Nestas horas que nascem,

Nestas horas que nascem,

Rodam rodas na estrada apressadas e sem destino, com pressa de chegar lá longe onde nos mora a felicidade, e passam os que vem e os que vão, e os outros que se perderam nos atalhos do conformismo da vida.

E sopram e bebem licores
Andam dias acima em pés de lã
Amam como loucos os dias
Noites de solidão onde se desejam
E os monótonos tempos comigo mesmo
Olhando a gente que passa e que está
(estou só entre tanta gente)
Procuro parado no tempo que espero!
Desenhando trajectos do amanhã
Entre sonhos e certezas!

Olho esse vazio que se me apresenta pela frente, que esse passado cheio não me chega, procuro o que já encontrei, na certeza certa de saber onde pertenço, e sei onde devo estar, não atrás, à frente, por baixo ou por cima, mas ao lado de mão dada, se temos pena? Nenhuma…

Conduzo sonhos, sem carro, apenas pela vontade de os tornar possíveis, realizáveis, beijáveis, nesses caminhos que abrimos sem licença, onde se movem fantasmas de amigos imaginários, tão palpáveis, tão reais… somos, a saudade das horas, pelos beijos que ficam por dar… mesmo que espere olhando a porta, tudo vale a pena, quando amamos, tudo vale a pena… e amamo-nos de novo, as vezes apenas no olhar preso num abraço e num beijo roubado na sombra, à vista de todos!…

Alberto Cuddel
15/11/2018

Divagações da procura da alma gémea…

Divagações da procura da alma gémea…

Jamais te procurarei, por entre os nomes que te deram, [nunca te chamam, eu chamo-te], seja doença ou cuidar ausente, [Um poder maternal, ou entrega de amor], eu chamo-te mulher, talvez até Maria!

Criei-te diferente, sonho crente, sendo, foste, estando, és, [não mãe, ou esposa, talvez amante, talvez amiga], no sentir que sinto, crio-te novamente, como sempre te procurei, em tudo igual, em tudo diferente, um nome, um rosto!

Invento-te, a cada nova conjugação
A cada novo verso, a cada esgano do sentir
Representação perfeita das máscaras
Que de mim invento, que de ti sinto,
Que em mim represento, que sou cá dentro!

A cada nome, uma nova forma de ser
O que efectivamente em ti és… Perfeição, saudade, mesmo aqui, ao alcance da mão!
 [mesmo assim sou novo… ou talvez não]
Talvez apenas seja o que sempre fui…
Talvez sejas o que sempre procurei
O que de mim eu encontrei…

Alberto Cuddel
15/11/2018
Castanheira do Ribatejo

Nesta poética do sonho…

Nesta poética do sonho…

Nas noites em que há meia-noite, procuro encontrar a solidão no universo inteiro, nos sonhos em que me habitas, memória dos dias e das tardes, encontro o silêncio nas palavras sobrepostas, quebrados pelo eco da tua imagem e pelo calor do teu corpo.
Desperto da sonolência das horas, preso nas grades do tempo, onde moram as estrelas, pólens literários esvoaçam na mesinha de cabeceira, de uma literatura avulsa remetida pelo correio… ainda assim o cotidiano inquieta-me, nesta visão de uma realidade cinzenta, envolta em nevoeiros rosa!

Tudo dorme,
Viajo pelo sonho das metáforas
De uma mão calejada na alma
Que me massaja o ego, eleva
Que se faz luz no sentir de alguém
Que distante canta fados tristes,
Numa solidão inconformada,
Onde ainda me deseja a cada dia,
Pelos aniversários de vida!

Na solidão que a meia-noite me dá, sou eu, sendo outro, escrevo, versos que a noite me dita, de um mundo exterior a mim, onde pertenço, onde sempre pertenci, e sonho como nunca havia sonhado, com esses dias de mão dada, onde as rosa não morrem e os jardins conseguem florir pintados de branco, mesmo que na noite o frio seja um mero motivo para o abraço!

Acima de tudo, adormeço, e sonho, como se nunca tivesse acordado, desta realidade que é hoje, a vida que me dou…

Alberto Cuddel
13/11/2018
Marvila, Portugal

E os dias? Os que não fazemos, apenas existem

E os dias? Os que não fazemos, apenas existem

Nos dias que não fazemos,
Nas saudades inventadas no corpo
Nesse afastamento temporário
Obrigatório até doer em nós o peito…

Às vezes para me entreter – porque nada mais me entretém que a proximidade de ti, ou este querer absoluto das coisas fúteis que calamos no olhar e abraçamos como se não existisse amanhã – apenas escrevo inutilidades da alma e saudades, nestas futilidades cabem todos os dejectos da sociedade, até o esquecido que dorme no vão de escada do número 3 da rua de trás… Mesmo que nestes minutos que me asfixiam na tua ausência, tenhas voado do meu pensamento, pelas artes da sinapses da memória selectiva que me condena, entre frases e versos já escritos por vários mortos antes de mim, fazes me falta, nestes dias que não fazemos e não cumprimos.

Nos dias que não fazemos,
Nas saudades inventadas no corpo
Nesse afastamento temporário
Obrigatório até doer em nós o peito…

Invento sonhos que nunca sonhei, em dias que nunca dormi, poemas que nunca escrevi, mesmo que sinta em mim que o fiz, que o quis, nesta poética macabra de pensar o nada e o tudo, o tempo que foi e o mundo, uma ausência temporária, uma outra imposta, neste tempo que avança sem retrocesso, neste novelo que desenrolamos! Passeamos pela tarde de mão dada, em jardins que nunca floriram, embalados pela brisa do fim do Verão, sem nunca lá termos estado, beijei-te, como quem beija intensamente e sem pecado, ali, diante de todos, de nós e do mundo, fomos sonho, e carne, e sentir, e desejo, fomos tudo… E os dias? Os que não fazemos, apenas existem, esperamos o depois de amanhã, ou um futuro que chegue, ou um sonho, um poema, ou apenas um acordar juntos com o sol batendo no rosto!

