Decadências

Decadências

Decadências são férteis em virilidade mental
força em fraqueza do espírito
tudo se mistura e se cruza
entre um ir e um voltar em nuvens que pairam
há um que de loucura no silêncio
esta vontade nascida de uma garrafa vazia…

os pés que se arrastam conta a vontade da gente
a vida sem destino levada pelas vontades do ferro
andar incógnito, em sucessões de sonhos,
não são mais para mim do que foram
para os que acreditaram neles, (nos sonhos)
e morreram as esperanças levadas pelas chuvas…

pobres conceitos sem alma nem figura
se pelo amor vivo, dele sou e canto
enquanto a verdade se impõe
no leito vazio de uma adega…
decadente sou… pela vida que sonho…

Alberto Cuddel
24/06/2019

Amizade

Amizade

Tua alegria,
Minha alegria,
Teu sorriso,
Meu sorriso,
Sempre do teu lado
Mesmo que a distância não o permita.
Abraço apertado,
Quando sinto-te em baixo,
Conversa longa e demorada
Quando sinto-te perdido,
Seja hoje ou amanhã
O tempo não impede a nossa parceria.
Sinto-te na ausência da tua presença,
Sinto-te na presença da tua ausência,
Porque ser amigo
É ser presente mesmo não estando perto,
É estar mesmo não conseguindo estar.
Sónia Fernandes
Ser Amigo é estar
Doar, cuidar, preocupar-se nos silêncios
Orgulhar-se no sucesso do outro
Partilhar a alegria, os bons momentos
É saber comemorar, como se tudo fosse ganho…
Ser amigo é mais que irmão, que sangue
Ser amigo é amar como igual…
É estar não na tristeza ou doença
É enaltecer, é elevar as virtudes
Na amizade encontramos braços abertos
Mãos vazias, braços que se fecham no abraço,
Mãos que se enchem no cansaço…
Alberto Cuddel

Tédio

Tédio

Há um tédio repentino que vibra nas cordas tensas do violino
passos gastos que empurram um corpo rua acima
árvores curvas erguendo as folhas aos céus
uma lamuria silenciosa de me perder do mundo

um arco descrito em parede granítica
uma porta fechada para lado nenhum
voam as andorinhas soltas pelas ruas
fogo que arde sem preceito
alimentado por bolsos…
um tédio por atender o mundo
nas conversas soltas da barbearia…

as mulheres vagueiam… e os homens? Esses perderam-se….

Alberto Cuddel

Translação empírica

Translação empírica

Escrevem-se os versos da alma
Neste movimento que finge de tão real
Devoram-me as palavras pelas ideias
Arrasto-me pelas linhas curvas da certeza

Há uma impaciência fiel
Na medida exacta com que nos perdemos
No lugar onde procuramos o prazer
Esse mesmo lugar onde nada existe

Rodo, repetindo passos que não dei
Neste acto incontável do criador, poeta e personagem
Rasgada a página da ilusão
Paciência incontida na minúcia das palavras
Rodam sobre mim todas as coisas
Neste livro que me escreve de azul
Viajando solto pelo universo
Livre…
(algemado a um punhado de estrofes, que teimosamente me escrevem)

Alberto Cuddel

Dói-me saber

Dói-me saber

Doeu-me a notícia
Servida fria, escrita, impessoal
Mórbido, nocivo, maligno…

E a vida desfaz-se ali, diante das mãos
Entre um passo e o outro… sem forças…

Doeu-me a falta do abraço, do apoio
Doeu-me a falta de ti, a tua “indiferença”
Doeu-me o medo de te deixar, o medo de partir
Doeu-me ficar sem chão, sem reacção…

Dói-me saber que esse bicho ainda macera
Angustiante vida, ainda que viva, doí-me a alma
Dói-me ficar aqui, ser cortada, esventrada,
Mexida, alterada, dói que me arranquem…

Doeu-me a recuperação lenta,
O tempo sem passar, a dúvida
A incerteza, a angústia de saber…
Dói-me o isolamento, a dor cá dentro
Bem fundo na alma…
Dói-me a incerteza de um abraço
De um apoio baço…
Dói-me deixar de lembrar
Tentar esquecer, esta espada que pende
Brilhante sob a minha cabeça…

