto vencido
Que mesmo partindo roubando de ti a verdade
Tudo o que de mim deixo é… a dor da saudade!

se eu te deixar amanhã
antes que o tempo finde
antes que o amor se odeie
saibas que o amor venceu,
antes mesmo de ter morrido!

Em cada beijo dado, está no nosso legado
A cada momento de amor, está o suporte à nossa dor,
à cada despedida, essa verdade sentida, por amor nos tivemos
Por amor nos deixamos, mesmo que eu te deixe amanhã

se eu te deixar amanhã
antes que o tempo finde
antes que o amor se odeie
saibas que o amor venceu,
antes mesmo de ter morrido!

Alberto Cuddel

Desse “eu” tão completamente abstracto

Desse “eu” tão completamente abstracto

nascido que houvera o dia
por entre serras cansadas e mosto
catam o lume das lareiras e pão
esse cansaço tão dormente e tão só
a loucura por companhia e um cajado
um lápis rombudo e papel sujo…
curva-se o horizonte sobe o rio,
serpenteando os vales e as letras foscas que tecem a vida…

é na loucura que me encontro, amado o real
abstracto sou, prisioneiro do teu querer
ciclo vicioso da existência da vida, faço-me em nós
para que na morte exista

onde florir as macieiras e apodrecer as pêras
as abelhas irão dançar sob as flores dos morangueiros
ira chover e nascerão os cogumelos, esse fogo que arde
na cura do fumeiro que nos mata…
e tudo é tão abstractamente real…
tudo é tão duramente sofrido a cada sorriso…
e tu?
Desse “eu” tão completamente abstracto
Fazes da loucura a doce viagem lida
Pela existência da lucidez alcoólica
Impregnado no odor emanado pelo copo vazio…

Alberto Cuddel

Princípios indivisíveis pelo futuro…

Princípios indivisíveis pelo futuro…

ainda que não prove a existência de Deus
ele criou-a… e ela é…
nessa substancia liquefeita que me envolve
nesse amor condensado em substrato
tomado em doses pequenas, como que a medo
entrego-me sendo todo eu seu…

nessa busca pelo Deus que te habita a alma
descubro-te nua, despojada do pudor do pecado
puramente sóbria…
nessa eloquência de seres apenas quem és
um principio sem memória
indivisível pelos dias…

Alberto Cuddel

Grito mudo

Grito mudo
(…)
E foi assim em silvos mudos que atirei a angústia
Declamei a fúria destilada pelas mãos atadas
Contra o esquecimento de deuses enfurecidos
Revolta contra o carvão e cinza manchada de sangue!
Não esqueci rimas ou métricas
Como podes medir a distância ou a dor do sofrimento?
Famílias que viajavam presas no inferno
Não foi uma mão criminosa ou falta de atenção
Não foi um mau funcionalismo ou uma desatenção
Tudo fruto de infelizes coincidências
O calor o vento e trovoadas intensas…
Nobre povo, de machado em punho
Mesmo com todos os meios é inglória
Lavram labaredas sela serra fora
Bombeiros coitados já sem memória
Arrepiam o fogo pra frente é caminho!
Os filhos que choram a mãe
O pai que não a vê chegar
Uma vida de trabalho
E agora já não ter lar!
Gritos mudos contra os deuses
Que permitem tais desgraças
Tantos feriados, tanta gente nas praças
Tanto desperdício, festa, artificio,
Mas não cuidamos do património
Que afinal é natural, mas todos o descuidam!
Naturalmente com a seca trovoada
Arde, arde, a serra e a estrada!
São palavra vãs,
Gritas tu que agora lês
Mas criticas porque escrevo
Não criticas quem não fez,
Neste grito mudo, depósito com elevo
O sonho que acalenta o espírito
Que se lembrem do que inscrevo
Quando amanhã de novo se perder a memória
Existirá alguém que irá lembrar desta história
Recordando sempre a dor e o sofrimento
Mas quando esquecida for será só divertimento!
Nem nos homens nem na sorte
Não creio que seja chegada a morte
Que se unam os homens e os inimigos
É nestas horas que se abraçam os amigos
E na dor de tudo ter perdido
Em bom abono da verdade
Nasce entre um nobre povo
A doce e desejada solidariedade!
Que o luto seja não um tempo só de dor
Mas vontade de fazer e muito conseguir repor!
Alberto Cuddel
18/06/2017
6:10
In: Poesia despida
http://www.facebook.com/AlbertoCuddel

Guardiões dos versos

Guardiões dos versos

Ladeiam-me os guardiões do tempo
os protectores das rimas e métrica
da poesia sonora ao som da citara
dos fingires e contadores de historias
das palavras directas e irrisórias!