Nos dias que não fazemos,
Nas saudades inventadas no corpo
Nesse afastamento temporário
Obrigatório até doer em nós o peito…

Alberto Cuddel
12/11/2018
Marvila, Portugal

Em quase dias perfeitos…

Em quase dias perfeitos…

Em quase dias perfeitos, mesmo que chova, mesmo que os céus carregados não deixem ver o sol, mesmo que os ventos varram as ruas, que a folhas voem e os pássaros se encolham e abriguem, mesmo que apenas o som da chuva da vidraça quebre o silêncio da respiração, em quase dias perfeitos amamo-nos, como se hoje fosse sempre e o amanhã não possuísse significado.
Em quase dias perfeitos entregamo-nos, doamos a alma um ao outro, existimos sem tempo, sem distância, ali ao alcance da mão, ao alcance do peito, nessa esperança que o tempo se anule, e o impossível de agora seja apenas agora, na possibilidade de o sonho ser a realidade do depois.
Que venha as horas e os corpos, que venham os desejos, os beijos, as vontades, as paixões, que venham as loucuras de ver a água escorrer, de ver chover em nós, na volúpia desse querer que nos arrebata, que venham os abraços e olhares, as loucuras milenares, que venham as noites, as estrelas, o ver nascer do dia, que se incendeiem lareiras no peito, tochas nos olhos, que ardam as mãos no querer.
Em quase dias perfeitos, vivemos,
Em quase dias perfeitos, amamos,
E nos outros também…

Alberto Cuddel
11/11/2018
Marvila, Portugal

Às vezes chove

Às vezes chove

Cuidas tu que a noite cai para todos? Não, existem aqueles que não se lembram de ver o dia, que olham o chão sujo, que não dizem bom dia, ainda assim não chove em todas as almas, algumas apenas existem, deambulando com fantasmas. Outras há que a chuva lhes escorre pelas janelas da alma, num sofrimento causado pelo mundo dos homens, e homens que não cuidam, que dizem não, que não ficam, que não pedem perdão. Há homens, nesta dura humanidade que orbitam o comodismo do seu umbigo, e como demónios fazem chover.
Às vezes chove, outras faço-me chover, neste inconformismo do desassossego que me habita e me povoa, às vezes encho-me de água, esvaziando-me em sorrisos, outros, contenho as nublosas inquietações que me perseguem, outra evaporam-se com o teu sorriso, na suavidade da tua voz…
Mesmo assim chove, porque a chuva também limpa a alma, e purifica os demónios do passado que nos perseguem, umas vezes chove, outras apenas te banho o rosto com o meu sorriso, num leve sussurro, como brisa tocando nos lábios, abre-se o sol no teu rosto… às vezes chove mesmo com sol, e abre-se entre nós o arco-íris…

Alberto Cuddel
10/11/2018
Marvila, Portugal

Coisas do coração ou a chave da felicidade

Coisas do coração ou a chave da felicidade

Procurei-te tantas vezes onde não estavas, onde nunca exististe, nas nuvens, nas ruas, no reflexo de um luar, nas pétalas de uma flor, nos copos com amigos, num convívio, em festas, num adormecer, num sonhar, num poema…
Procurei-te tantas vezes neste vaidade de dar, de entregar, na solidariedade, na amizade, num olhar do espelho, num reflexo dos olhos, num sorriso da alma, nesse acto altruísta de fazer crescer e das esperança, na publicação de um livro, no plantar de uma arvore, no soltar de uma ave em voo livre…
Procurei no meu íntimo, no amor-próprio, nesse acto divino de criação, na volúpia das noites, num abraço, no prazer dos corpos, na arrogância das palavras, dos gestos, na liderança de multidões, nas palmadinhas nas costas, no orgulho de ser, existir, ter um nome, procurei-te, continuei a procurar-te…

Procurei-te em tudo o que me foi dado, comprado, desviado, apropriado…
Mas tu felicidade, vieste até mim, sem que nada eu esperasse…
Chegaste de mansinho, de sorriso nos lábios, com palavras de carinho, e entregaste-me a mim como guardião, a chave do teu coração… e eu amei-te…

Alberto Cuddel
10/11/2018
Marvila, Portugal

Coisas de Deus que não lembram ao diabo

Coisas de Deus que não lembram ao diabo

Conversas soltas sobre deuses, outros demónios, que nos atazanam a vida ou meramente os dias… Os passos que vos interrompem as palavras compassadamente coxas, espiam-vos as letras plagiadas, ideias copiadas, de preguiçosas mentes, e mentes com todos os dentes que te pendem do céu…

Tudo passa ignorado, fingido sábio, (an)alfabeto retractado, um puro néscio, renascido de orelhas afinadas…

E conversam meramente sob as arcádias do tempo, nessas normas poéticas desmentidas, adulteradas da beleza solta do pensamento, onde impera a liberdade do sentir alheio ao corpo e ao tempo, por quem não tem sentimento, e goza deliberadamente despejando um sémen adulterado e estéril em folhas virgens e imaculadas.

Ainda assim soltam as conversas sob a verdade da inspiração da alma, como se ela transpirasse longamente nesse encontro apaixonado, movimentado, conciso e aflito, buscando a paixão numa erecção a cada ponto de exclamação, morrendo a cada orgasmo atingido no final de cada poema!

Não, escrever poesia não é uma mera inspiração, é um conjunto de transpirações de coisas de Deus que não lembram ao diabo!

Alberto Cuddel
09/11/2018
Marvila, Portugal

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