Um adeus que não esperava.

Um adeus que não esperava.

Nasce-me um adeus no peito,
Em notícias incrédulas, tanto havia
 – Tanto há e cá não estas…

Não fica comigo a saudade,
Nem na alma actos passados,
Fica a memória de outros tempos
E tempo que já não temos…

Por um instante despedes-te de Deus
Despedes-te de mim, das saudades que tinhas
Da tristeza que sentias…

Lágrimas que perdem sentido
Diante das palavras que me crescem
Na dor do silêncio da mente
Silêncio que me envolve na alva bruma
Pesado cansaço opressor das ideias,
Adormeço em mim, sabendo que já não vives…

Nascendo-me um adeus no peito,
Para renascer num amanhã, sabendo que não estás
Na alvorada de um novo dia, partistes para junto da tua vida…
Adeus tio…

Alberto Cuddel

Adeus meu tio… RIP

em 29/11/2018 até sempre…

Neste amor

Neste amor

Nos abraços dados e prometidos
Nos sonhados e sentidos no corpo
Abraçados no olhar que edifica
Pele quente sem corpos de seda
Carentes de calor, de paixão, de amor!

Abracemo-nos como quem abraça a eternidade
Nesta galáxia de sonhos onde o tempo não é nada
Tudo está definitivamente escrito, selado em nós,
Nesta solidão tão dorida, onde queremos estar sós,
Seremos nós, um “eu”, um “tu”, sozinhos no mundo
Apenas um com o outro!

Neste amor onde somos:
A saudade na partida
A pressa da chegada
Um tempo que não passa
Um relógio que avança
Dorida vontade de vida!

Não, não fujamos mais ao nosso destino
Esse que nos afastou e nos juntou
Abracemo-nos como abraça o mar a um ilha,
Abracemo-nos sempre numa eternidade prometida…

Neste amor, somos porque nele nos edificamos
Porque nele somos melhores, um “eu”, um “tu”
Apenas também um “nós”, onde o tempo nos une!

Alberto Cuddel
09/11/2018
Castanheira do Ribatejo, Portugal.

Sonho verdades contrafeitas

Sonho verdades contrafeitas

O único problema dos sonhos é que são democráticos
Todos sonham, todos tem um, até alguns que sonham em branco,
E depois chove, chove lá fora ou dentro de cada um,
Uma chuva miudinha, meras poças onde chapinham as crianças
Onde choram as mães pela guerra, ou os pais por causa delas!

Sabes? Às vezes é domingo, mesmo assim acordo
Mesmo que não acredite, este é o dia depois do sétimo
Depois de tudo feito, onde tudo começa por se desfazer
Entre lençóis amarrotados, e a pilha de roupa para passar
Neste sonho onde ainda não acordei, sinto-te
Em votos brancos de uma mão que chega, gélida
Ainda que o sol torre lá fora por volta das dez!

Sonho vales verdes, como verdes são os limos
Que me cobrem os poços e as minas, em águas claras
Sonho juntas de bois, correndo e bailando pelo Minho
Ainda assim está frio, e não te sinto!

Há barulhos na rua vazia de gente
E cães que ladram com fome de quem passa
Há amor e lagrimas, fel pela vidraça,
Está suja, ninguém limpa os olhos da alma
E na alma do lar, faltas-me
Nesta vontade férrea de ainda te sonhar!

Os soldados marcham, e o carteiro sem pressa
Corre, de encontro à segunda-feira!

Alberto Cuddel
06/11/2018
Marvila, Portugal

Cheias declamações

Cheias declamações

De boca cheia num peito latejante
Vomito versos numa indisposição latente
Húmida transpiração visitante, estudiosas horas…

Nesse murmúrio cadavérico do poeta morto
 – Herança d’outrora, bancos de escola
Nessa espera diligente que nos batam, leve, levemente
Por mim ninguém clama, há gaivotas no jardim…

Suspende a boca e o desejo,
Suspende a rima e o beijo
Enche o peito de amor perpétuo
E Leonor? Qual brancura, qual clamor
Pela verdura, de faces rosadas,
Blusa decotada e desalinhada
Corre cambaleante,
Seu marchante…

Há abismos na praia
 – Eu que nunca soube velejar
Há velas apagadas sem qualquer aniversário
Onde nos mora o léxico do pastor
 – Rebanhos contados, lençóis desalinhados
Não há sono, nunca houve,
Como adormecer na abundância dos teus seios?
 Janelas abertas em dia de chuva
 Corpos molhados enquanto dura
Por França morre-se
 Como se por amor se vivesse
Entre Marte e o sertão, que se dobrem bojadores,
Adamastores, e todos os cabos hirtos e viris
Desbravemos os corpos do não,
Em “sim’s” gritados, que desassossego este?
 – Vem Maria, fujamos juntos para o Egipto,
David derrubou o gigante, e Caim cheio de ciúme
Matou, como quem mata o amor!
De boca cheia num peito latejante
Vomito versos numa indisposição latente
Húmida transpiração visitante, estudiosas horas…

Alberto Cuddel
05/11/2018 06:06

Creio-me aflito…

Creio-me aflito…

A porta fechada
O trânsito que não anda
A pressa da chegada e a vida parada!
 – E o papel, onde raio há papel?

