Poema do dia 30/09/2018

Poema do dia 30/09/2018

Amo-te o tempo todo e todo o tempo amo-te
E isso não me desassossega!

Quantas vezes os nossos olhos gritam silenciosamente
Nessa troca de olhares
Quantas vezes se unem nossos lábios por essa vontade de gritar!

Quantas vezes parto com essa vontade de ficar
Quantas vezes vou com a vontade de chegar!

Amo-te o tempo todo e todo o tempo amo-te
E isso não me desassossega!

Desassossega-me esse desejo de estar sem tempo
Nessa vontade régia de te desejar, todo o tempo!

O tempo, esse em que se unem as mãos juntas
Em que unimos os passos, em que falamos horas
Também em silêncio!
No tempo em que o mundo conspira sem saber!

Amo-te o tempo todo e todo o tempo amo-te
E isso não me desassossega!

Alberto Cuddel
30/09/2018
Castanheira do Ribatejo, Portugal

Um poema a escrever

Um poema a escrever

Tenho um poema a escrever,
Mas não encontro esse querer,
Essa outra vontade de o fazer,
Em que palavra o irei beber?

Onde, te encontras inspiração,
Fingindo querer por antecipação,
Faltam-me as palavras,
Aquelas de ontem,
Onde navegam os adjectivos,
Os superlativos,
Os diminutivos,
Os sujeitos,
Os que procuram,
Os predicados,
Os verbos danados,
E eu?
Cansado de procurar…
Onde andas visão,
Sentir, superação?
Exausto em mim,
Largo soltas,
As teclas por fim!

Alberto Cuddel

Poema do dia 29/09/2018

Poema do dia 29/09/2018

Dá-se o poeta
Assim morre
Lenta e gratuitamente,
Na dádiva ser,
Dando-se em cada palavra,
Em cada sentimento,
A cada acto, cada descrição,
Cada amor, cada paixão,
Cada visão, cada desilusão,
Vai morrendo, distribuindo seu ser…
Passando a viver em cada leitor,
Em cada ser com quem partilha,
A sua visão num acto de amor…

Assim vive o poeta,
Não pelo homem que o transporta,
Mas pelas palavras que debita,
Num outro olhar,
Num outro sentir,
Num outro ouvir,
Num atco de AMAR!

Alberto Cuddel
29/09/2018
Alenquer, Portugal

Rua acima rua abaixo,

Rua acima rua abaixo,

Calçada portuguesa já gasta,
Em si a memória, do arrastar,
Movimento coxo do ardina,
Rua acima, rua abaixo apregoar,
Notícias fresquinhas da alta casta,
Ou os tamancos da nobre varina,
Com peixe fresquinho da lota,
Ai a saudade, dessa altura remota,
Onde cheia estava a rua,
De gente apresada,
Era o salto da alta-costura, o chinelo da criada,
Pé descalço do pedinte,
A pressa do contribuinte,
O carteiro, o pedreiro,
O caixeiro-viajante,
Rua outrora cheia de gente!

Hoje,
Calçada vazia,
Lojas fechadas,
Assim desprovida,
Do brilho das fachadas!

Apenas eu…
Serpenteando os desenhos,
Desta nobre calçada,
Subindo ou descendo,
Uma rua abandonada!

Alberto Cuddel

A ti leitor incógnito

A ti leitor incógnito…

A única forma que tenho de te conhecer é não saber quem és, fazendo-te sonhar novos sonhos na imaginação de palavras que não são tuas, para sentir novas sensações terás que as sonhar a partir de uma alma nova contruída sob absolutamente nada do que conheço. Inventem amores que separem as águas, que trespassem oceanos de lagrimas, mas leiam-me em silêncio, chorem copiosamente sob o sol abrasador do Verão debaixo de uma árvore que nunca nasceu. Leiam-me, perscrutem-me a alma, adivinhem-me, num exercício puro de adivinhação e leitura da sina, no final apenas encontrarão a vossa própria vida segundo o vosso sofrimento de causa.
Não é nos largos campos ou jardins que vemos chegar a Primavera, é no ar, no voo dos pássaros, nos rios as águas do degelo, na alma, o calor das palavras frias escritas a negro sob folhas amarelecidas pelo Inverno. A ti leitor incógnito apenas te ofereço a mais exacta noção de me conheceres, ilusoriamente sob o conhecimento do julgamento que fazes segundo o teu viver! A poesia é coisa impropria para quem a alma deixou de sonhar, por que a poesia é sonho, e sonho é a essência exacta da vida. “O homem sonha, a obra nasce e o futuro acontece, segundo o que fora previsto”.

Alberto Cuddel
29/09/2018
Algures na casa onde habitualmente moro, mesmo ao lado da casa da vizinha!