Condenam-me, enclausuram-me
Nas páginas esquecidas e brancas
Nas capas duras escuras fechadas
No mofo esquecido de um léxico
Desconhecido desta enorme maioria!

Poeta escrevente de dramas e amor
copista sem poder de concepção
modeladora em perfeita arte,
do sentir idealizado no pensamento
e tu “livre” preso a único momento!

Concebida fortemente a emoção,
a frase que a define espontânea
e o ritmo que a traduz surge pela frase fora.
não concebo, porém, que as emoções
estejam despidas do poeta, da arte
do choro e do sorriso, de toda a paixão
que finja, mas que o finja na verdade!

Ainda assim ladeiam-me o peso do ontem
e das palavras que o tempo não esquece
desses poetas maiores, que Pessoa enaltece
e toda a beleza e retórica quem os montem!

Nada me liberta,
aqui pertenço,
não por moda
mas assim penso!

Alberto Cuddel
18/06/2017

A música 

A música

A música da Primavera,
Ou um bando de pardais
Andorinhas nos beirais
Ou as músicas de outra era?

Uma tortura que me nasce na alma
Os sons que me corpo acalma
Um copo meio vazio, ali olhar
Perdido no balcão do bar?

A música…
Quantas mais longas as mágoas!
E sempre a música…
Pobre coitado martelado por quem não sabe tocar.
Mas apesar de tudo é música
Um som abafado, das lágrimas que rolam
E os risos, embevecidos em álcool
E donzelas que se passeiam pela noite
Já sem pijama vestido…

Acima de tudo é música
Mesmo que acordes no banco de jardim
Ainda assim… será música!

Alberto Cuddel

19/06/2019

Partida

Partida

não fujo
apenas vou
parto
para que fique
a saudade
e necessidade
da ausência
para que sintas
a dor, e a falta
que sinto de mim mesmo…
parto
para
me
poder
encontrar
na solidão
vazia
que paira
no ar
que respiro…

Alberto Cuddel

20/06/2017

Não sou dos poetas pequenos 

Não sou dos poetas pequenos 

Não sou dos poetas pequenos 
Mas dos que se inventam, e escrevem o mundo 
Dos que partem dentro de si mesmos 
Dos que fogem ao sorriso, e dos que sofrem 
Sem qualquer contradição ou juízo 
Ai dos poetas pequenos, dos que se escrevem 
Esses, coitados não cabem num verso 
Tão pouco na floração de uma margarida 
Ou numa mera chuva de sol… 
Num desses poetas não cabe na mão 
Todos os seios do mundo 
Nem as pernas que se movem 
Ou adamastores imponentes os bloqueiam 
Ou ilhas e amores que nunca viveram 
A eles um poema basta… 

Alberto Cuddel 
21/04/2017 
10:38

Caí na rua

Caí na rua

desci à rua vendo a saudade passar
homens que tropeçam em algibeiras vazias
praças sem cor, sem luz, e os dias que passam
e livros que se queimam,
tempo que não se quer saber
e o saber nada é, com tudo no bolso
e mesmo assim, ninguém sabe quem foi…
são largas as palavras caladas
as que tropeçam nos dentes
as que reprimo, e as que choram lembrando
liberdade, essa de nada saber
como pensas se nada sabes?
caio na rua, moldando as mentes vazias
o poder, nas patas de cães disfarçados
de rebeldes amestrados que os conduzem pela mão…

Alberto Cuddel

23/06/2017

Tenho saudades de ti

Tenho saudades de ti

Tenho saudade de desnudar-me na alma
De possuir-te o corpo
Se ser em ti, de ser amor
Tenho saudade do calor da pele
Da tua pele, do teu cheiro
Saudades de sexo, do teu sexo
Do nosso que habilmente fazemos…

Tenho saudades de desnudar-te em mim
Do prazer orgásmico de te sentir
Ter-te nas mãos, do teu sabor nos meus lábios
O teu perfume nos dedos
Do movimento amplo das tuas ancas
De me sempre preso entre as tuas pernas

Tenho saudades do amor que somos
Dos gestos em que nos fazemos
Dos gemidos profundos, do respirar sincronizado,
Tenho saudades de sermos, para que nos possamos fazer
No tudo que somos…
Plenamente amados um no outro…
Antes que os tempos comecem…
Quero desnudar-me em ti, novamente…

Tiago Paixão.