Um credo e dois pai-nossos
Uma Ave-maria para o caminho
Tenho pressa de chegar
E a vida, bem devagarinho!

O estrugido ao lume,
O filho a gritar
O ferro a queimar
O balde quase cheio
E tudo, tudo, pelo meio?
 – O marido, esse não há forma de chegar!

Nesta vida sem medida
Na medida do tempo
Não me creio sem vida
Mas vivo contrafeito!

Ó sorte dos deuses da morte
Ó céus cinza e sujos
Marés e mares vazios de vida
Pegadas na areia desaparecida…
Longe, bem longe onde o vento levou as dunas…

Creio-me aflito,
O rolo do papel
Ali, mas vazio…

Alberto Cuddel
04/11/2018
Marvila, Portugal

Na busca desse negro viver

Na busca desse negro viver

Há liberdade na rua
Em corridas de cachopos
Nos braços apertados, no grito do nome

Há inocência nas calçadas sujas da noite
Sacos e garrafas que bóiam vazias
No vento da manhã,
 – O sol nasceu, amedrontado!

Fronteiras da privacidade
Vizinhos que não se falam
 – Ninguém incomoda quem dorme
Debaixo do vão de escada!

Há trabalhos que esperam
Desempregados que desesperam
 – Esposas que inventam problemas
Amantes que procuram felicidade!

Na busca desse negro viver
 – Encontramos os que procuramos
Uma vida para sofrer
 Ou outra de liberdade!

Alberto Cuddel
04/11/2018
22:53
Marvila, Portugal

A vida que não pedi

A vida que não pedi

Nascem-me desilusões do seio materno
Sinto em mim o que não quero
Não pedi e não desejo, sou sem ser
Quero fugir, nascer, viver de novo,
Quero ser mulher, ser amante, ser fogo!

Prendem-me correntes a ontem
Onde estou sem estar e sem viver
Sou sofrimento que em mim carrego
Sou fruto e sede deste outro querer!

Sou vida e paixão, sou força e ilusão
Desse amor que não vivi, não abracei
Não beijei e o perdi…
Quero matar essa saudade
Que não viveu para senti-la…

Perdi-me no tempo
No tempo que não tinha
Hoje com tempo
Ainda assim não me sinto viva…

Quero ser quem nunca fui
Na paz que a vida me traz!

04/11/2018
Alberto Cuddel
Poema a Alguém

Arrancado do son(h)o

Arrancado do son(h)o

Quanto burburinho pelo afogamento do homem no sonho
 – Apenas dormia, atribulado o poeta…

Quanta distância entre o sol e a seta
Nesse acordar do demónio da noite
No último poema, do último poeta
Em montanhas verdes e sombrias!

E mastigam-se sementes da transpiração da palavra
Longo é o sonho das musas, acordo e não o lembro
Nessas palavras subterrâneas irão transparecer segredos
Paixões ocultas nos dedos e todos os medos!

Diz-lhe que vieste, acordado esbofeteado
Pela realidade da noite que te adormece
Desperta e ama antes do sol raiar
Faz-te, gesticula a imaginação
Faz-te verso, sê melodia e canção…

E descem do monte amarelo
Farinha, fome e pão
Adormeces no son(h)o
Vives sem qualquer tesão!

Humedece os teus dedos na língua
Quente, apaixonada, ávida
Acorda e muda a página
Acorda e muda a página
Vive agora!

Alberto Cuddel
04/11/2018
Marvila, Portugal

Reflexão em espelho fosco…

Reflexão em espelho fosco…

Sabes em quantos dias divido o mundo?
Ou qual é a distância entre a madrugada e o crepúsculo?
Quantas as vértebras que arranquei para expor a alma,
Ou a roupa que vesti para esconder a lágrima?
Sabes por ventura o que sofro?
Neste calvário dos sonhos
Onde a realidade não me sorri?
Sabes a dor de um aflito, de um mendigo,
De um pobre de espírito?

Nem eu sei o quanto amei
Mas sei, que muito chorei…
Antes mesmo de dormir…

Alberto Cuddel
03/11/2018
C.R., Portugal

Sono do sonho…

Sono do sonho…

Sabes gostava de adormecer,
Ser levado pela brisa das montanhas
Voar nas costas de um pombo,
Cavalgar livre como um garrano,
Saltitar como um cervo feliz
Nessa liberdade natural,
Vedada por arame farpado…

Gostava de ser coelho,
Perseguido por raposas,
Salvar o grupo em sacrifício
Mas não sabia o que isso era
Esse sacrifício pela perpetuação…

Queria adormecer, como as ervas
Que secas morrem esperando a chuva,
Largando as sementes nos regatos…

Queria-te comigo, mas escolhi
Apenas escolhi, dormir sozinho!