Aos doentes dessa terrível doença o câncer…

O riso da alvorada

O riso da alvorada

Espanta-me o riso da claridade baça da alvorada
refracção da água onde se contempla o outro lado
o lado do sonho onde a vida não nasce…
Obstinadamente representas…
máscara caída, a tua própria vida
cromossomas hereditários das palavras cravadas no peito
punhais que ferem o papel negro
génese do fenómeno do riso, esse que imitas a cada acordar…
não há poetas felizes, e os que há, não escrevem
ou meramente adormeceram na madrugada…

Rindo do sortilégio do mundo
convocado pelas misérias do leito
há na desigualdade uma inquietude que emana
vapor de água sob a erva, aos primeiros raios
desvirginando a terra…
e rio, desalmadamente
por detrás de uma máscara clara de sol…
como se o dia nascesse ao contrário
de fora para dentro…

Alberto Cuddel
15/06/2019

Adivinhação do visível

Adivinhação do visível

Agudiza-se a memória, palco da vida
há medo estampado nas mascaras
na face que escondo ao sofrimento
tábuas que piso, túmulo das horas
vinagre servido em copos frios!

Cenas sucessivas, tragédia insólita e grave
gritos agudos em ecos de sala
deambulam os olhos na imensidão da areia
tudo seco como palha, na aridez do presente!

Aplaudam, mãos dormentes na algibeira
não há vestígios de fumo, nem fogo,
nem erva, nem palha,
apenas um sopro seco e suave…

Alberto Cuddel
14/06/2019

Irrealismo

Irrealismo

Há na vontade de escrever uma falta de destino
[Um partir em desalinho]
Analogias singelas e negras…
Já tive vontade de passar de barco
Voar sobre o deserto, de cair no Inverno
De trepar a uma árvore morta pelos incêndios!

Quis descobrir-me nas palavras, mas elas fugiram
– mentiam e apenas me sondavam!
Não havia paz, apenas medo, no tudo que elas diziam…

Enchi cadernos de letras
Como aves em árvores, noite escura
(aos primeiros raios de sol, piaram)
Ao segundo voaram…

Alberto Cuddel
13/09/2019

O ocaso do verso

O ocaso do verso

Tendia para o ocaso
o tempo fluido da angústia
talvez por ai deuses fecundos
multiplicassem por entre as rochas
num fluir justo das marés diurnas!

na cidade as fêmeas caçavam
presas fáceis do sexo raso
não há bravura no aço
apenas no cobre que gastam
gemidos e bradados aos céus e momentâneos!

Alberto Cuddel
11/06/2019

Sejamos…

Sejamos…

Sejamos corpo
desse desejo que nos arde no peito…

Sejamos vontade de beijo
Calor nascido do olhar
Vontade de estar, de ficar
Sejamos as ondas do leito
Movimento estrelar
Vontade de amar
Voo rasante das aves do céu
Seja meu o desejo teu!

Sejamos arte que nos pinta
Cama que nos sinta
Sejamos mãos, desnudos seios
Alma inquietas, molhados beijos,
Vestes no chão, abraços,
Dispamo-nos do mundo
Desse passado sem futuro…

Sejamos nós e amor que nos cresce
Sentir que nos povoa e nos fortalece
Sejamos felicidade, cumplicidade
Sejamos tudo o que sempre procuramos
Sejamos prazer, querer e viver
Sejamos vida plena e saudade…

Sejamos tudo, sejamos sinceridade
Olha-me, olha-me bem fundo na alma
E sabe, que te amo de verdade
Sem cobranças ou vaidade!

Tiago Paixão

Adivinho-me

Adivinho-me

Adivinho-te no meu peito
(nessa arte vil de ser, Amor)!