Possuo-te nessa alma jovem que me cativa

Possuo-te nessa alma jovem que me cativa

Deixemo-nos de uma poética vã
Abraço-te a alma contra a minha
Dessa volúpia da imaginação erótica
Tudo tem nome, gesto, desejo…
Beijemo-nos, na intensidade das línguas faladas
Sejamos vontade e prazer, dispamos as nossas almas despidas
Num encontro novo, como uma primeira vez sem urgência…

Beijemo-nos, nesses beijos de fome, de sede de prazer
Deixa que os nossos corpos se encontrem
Que se rocem, que se esfreguem ainda vestidos…
Deixa que as minhas mãos te despojem,
Que as roupas caiam no chão ou atiradas pelo ar…
Despe-te de todo esse jovial pudor e pecado
Quero sentir-te os seios, não te importes com o corpo
Quero tê-los na mão, sentir os teus mamilos erectos
Enquanto ainda a minha boca come a tua no silêncio que escorre.

Deixa-me conhecer-te, medir-te o desejo…
Que a minha mão se esgueire, que te desça pelo ventre quente
Que se aloje entre as tuas pernas, que te sinta quente, húmida, salgada…
Que te massaje, que te masturbe levemente, que te sinta…

Dispo-te, como quem descasca uma fruta madura
Sentindo já nos lábios a tua doçura
Quero-te assim, nua… completamente nua…
Quero provar-te, saborear-te o corpo
Beijar-te toda a pele, mordiscar levemente
Que sintas o calor da minha língua….
Quero permanecer ali… bem ali, quente,
Com a boca entre as tuas coxas….

Quero-te minha, plenamente minha,
Quero-te loucamente excitada
Quero-te mulher, quero o teu prazer…

Sejamos tudo o que quisermos,
Como e quando quisermos
Sejamos essa volúpia declarada
Essa luxuria do movimento…
Sejamos êxtase, gemido, orgasmo
Sejamos sexo, posse e prazer
Sejamos voz, abraço, beijo
Sejamos amor, paixão e desejo…
Sejamos tudo, o que o amor de nós fizer…
E no fim, deste novo principio
Sejamos tudo de novo outra vez…
Procura-me descasca-me e bebe-me
Como quem nunca tenha bebido do mel da vida
Sejamos a fome que nos domina
Na sede que em nós se faz viva
Porque no amor tudo se renova
Tudo se transforma, tudo é
O que sempre foi, amor, sempre e naturalmente
Amor…

Tiago Paixão

Arranca-me as noites duras…

Arranca-me as noites duras…

Leva-me daqui desta noite louca e ama-me
Como se na estrada não existisse destino
Beija-me neste sopro de vida que se extingue
Cada passo dado de uma música sem sentido…

Arranca-me das noites loucas onde me perdi
Faz-me encontrar no teu colo, abre-me a alma
Acolhe-me nos teus seios, abraça-me
Percorre-me a alma no beijo longo…

Arranca-me das noites duras
Encontra-me entre copos vazios
E corpos cheios de coisa nenhuma
Ama-me faz-me crer em noites puras…

Alberto Cuddel

Uma chama

Uma chama

Pequena e ondulante chama
Pensamento seguro e apoiado
Na cera dos dias de ontem
A herança, os valores, os medos
As seguranças, a formação
No ar, o contexto, a sociedade
Os condicionalismos, as restrições
No pavio, o teu corpo, a tua vontade,
A chama? Uma vez acesa,
Apenas a morte a apaga,
E ondula livremente o pensamento…

Alberto Cuddel
28/04/2017
08:48

Era para ser o último, mas antes aconteceu…

Era para ser o último, mas antes aconteceu…

era para ser o que nunca foi
antes mesmo de ter sido
essa ave que nunca voou
esse peixe que nunca nadou
esse réptil que não rastejou…
era para ser poema e não foi
era para ser prosa e foi curta…

era para ser amor, e apenas foi
era para ser para sempre e não foi…

era para ser corpo e foi alma
era para ser vil e aconteceu ternura
era para ser fiel e traiu
era para ser eu e não fui…

era para ser o último…
e aconteceu…

Alberto Cuddel

Nesta dor inflamada da realidade

Nesta dor inflamada da realidade

e ponho-me a meditar nos problemas que finjo…
do homem que fosse, como seria em vida,
não um animal dormente, mas o animal que sente
deveria ver e escutar como como ou bebo
de forma naturalmente natural
aprendendo o que é sentido e banal

assim como me roubam as palavras a cada vez que tremo
que seja nesta estupidificação da paixão a inconsciência
esse mistério universal de apenas te pensar
a noite não anoitece nos teus olhos
mas as minhas mão procuram o teu corpo
como a luz do sul uma tulipa acabada de florir…

assim é a essência da realidade o existir,
não o ser pensada
assim tudo o que existe, simplesmente existe
o resto é uma espécie de sonho que temos,
esse em que todos os orgasmos existem
pela vontade vã do prazer e sentir…
num ressarcimento corporativo da reciprocidade
um movimento de dor,
como um vírus que se espalha,
numa pandemia épica de um amor que se sente…

Alberto Cuddel

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