Fármacos dormentes

Fármacos dormentes

Adormecem-me a mente
O corpo e o desejo esses fármacos
Inibidores da dor e dos espasmos literários
Invadem-me as vozes mortas dos sonhos
Em respostas sem nexo e sem contexto
Adormeço contra a vontade
Nessa dor de acordar que não suporto…

A adormecem-me a mente
Esses doutores sem sentimentos
Sem os sintomas que sentem
Aceitando que dói menos…

Adormecem-me a mente
O corpo e o desejo esses fármacos
Inibidores da dor e dos espasmos literários
Até que os sonhos reais morrem
Sem que fosse o desejo de os matar real…

Alberto Cuddel

Culpada

Culpada

Há na culpa que carrego uma doença
– Levei e eu mereço

Não foi a escrava que desejavas
– Respondia e maltratavas

Não foi a empregada que almejavas
– Não fazia e tu berravas

Culpada, por não ser a amante perfeita
Por não ser a esposa perfeita
Pelas derrotas do teu club
Pela falta de dinheiro
Pelo comportamento da sogra
Pelos choro do filho…
Culpara e saco de pancada
Culpara sem ter para onde fugir
Por ter medo de partir culpada
Por achares que o chegar era trair…

Culpada…

#poeticamortem
@Suicídio poético
13/09/2019

Assim soubesses tu…

Assim soubesses tu…

Assim soubesses tu compreender o sonho de um sonhador, nesse devaneio de colocar um prato com urtiga num jantar de noivado…
Assim soubesses tu compreender a essência da molécula poética que se faz vida, ali no desabrochar de uma flor no corpo de mulher…
Assim soubesses tu o que é a morte diante do perigo de viver sem sonhos e sem palavras, sem versos a brotarem-te dos dedos…

Assim soubesses tu o que é o medo de perder
O medo de cegamente amar sem arreios
Assim soubesses tu a dor que me arrasta pela estrada
Essa viagem negra com um destino incerto…

Queria que, sonhando eu e se tu pudesses sonhasses em mim, um luar cheio e ecos de canções que saltitam no lago da vida, queria que soubesse que o sonho povoa-me por fora, como uma floresta envolta em neblina, com um sonho em cada esquina…

Assim soubesses tu o quanto desejei não ser poesia este sonho que sonhei…
Assim soubesses tu… o quanto me dói em vida a vogal aberta que abre um poema…

Alberto Cuddel

Raiva contida de um amor invertido

Raiva contida de um amor invertido

tantos nobres ideais caídos entre o estrume,
desse fertilizante mórbido que chamas de “amor”
ego embriagado de macho, derrotas da virilidade
febre que te nasce nas mãos por não se erguer…

há no amor invertido sentido do sonho
nesse que um dia desejei e hoje amaldiçoo
quebrassem-me as pernas a caminho do inferno
apenas bendigo o amor que me nasceu do ventre…
esse que hoje comigo carrego
trazendo no rosto a herança e a dor da memória!

dói-me a alma, por me ter deixado aprisionar na teia
dói-me a alma além do corpo, destas mazelas que carrego
hoje? hoje livre dói-me ter medo de amar,
por ter conhecido o amor invertido, doente
de quem um dia julguei poder ter sido amada…

#poeticamortem
@Suicídio poético
23/10/2019

Joana Vala

Palavras obrigatórias : urtiga, vida, perigo, molécula, flor, mulher

Joana Vala

“Há no desabrochar dessa flor
Germinada de uma molécula de perigo
Uma vida de mulher que se urde
Na fragilidade de uma urtiga em terra seca”

Nascem-me noites prenhes de solidão
As palavras ordenham-me os sonhos
E o corpo, o corpo vacila como canas ao vento
Entre o sabor salgado do pecado
E a clausura amarga de um quarto…

Nunca esperei muito deste amor
A não ser que fosse isso mesmo
Um amor simples, um amor de gestos
Um amor que chega, um amor de espera…

E eu? Tão noite e tão dia
Tão carente e tão naturalmente humana
Na expectativa de desabrochar flor…
De uma mera molécula de perigo
Descobrindo-me vida, descobrindo-me mulher…