Poemas de insónias
Alberto Cuddel
03/11/2018
C.R.,Portugal

Ladram as gentes que vem cão

Ladram as gentes que vem cão

E os gatos em telhado de zinco
Eu sem dormir até o trinco

Vão e vem as noites pela avenida
Depois do terceiro andar
Ainda ninguém dormia,
Quase meia-noite, antes da noite meia!

Não há sombras na parede
Nem luz que o alumie
Ladra o cão sem gente
A gente rosna a solidão

Sono maldito, insónias do tempo
Nas voltas da madrugada
Neste silêncio de nada
Rezam o terço as beatificadas
Desse rosário de ladainha
 – Estou só, assim sozinha.
 – Tenho frio, junta-te a mim?

E corro ladeira abaixo
Desse tempo sem Constança
Não há luxuria que me valha
Corro, corro, do medo dos canídeos
Portas que batem, luzes que se acendem
Maridos acordados, fumo nos telhados
Ladram as gentes que vem cão,
As cadelas estão no cio…

Alberto Cuddel
03/11/2018
Marvila, Portugal

Arde-me o olhar, chora-me a vida

Arde-me o olhar, chora-me a vida

Ardem-me os dedos
Nesses olhos que choram
Passos perdidos
Confirmação dos teus medos

Nesse ínfimo tempo
Eternidade do sofrimento
Calam-se as estrelas
Caem satélites da noite
E as lágrimas, gélidas

Esse não com sabor acre
Esse renegar do amanhã
 – Matas-me o sonho
Arrancas-me a esperança e a vida…

Apunhalas-me a cada dia em esperanças vãs
Assassino… possuíste-me a alma,
Levaste-a no bolso como premio
(devolve-me a vida, devolve-te)
Pertences-me, devolve-te…

Neste egoísmo sufragado pelos dois
És apenas tudo o que me falta,
Arde-me o olhar, chora-me a vida
Essa que foi por ti consumida…

Alberto Cuddel
03/10/2018
Marvila, Portugal

Divagações da procura da alma gémea…

Divagações da procura da alma gémea…

Jamais te procurarei, por entre os nomes que te deram, [nunca te chamam, eu chamo-te], seja doença ou cuidar ausente, [Um poder maternal, ou entrega de amor], eu chamo-te mulher, talvez até Maria!

Criei-te diferente, sonho crente, sendo, foste, estando, és, [não mãe, ou esposa, talvez amante, talvez amiga], no sentir que sinto, crio-te novamente, como sempre te procurei, em tudo igual, em tudo diferente, um nome, um rosto!

Invento-te, a cada nova conjugação
A cada novo verso, a cada esgano do sentir
Representação perfeita das máscaras
Que de mim invento, que de ti sinto,
Que em mim represento, que sou cá dentro!

A cada nome, uma nova forma de ser
O que efectivamente em ti és… Perfeição, saudade, mesmo aqui, ao alcance da mão!
[mesmo assim sou novo… ou talvez não]
Talvez apenas seja o que sempre fui…
Talvez sejas o que sempre procurei
O que de mim eu encontrei…

Alberto Cuddel
15/11/2018
Castanheira do Ribatejo

https://www.facebook.com/AlbertoCuddel/

Já não te creio fiel…

Já não te creio fiel…

Já não sei de onde te vem o sentir
Que nesse teu fingir roubas-me a liberdade
Nesse conluio fogaz de me reter na vida
Nessa mesquinha forma de amar

Não sei se te amo, desiludes-me
Aliado em tricas mentirosas
Amarrado num querer ser sem ficar
Perdes-me, perder-me-ás…

Atrais-me sem dó pelo teu interesse sórdido
Pela tua vantagem de vida, pelo erro
Apenas quero ser, deixa-me ser
Dá-me a oportunidade de ser comigo…

Enganaram-me, enganaste-me
Aliado a uma forma estranha de amar
Amarram-me por eu me dar
Por não querer ficar, por eu querer ser…

Deixa-me, deixem-me
Libertem-me
Liberta-me
Já não te creio fiel
Nessa mentira que lavras…

Alberto Cuddel
27/10/2018

Sentei-me amanhã chorando o ontem

Sentei-me amanhã chorando o ontem

Nesse passado que nunca aconteceu
Futuro que nunca nasceu e cresceu
Choro calado lágrimas frias
Rosto gasto enterrado nas mãos
Enquanto na minha alma ainda morrias!…

Ó padrasto auguro das esperanças
Ó arvores partidas pelo meio
E veio a geada e o vento, o sol espreita
Nuvens cinzentas cruzam os rios
Há corações de pedra, sorrisos…
Vidas ceifadas pelo ego do homem
Numa felicidade enganadora que professo…

Sentei-me olhei distante o amanhã
Chorei a esperança sangrando
Joelhos e ferida, pés descalços
Cobertores húmidos e rasgados
Jornais com notícias atrasadas
Voam, voam, sem destino
Já sem esperança no olhar…

Sentei-me amanhã chorando o ontem
Antes que o hoje me arreganhe o peito
Antes que de desnude a alma
Que na transparência me abraces
Olhando o íntimo do teu medo!

Alberto Cuddel
23/10/2018
Marvila. Portugal

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