Faço-me de novo a cada despedida
Em cada esperança esbatida da chegada,
Na cadência das ondas de uma maré
Que trás, que leva, que se faz
– O sentir que brota dos lábios
Perfume que nos corrói a alma…

Que trágica sina essa de partir
Onde nos espera o tempo que esta por vir
Pelo amor a dor da saudade,
Dói, mesmo antes de a sentir…

Leveza da chegada, o sentir
Calor momentâneo pelo sangue que corre
Adivinho-me assim, pleno, no entre tempo…

Se é amor não sei, o amor é…
Não se explica ou adivinha, apenas chega, apenas parte…

Alberto Cuddel
14/06/2019

Quebra

Quebra

quebrei, distraído, quebrei
quebrei, quebrando o que firme estava
inconsciência do habito de nada usar…

queria arrancar-te essa dor no peito
voltar a fazer de outra forma o que foi feito…

quanta cobardia, quanta incúria do cuidado
quanta dor infligida, quanta traição cometida…

podiam ser rosas brancas
essa nascidas em terra selvagem
podia ser mar ao alcance dos olhos
mas foi meramente chuva que te corria pelos seios…

enredo-me na teia da madrugada
usurpação do tempo que lembrava
tragédias pardacentas, frios corpos
uma embriagues lânguida
no almiscarado perfume dos dedos!

quebrei as juras que aqui vinham morrer
pela tarde calada no leito toldado
rouba-me o ar que arfa no peito
descobre-me o medo rarefeito
uma febre hemorrágica dos segredos
palavras sangrenta e sem medos…

quebrei, distraído, quebrei
quebrei, quebrando o que firme estava
inconsciência do habito de nada usar…

Alberto Cuddel
11/06/2019
01:00

Poema XLIX

Poema XLIX

sou sempre a divisão do que não está
nessa loucura do júbilo desconcertante
escondendo-me das amantes,
em nomes que nunca tive, quem finge crer?
que me multipliquei em versos
em registos de um livro branco
onde nos cantam as sereias, novos e tristes fados
das gargalhadas do paço, corrompido está o poder…

arranca-me do ventre da minha mãe, nesta fome de viver
que fado doce te escorre na face, nas ruas infestadas de sardinha
manjericos saltitam embriagados correndo pelas moças
serei as nuvens que se arrastam, pelos silêncio da tua voz…

à loucura de existir pela mão louca de um cobarde!…

Alberto Cuddel
13/06/2019

 

Último poema do projecto de livro “o suave aconchego do poema”

O Suave Aconchego Do Poema

Poema XLVIII

Poema XLVIII

morrem na praça os passos
quebra-se o silêncio no chão por pressa
não há quem meça como cá chegamos…
caricias dos pé no interior dos sapatos é meramente dor…

não amo a poesia (essa que ondula como navios do cais)
mas a livre cativa da alma onde morais…
há uma febril constatação, a poesia não morre nos dedos
mas no ventre de quem a come…

há quem me meça e avalie
há que me contabilize,
há até quem me conte as letras gastas
há quem me acuse de desperdício…
mas quem é o homem que se poupa
na execução da sua amaldiçoada arte?

Alberto Cuddel
13/06/2019

Poema XLVII

Poema XLVII

não principio nem acabo nas palavras que escrevo
tudo é um vício que me consome
como uma tragédia, como um drama de uma disputa que não começou…
não por uma insanidade ou um ósculo histórico por dar
talvez como uma missiva que nunca chegou,
por um tiro no peito que o matou!…

deixa a palavra reclusa da gaveta do esquecimento
deixa que a leve no bico a andorinha à chegada do outono
sofra eu a perda como um cão sem dono
vagueando pelas estradas esquecidas e sem bermas.

assaltam-me o espanto e a dúvida
nesta guerra que me roubou a paz
nos diligentes caminhos da loucura
onde a vida é um mero jogo de palavras…

as letras devoram-me a carne
os ossos da mão que escreve
a luz fustiga-me as ideias
numa fome letal e voraz
consome-me as sílabas o papel…
letra após letra, após letra…
não principio nem acabo nas palavras que escrevo
tudo é um vício que me consome…

até que o aconchego do poema me abrace!…
na transparência do vidro constróis labirintos
caminhos tendenciosos rumo ao olimpo e infinitos
porque deuses somos nós…

Alberto Cuddel
13/06/2019

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