22-10-2019
21:17

A morte dormia ao meu lado e eu amava-o…

A morte dormia ao meu lado e eu amava-o…

Dormia ao meu lado na cama a dor e a arma…
Esse ciúme violento de quem doente me espera
Eu, sonhava e era violada….
Doía-me a alma, presa ao destino, doente, eu amava
Todos me diziam, deixa, parte, vai, vive, foge…
Mas a morte dormia ao meu lado e eu, eu amava-o…

Depois, depois olhei-me no espelho e não me conheci
Depois olhei-me no espelho e vi…
Eu, eu não me amava, não amava os filhos espancados
Os pratos vazios e barrigas de fome…
E decidi dentro de mim matar a morte e fugir…
A morte já não dorme ao mau lado, e eu, AMO-ME…
Nessa mão estendida que agora me apoia
Quando eu o soube pedir…

#poeticamortem
@Suicídio poético
18/10/2019

Tenho escrito, apenas e só!

Tenho escrito, apenas e só!

“Tenho escrito mais versos que verdade.
Tenho escrito principalmente
Porque outros têm escrito.
Se nunca tivesse havido poetas no mundo,
Seria eu capaz de ser o primeiro?”

Álvaro De Campos
15-10-1930

Por onde me encontraria na mentira da criação
Fossem os poetas executores de matéria
De onde lhes nasceria nova vida
No caos desordenado do alfabeto
Nas oitavas menores dos sons da noite…
Cantaria mentira o poeta? Por entre liras estridentes…
Serrados sejam os dentes, herege lançado à fogueira
Que poesia é obra do demo, nela vive o engano.
De mim, nada, nem inventado fora o verso,
Rima de um sentir enganoso e perverso,
Copistas de mentira e palavra já escritas
De um amor estupidamente camoniano
E a tua anarquia ordenada de ideias,
Campos, Campos, de ti Reis,
Libertos da libertinagem das palavras
Soltas e brancas… sem rimas eficazes
Onde o tudo escrito é apenas um nada
Que se apaga, como a lâmpada do quarto…

Alberto Cuddel
28/04/2017
09:08

Portas, ou reentrâncias…

Portas, ou reentrâncias…

Portas fechadas, que se deveriam abrir
Almas amarrotadas, enclausuradas pelo sentir
Ódios cultivados e ouvidos fechados,
Que se abram, que se escancarem
Que se renove o ar, a brisa, deixa entrar…

Que se percam as chaves do egoísmo vil,
Que se escute abertamente abdicando do funil
Da dureza do preconceito formatado
Por um coração duro e bem fechado…
Que se abram portas, janelas, que se derrubem muros
Paredes, pedras…
Que se abram ao mundo, as portas da alma,

Que se abram, que se escancarem
Que se renove o ar, a brisa, deixa entrar…

Alberto Cuddel
28/04/2017

Arreios que me prendem aqui…

Arreios que me prendem aqui…

Tenho esse amor que me espera
Nos ventos lilases e lençóis pretos
A vida que sonho, as noites prenhes
O silêncio da fuga em sentido oposto
Arreios que me prendem ali…
Ali mesmo onde já não quero estar…
Porque ali, ali é outra vida…

Sonho concretizar essa vontade egoísta de ser
Partir sem voltar, ir sem regressar,
Porque a vida é uma viagem sem volta…
E na volta perco a vida que não tenho

E vi florestas de ferro,
E sonhos de mãos dadas
Dissiparem-se os fumos partilhados
E a manhã nascer uma vez…
Apenas uma vez, bem ali diante dos sonhos…
Arrumei em mim, no meu íntimo
Uma faca egoísta com que irei cortar
De um golpe só, seco, sem tempo de sangrar
Esses arreios que me prendem aqui…
Aqui, onde não quero estar…

Alberto Cuddel

Discussões…

Discussões…

Questões postas,
Frases soltas,
Declarações, respostas,
Lágrimas vertidas,
Contidos gritos,
Arrependimentos sentidos,
Choro, abraços,
Desculpas pedidas,
Beijos, caricias,
Promessas, renovados votos,
Pensamentos soltos,
E depois?
A PAZ!!!!

Alberto Cuddel
21/10/2013

Perdão

Perdão

Sei que esperas um pedido de desculpas,
Sei que ficaste magoado pela sinceridade,
Por não aguardar e reflectir nos motivos,
Para mim desconhecidos e incompreensíveis,
Sei que devo apoiar os amigos nestes momentos,
De isolamento, de desespero, de incompreensão,
Mas bato há porta e esta fechada,
Questiono e “não foi nada”,
Volto a questionar e “esta tudo bem”,
Que hei de eu fazer também?
Pois se sofres, sofremos também,
Apenas podemos aguardar e aceitar o teu pedido,
Espero que o uses bem para não ser um tempo perdido…
Aguardamos com Fé o Vosso pleno Regresso….