Olha que dois

Olha que dois
28/09/2018

Foi com enorme prazer que fui ao encontro de alguém que admiro enquanto poeta e ser humano, passando de uma amizade virtual a uma amizade real. Foram duas horas magnificamente passadas, em que a conversa fluiu por variadíssimos temas numa sintonia excelente, foi um enorme prazer e honra conhecer-te e abraçar-te, muito bem hajas por este pequeno mas tão grande momento! Um grande abraço amigo Jorge Pincoruja

Poema do dia 28/09/2018

Poema do dia 28/09/2018

Faltam-me árvores concretas
Das que concretamente fazem sombra
Antes que o sol me aqueça
Concretamente antes da tarde!

Mesmo que depois disso seja apenas vida
Numa sede raivosa, onde raivosamente me falta
O tempo que chegue sem ter partido
Numa chegada anunciada pela noite!

Vieram os sonhos e os gestos
A concretização dos concretos
Dos que ficaram nos lábios
E dos que caíram no chão!

Nesta sede que me aniquila
Um projecto de depois
Antes que seja excomungado
Fico sem nunca ter chegado!

Bebemos nos lábios cheios
Em peitos fartos e redondos
Borboletas esguias e carnudas
Nesse bailado que muda o mundo!

Espero-te como quem chega
Onde tudo é novo mesmo trocado
Calçada preta e branca, limpa
Passo lento, grisalho e azarado

Sob o sol que me baralha
Faltam-me árvores concretas
Das que concretamente fazem sombra
Antes que o sol me aqueça
Concretamente antes da tarde!

Depois?
Depois cheguei, chegaste
Depois amei-te, amaste…
Concretamente…

Alberto Cuddel
28/09/2018
Alverca, Portugal

Primeiro…

Primeiro…

Novo desafio nova dor
Mais um poema, outra vez amor?
Estou só, sozinho com o computador…

São frases, palavras, imagens, situações,
A lagoa, o som da poesia, a lua, o sol,
Poemas e versos aos trambolhões,
Poemas por encomenda, um rol,
Mas escrevo, assim, sem pensar,
Na continuidade do apenas teclar,
Alguma coisa vai sair
Um poema mais acabar,
Sigo pensando como irá este findar,
Na firme convicção que escrevo assim,
Esperando apenas a este dar fim!

Alberto Cuddel

Poema do dia 27/09/2018

Poema do dia 27/09/2018

Afinal, a melhor maneira de amar-te é sentir-te.
Sentir-te de todas as maneiras, de todas as formas
Sentir-te excessivamente, compulsivamente
Porque a vida é em verdade excessiva
Toda a realidade do sentir é um excesso,
Uma violência, aliciada de sentir o sangue fluir
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Como nítido é o amor palpável ali, diante dos olhos.
Esse em que vivemos com a fúria das almas,
Tu, nós, o centro para onde confluem as estranhas forças centrífugas
Nesse excesso que nos concede a mente humana
No despertar de todos os sentidos e sinapses.

Quanto mais eu sinto,
Quanto mais eu amo,
Como se te amasse em vários homens, várias almas,
Quanto mais personalidades eu tiver, e separar de mim
Quanto mais intensamente, estridentemente, excessivamente
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Mais unificadamente amo como um todo de pequenas partes
Mais serei uno, como se todo o tempo existisse ali,
Nessa confluência do tempo e do espaço, onde o divino nos habita
Como um só corpo nessa evidência de beijo.
Intrínseca com o meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria, como se fosse meu.
Sentindo-te em mim, sentindo-me em ti, tão intensamente
Tão exageradamente que não pode ser mais nada
Para além de sentir-te e amar-te como parte de mim!

Alberto Cuddel
27/09/2018
Lisboa, Portugal

Faltas-me…

Faltas-me…

Percorro o teclado, suavidade na pele
Dedos que se movem na agilidade
Faltas-me…
Entre a suavidade das notas
A busca de ti,
Nesta pressa clamante de te ter
Uma após a outra, num crescendo
Melodia do andamento…
Faltas-me…
Nessa batuta que me comanda
Percorro o teu corpo
Meu corpo
Em busca da nota perfeita
Dessa nota, o culminar do êxtase
Faltas-me
Aqui, agora,
Neste dedilhado que me enlouquece
Percorro cada nota
Sintonia perfeita do corpo
Nesse aumento desenfreado
No acariciamento das notas, das teclas
Faltas-me…
Mestre nesta sinfonia de quatro mãos
Fusão dos corpos, corpo e instrumento
Um só, até ao supremo deleite…
Faltas-me…
Nessa batuta que me guia…

Tiago Paixão
27/09/2018

Morte do dia,

Morte do dia,

Assim vão desfilando os minutos,
Num velório anunciado, morreu,
Mais um dia nasceu, cresceu,
E finou-se, assim sem anúncio,
Sem honra de abertura de jornal,
São assaltos, assassinatos, roubos,
Impostos, corrupção, mas e o dia afinal?
Nada nem um rodapé, assim esquecido,
Mas que dia incompreendido este,
Que morte tão desolada,
Morreu, não é lembrada,
Apenas a noite, essa sim acarinhada,
Apenas a criançada um pouco contrariada,
Por chegar a hora da cama, não acha piada!

Mas também a noite nascida,
Com tudo onde esta prometida,
Irá crescer, cobrir com seu manto,
O amante mais incauto,
Cumprir promessas feitas,
Trazer lágrimas às desfeitas,
E aos primeiros raios,
Também ela morrerá,
Não já, não hoje, mas amanhã!

Alberto Cuddel

Poema do dia 26/09/2018

Poema do dia 26/09/2018

Deixei que as tábuas
suportassem o peso
dos nossos corpos,
nessas almas que voam
corpos que se olham
firmados no tempo e espaço
imoveis no beijo, amor!

Como aves no céu, bailado sincronizado, canas que se vergam ao vento, almas que se complementam, que se regeneram, nessa liberdade em que se somam sem subtracção! Corrente geminada de um ribeiro, moinho que se move no vento, ponte que nos une as duas margens do rio, estrelas em noite escura!

Deixei que as tábuas
suportassem o peso
dos nossos corpos,
nessas almas que voam
corpos que se olham
firmados no tempo e espaço
imoveis no beijo, amor!

Amo contigo o amor em que tu me pensas, nesse em que me deseja e te desejo, amo a liberdade dos espíritos inconformados com o hoje, que se apaixonam a cada madrugada, para se amarem à noite. Entre nós, porque há em nós o pensamento, sem gastarmos o tempo e desejo de o ter, porque pensamos em beber de nós o intento entornado, néctar puro, nesse amor de fim de tarde.

Deixei que as tábuas
suportassem o peso
dos nossos corpos,
nessas almas que voam
corpos que se olham
firmados no tempo e espaço
imoveis no beijo, amor!

O que há de sol é o que resta do dia, nesta poesia baça em que o sonho me arde, só nos resta a saudade os céus acima, neste voo subtil, amando-nos enquanto o sol solidariamente se deita!

Alberto Cuddel
26/09/2018
Lisboa, Portugal

Acordei cedo!

Acordei cedo!

Sim acordei muito cedo,
Um lento despertar,
E fiquei, suspenso no tempo,
Com tempo para apenas te olhar!

Assim dormindo, na calma do sono,
Como um anjo, num sono profundo,
Fico olhando teu sono, velando,
Lembrando a cada dia, cada beijo,
Cada palavra, cada discussão, cada desejo,
Dias e dias de construção do sentir,
Sonhos, vontades, prazeres que estão pior vir!

Acordei cedo, mas por ser cedo,
Deixei-te dormir!

Alberto Cuddel

Poema do dia 25/09/2018

Poema do dia 25/09/2018

… desejo-te, como quem deseja água no deserto, como quem deseja terra firme em alto mar, ainda assim, não apenas no agora, mas num eterno ficar…

Desejo-te o corpo e os beijos, não o nego
Desejo-te bem mais que apenas num orgasmo,
Desejo-te no antes, no durante, no depois,
Desejo-te no espaço de tempo em que olhamos o tecto,
Nessa desaceleração do musculo cardíaco,
Onde o corpo consome as enzinas, as proteínas,
Nessa libertação de hormonas que nos explode…
Desejo-te nessa calma do depois, nesse abraço,
Na escuta, no movimento lento dos dedos no teu cabelo…
Nesse adormecer no sorriso…

… desejo-te, como quem deseja água no deserto, como quem deseja terra firme em alto mar, ainda assim, não apenas no agora, mas num eterno ficar…

Desejo-te, nesse despontar da manhã
Na iluminação do rosto, no perfume da pele
Na pressa de novo dia, no perfume do café
Desejo-te no beijo do depois, nesse até logo
Desejo-te nessa certeza do regresso,
Nessa esperança sem verso,
Em cada palavra, em cada gesto…

… desejo-te, como quem deseja água no deserto, como quem deseja terra firme em alto mar, ainda assim, não apenas no agora, mas num eterno ficar…

Desejo-te até mesmo nos teus silêncios,
No teu espaço, nesse olhar de mulher…
Desejo-te, não pela falta,
Mas pelo somos
Os dois, juntos,
Onde nos somamos, sem nos anularmos…

… desejo-te, como quem deseja água no deserto, como quem deseja terra firme em alto mar, ainda assim, não apenas no agora, mas num eterno ficar…

Alberto Cuddel
25/09/2018
Lisboa, Portugal

O tempo!

O tempo!

Lá fora o vento…
Ruas varridas à sua passagem
Tudo revolto, torcido e arrancado
E eu aqui no conforto do meu recato!

La fora a chuva…
Gotas grossas embatem compassadas na vidraça
Um a pós outra lavando o pó acumulado na alma
E eu aqui sentado vendo chover com toda acalma!

Lá fora o sol…
Raios de luz me entram pela janela,
O calor que faz desabrochar as flores,
E eu aqui pensando nos meu amores!

Todo tempo vi lá fora…
Sem que saísse de meu quarto,
Sem que vivesse o tempo
O tempo!…

Cíclico, compassado, perdido,
Tenho perdido o tempo
No conforto do meu ser…
Assim, sem arriscar, sem viver!

Alberto Cuddel

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