Alberto Cuddel
16/10/2013

Nada disto era antes de ser

Nada disto era antes de ser

nada é nascido antes de concebido
de florido, de germinado…
molha-me os pés esse orvalho nocturno caído
ciprestes altos e teias de aranha ornamentados
e vai a ver é agosto, e vai a ver já é natal…
nada disto era antes de ser…

tinham todas as palavras os teus olhos
nesse cruzamento do silêncio dos meus
e cheguei, e chegaste, e parti, e ficaste
e vamos a ver já é noite, e vai a ver já é dia
e fomos lado a lado, do lado de fora da estrada
nada disto era antes de ser…

vieram os braços e o teu corpo dentro deles
e veio o cansaço e o dia em que adormecemos
e perdemos a fome, a sede e a vontade de dormir
semeamos os sonhos mesmo antes de nascerem
e veio o frio, e veio a indiferença
e vai a ver, já não nos conhecíamos…
e nada disto o era antes de ser…
e aconteceu…

Alberto Cuddel

Joana Vala

Joana Vala

Rasga-me as horas da solidão que me cortam os dias
Abarca-me na tua alma, entrega-me as chaves do existir
Concede-me o desejo de que se faça em mim a fome de beijo
Chega, está, permanece em mim…
Faz-te gesto em palavras de silêncio
Amame*, para que te ame no corpo
Faz-te amado, apaixonado carente da minha existência
Que me ajoelhe perante ti, despido das vestes que te cobrem a alma,
Despido dos bens materiais que te apoquentam…
Chega, está e ama-me como ontem…

Permite-me amarte*, na plenitude de sermos unos…
Chega amor, amame* sem pudor…
E descansa…

13-10-2019
*referencia a “Amar sem hífen” de C Maria Magueijo

“Amar sem Hífen”

“Amar sem Hífen”

Nesse amar que arrancamos do peito em dádivas oferecidas sem a reciprocidade de um abraço, colecciono horas de solidão no tudo que entrego nascido da alma, rasgo as noites lilases olhando a porta fechada na esperança da chegada.

Amar sem hífen, sem intervalos latentes, sem fé no corpo da gente, apenas assim amar sem os intervalos dos dedos, sem ar nos abraços, sem a roupa no chão, nesse amor que é mesmo que do ímpeto juvenil perca a vitalidade, desse amor que se entrega sem esperar devolução, amo assim sem hífen, amo a vida e em mim comigo também te amo.

Amar sem hífen, a mão aberta de um mendigo aos céus, a mão da criança que almeja pela última bolacha, nos braços estendidos de um ultimo adeus, ainda que não lembres o meu nome, amar sem espaço, sem entraves, sem a hipotética esperança de ressarcimento na medida com que damos, porque no amor somos o que oferecemos e nunca esses hífens que partem a oferta do que recebemos.

Amar sem hífen é ser na intimidade amor, talvez como resposta há espera que nos corrói a alma!

Ainda espero por amor, rasgando as noites lilases olhando a porta fechada na esperança da tua chegada, e irei amar cada segundo que a vida me concederá contigo em mim.

Joana Vala
17/09/2019

Assim, separados, amar-nos-emos sempre.

Assim, separados, amar-nos-emos sempre.

ainda que sempre seja eternamente o amanhã
o depois nunca será o destino de hoje
por me teres amado ontem, sem o conceito do já!

amar-nos-emos agora nesta fabulosa arte de ser alma
alma-te* em mim, faz-me em ti arte de existir
partilha, conflito absoluto da dádiva
sou-te, no amanhã que crias
-“bom dia, amo-te e amar-te-ei depois”
beijemos o sol que nos brilha na face
a lua que se deita ao nosso lado
amemos os rios e os mares, amemos a terra
amemo-nos, por sermos nos templos supremos
desta herança que nos foi concedida
vida!

e assim, separados, amar-nos-emos sempre.
até que o tempo nos una…

Alberto Cuddel
*termo usado pela autora Sónia Correia, (ama-te desalmadamente)

Powered by WordPress.com.

EM CIMA ↑

<span>%d</span> bloggers like this: