Poema do dia 23/08/2018

Poema do dia 23/08/2018

“Nessa violência a que condenam os vagos da uva a ser euforia na vida, crescem risos e sorrisos em socalcos dos montes ou planícies quentes, os pés antes que tropecem calcam, como quem pisa a morte numa cadência desesperada…”

Arrastam-se vidas em desespero pelas ruas,
Tristezas contidas numa garrafa,
E tudo, absolutamente tudo esquecido…

Ó bago da felicidade eufórica
Comemorações de cristal afagado
Alimentado e bebido, doce, quente adamado…

Douram-se as folhas no mosto
Escrita vingada em paixões de Agosto,
Que seja doce e fermentado
Sumo da vide e sangue da terra…

Pecado e salvação de uma nobre saudade
Historia escrita com verdade
Em pés que sangram e se arrastam…

“Nessa violência a que condenam os vagos da uva a ser euforia na vida, crescem risos e sorrisos em socalcos dos montes ou planícies quentes, os pés antes que tropecem calcam, como quem pisa a morte numa cadência desesperada…”

Alberto Cuddel
23/08/2018
11:50

Tenho Para Mim

Tenho Para Mim

Tenho para mim que os pássaros são anjos a quem roubaram a capacidade de voar, e que as cidades dormem longe, num outro qualquer lugar…

Tenho para mim que os rios não correm, mas tem pressa de chegar, não pela beleza do mar, mas para as suas águas salgar…

Tenho para mim que amar, não é um verbo, mas uma forma de ensinar, que o bom da vida não é receber, mas sim o poder dar…

Tenho para mim ideias, e não tenho com quem as partilhar, escrevo-as soltas na corrente, aos trambolhões por quem as quiser assimilar…

Tenho para mim, tudo o que de mim puder escrevinhar, o resto são fantasias, que sonho ao me deitar…

Tenho para mim que é noite, depois do dia findar, e sei que por ti, por aí vais andar…

Alberto Cuddel
Numa queda sem rede…
22/08/2018
23:26
#numaquedasemrede

Poema do dia 22/08/2018

Poema do dia 22/08/2018

Insustentável leveza do pensamento
Levado e contorcido ao sabor do vento
Calam-se sonhos nos regatos que correm
Pés lavados na crença que sofrem!

Esvoaçam brilhantes as promessas de beijos fingidos no peito e soltos na alma, como flores adormecidas em prados orvalhados, navegam soltas as nuvens brancas embaladas pelo reflexo das águas que corre distante nos ribeiros dos dias. Na copa das árvores nidificamos, como ninhos que nos abraçam o peito, moramos lá, sem grades, presos um no outro…

Insustentável leveza do pensamento
Levado e contorcido ao sabor do vento
Calam-se sonhos nos regatos que correm
Pés lavados na crença que sofrem!

Embrulhei-me nas cartas e nas letras que te chegavam em sacolas, transportei-me nas frases e versos que arranquei do ventre, gravado a negro em brancas folhas fui o que sou vagueando nos sonhos de ser ave, ser nuvem, possuir-te o espirito livremente entregue sem os contractos dos homens…

Insustentável leveza do pensamento
Levado e contorcido ao sabor do vento
Calam-se sonhos nos regatos que correm
Pés lavados na crença que sofrem!

Embrenhei-me terra adentro, na essência de me fazer nascer, nesses caminhos de fé e esperança, apenas para me fazer florir poema e se colhido… não me quero fazer bolor húmido que come o tempo em folhas amarelecidas e esquecidas na estante, quero se vida, quero ser erva, animal do bosque, e formiga, arrecadar e dar, colher e viver, escrever, declamar ao vento a quem escutar…

Insustentável leveza do pensamento
Levado e contorcido ao sabor do vento
Calam-se sonhos nos regatos que correm
Pés lavados na crença que sofrem!

Grito a cada parto, no pranto de uma rima, da dor nasce o poema, do amor a poesia…

Alberto Cuddel
22/08/2018
09:50

Sinal de partida

Sinal de partida.

Tinham passado pouco mais de cinco horas, desde o “sim”, um sim definitivo, mas com todas as fotos e festa ainda não tinha tido tempo para pensar, “até que a morte os separe”, essa definição agora assusta-me.
Aqui agora à espera, nesta sala, não consigo estar sentado, as paredes parecem-me anos, enclausurado por estes azulejos antigos de arremate verde, iremos terminar assim? Aparentemente gastos e desgastados? Tenho dificuldade em olhar-te, mesmo assim, o olhar não foge desse teu ar inocente e incrédulo, sentada nesse banco desta velha estação enquanto esperamos o resto da nossa vida.
Finalmente és minha, e agora? Como fomos capazes deste passo sem pensar o amanhã? Talvez o tivéssemos pensado até demais, não como sonho, mas com a maturidade que ainda não temos…
– Ainda demora muito?
– Não, julgo que não, mais uns dez minutos.
– Porque não te sentas? Estás nervoso? Eu é que devia estar, o normal seria eu estar, não tu.
– Tens razão. Mas não é “esse” o nervosismo, sabes bem que não é por isso. Apesar de tudo nesse aspecto temos um mundo a descobrir e todo o tempo do mundo para o fazer.
– Então? Que se passa?
– Estás ciente do que temos aí nessa mala?
– Ah, isso, realmente tens razão, mas acho que estas a desculpar-te, tens algo mais a preocupar-te, já te conheço.
Realmente, não era apenas isso, o dinheiro que os convidados tinham dado como prenda, ou nem sequer era isso, era tudo, não se casa todos os dias, e agora? Eu que nunca fui responsável por ninguém, a partir de hoje tenho alguém que efectivamente e afectivamente depende de mim. Tinha sido fácil o ter dado o passo seguinte, o ter avançado para o pedido de casamento, todos os planos durante o noivado, mas agora, a vida começava efectivamente e sem rede.
– Júlia.
– Sim.
– Tens razão, estou nervoso, toda a nossa vida começa hoje, e não posso deixar de ter medo.
– Eu sei, mas nunca te esqueças, eu também disse sim livremente, e estarei sempre ao teu lado, em tudo.
– Sim, claro que sim, mas tenho um friozinho no estômago, tenho medo de te desiludir.
– Ainda bem que o tens, mas como sempre fizemos, tudo podemos um com o outro, em todas as nossas decisões. Não tenhas medo, basta que nos amemos, eduquemos mutuamente…
Um silvo, o comboio aproxima-se e começa a viagem do resto da nossa vida, com paragens e avanços, até que um de nós se apeie, por um qualquer imprevisto da vida!

Alberto Cuddel
14/06/2017

Foto de Antonio Mbfeijó

Poema do dia 21/08/2018

Poema do dia 21/08/2018

Eu vou levar-te nas asas do sonho
Correndo caminhos verdes e ramos,
Transpondo montes e vales, subindo,
Voando nas madrugadas e leitos!

Chegou rasgando abobada celeste, absorvendo as estrelas, pintando de azul o arco do céu, nessas assas que te cruzam, pairam e abusam, levam distante o olhar, onde sempre me posso perder e sonhar. Abrem-se portas e janelas do amanhã, dormindo e acordando no já, esperança que renasce da morte do incerto, tu tão longe, desse desejo de te ter por perto, não sonho certo, nem medo incerto, entre vinhedos dourados e espigas de trigo, quero-te na vida, alimento, sempre comigo!

Eu vou levar-te nas asas do sonho
Correndo caminhos verdes e ramos,
Transpondo montes e vales, subindo,
Voando nas madrugadas e leitos!

Que exploda no meu peito o miocárdio, nesta gaiola que me enjaula a vida, procurando palavras e por ti, onde sempre te encontrei, e nunca te perdi… nas noites em que te procurei, nos rostos de ninguém…

Eu vou levar-te nas asas do sonho
Correndo caminhos verdes e ramos,
Transpondo montes e vales, subindo,
Voando nas madrugadas e leitos!

Alberto Cuddel
21/08/2018

Poema do dia 20/08/2018

Poema do dia 20/08/2018

Corre o vento pela vida
Escorrem gotas dos beirais
Nada fica, tudo vai, muda
Apaga-se a chama nos castiçais!

Rodam horas e o tempo
Senhor absoluto da vida,
Neste tempo que nem comento
Chega a hora da partida!

O que foi não será mais
O perdão que sacrificais
Não olha o céu infinito
O que foi, já está escrito!

Alberto Cuddel

Poema do dia 19/08/2018

Poema do dia 19/08/2018

Nascem versos dos silêncios da alma,
Corações que se abraçam na calma,
Uma leitura desfolhada…
Na esperança de ser tudo
A poesia é em si sempre nada…

Alberto Cuddel

Alberto Cuddel

Exercício poético IV

Exercício poético IV

“Faz da minha pele o teu calor,
Que já de mim, teu corpo embrulha.
Quente como brasa – Essa fagulha…
Queima em sentir teu néctar incolor.”

luan kleyton

Desço de mim pelo sangue fervente,
Poente sentir, abandonado dormente,
Almas que pela manhã anoitecem,
Lágrimas caídas em si só arrefecem,
Descontextualizo cada virgula escrita,
Cada palavra gemida em si prescrita,
Calo palavras vãs, onde no olhar me cego,
De nada me aproveita se tudo esqueço,
No engano serrano, nada de ti conheço,
Se de mim conheço, tudo escrevo, nada nego,
Perco-me das rosas, com que perde a alma,
Labirinto do sentir, das ideias sem saída,
Perdido na morte, perdido na tua vida,
Caio sobre folhas mortas, espero calma,
No mundo cinzento onde me deito,
Não me atrevo por sonhos diversos.
Em busca do teu corpo perfeito,
Inscrito na arrogância dos meus versos!

Olha-me os olhos, vê o que não vejo
Alma cansada, abrasadoramente dormente…
No meu corpo, definha de ti no desejo,
Cala-me a voz, e o sonho que hoje ainda mente!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi – 70

Poema do dia 18/08/2018

Poema do dia 18/08/2018

Procurava silêncios numa sala vazia,
Apenas uma cadeira, uma porta, uma janela fechada,
E esse grito pensante do meu cérebro…
Apenas queria silêncio… e não havia…

Procurei silêncios entre a maresia,
Procurei silêncios nos teus abraços,
Procurei silêncios até onde não podia,
Procurei-me adormecido nos teus braços!

Cavalguei a noite, num Pégaso de luar
No silêncio dos cascos, o som da rua
Vinho, putas e má vida… O apito
Esse repetitivo do camião do lixo…
Do silencio nem sinal, não havia…

Procurei silencio no cima da serra
Grilos, cigarras, mochos e cadela
Que barulho fazia ela…
Adormeci…
Nos sonhos gritei pelo som…
Silenciosamente ninguém me escutava…
Eu dormia, ela apenas me estudava…

Procurava silêncios numa sala vazia,
Apenas uma cadeira, uma porta, uma janela fechada,
E esse grito pensante do meu cérebro…
Apenas queria silêncio… e não havia…
E o meu pensamento tão vazio de nada
Nem a dormir ele se calava…

Alberto Cuddel
18/08/2018

Poema do dia 17/08/2018

Poema do dia 17/08/2018

Eram sete, sete os dias,
Sete na esquina
Com a fome que fazia…

Sete as estrelas e os pecados mortais
Sete as pontas, sete também os castiçais…

Sete as dores e as ave-marias
Sete ao molho e que não sabias…

Eram sete vezes as vezes a perdoar
Seriam sete as que ficaram por dar…

Sete dias depois, quinta-feira
Sete e uma carta, sete e um beijo
Sete dias de chuva e o sol na peneira
Sete dia e o culminar do desejo!

Sete em volta de mim
E sete os anões por fim…

Sete pontas
Sete estrelas
Sete pontes
Sete vesgas
Sete seria
Sete é
Sete foi
Onde estou de pé…

Alberto Cuddel
17/08/2018

Poema do dia 16/08/2018

 

Poema do dia 16/08/2018

Há quem não compreenda a prisão dentro de nós mesmos!
 – A dor de estar sozinho no meio da multidão…

Dói-me a imensidão das coisas e o vazio de mim mesmo,
Esta fúria do cansaço, esta dor que é arrastar-me nos dias…
Quero gritar no silêncio, arrancar dentro de mim a cobardia…

Condeno-me à infelicidade das horas,
Querendo o que nunca terei, sonho
Resta-me aceitar a monotonia da vida
Arrastar-me até à morte, nesta ilusão,
Quadro perfeito desenhado a carvão…

Doí-me a saudade do que um dia imaginei…

Alberto Cuddel
16/08/2018

Fim do Dia!

Fim do Dia!

Descalços sentados no chão do nosso viver,
Redesenhamos o prazer do nosso querer,
Sorvendo largos tragos do nosso diálogo,
Convertendo divergências em comunhão,
Na purga da tensão do nosso longo dia,
Luz da decisão, de ser novos, assumida!

Assim nos entregamos em laivos de paixão,
Noite que promete o reacender da emoção,
Vontades fervilhantes, desejos de antes,
Roupa espalhada, corpos, licoroso sentir,
Tempo, esse nosso tempo sem fim,
Momento, caricias, pele avida de caricias,
Mãos loucamente comprometidas,
Rodopiantes, quentes, em louca corrida,
Mel de nosso lábios, palavras caladas no olhar,
Louco movimento poético, vagarosamente declamado,
Ora apresado, gemido prazerosamente gritado,
Orfeu musicado, corpos suados, caídos, extenuados,
Entregues a paralisia da imobilidade…
Movimentando-se apenas no olhar…
Assim abraçados no nada que os compõe,
Se dão um ao outro, num tudo, amor que não se impõe!…

Alberto Cuddel

Entrevista

Entrevista em 2017 Rádio Quinta do Conde

Poema do dia 15/08/2018

Poema do dia 15/08/2018

Declamei poesia nos teus silêncios

Versos repletos de lágrimas e sal!

Contei os dias até perder a conta

Nesse mar que calo ao te lembrar

Longos são os dias, e a memória

O ver nascer do sol e nossa historia…

Gravada no meu peito a última batida

Ultimo abraço, a saudade e a despedida…

És em mim vida e sabedoria, educação

Amor permanente de uma pura devoção

És cravos e rosas que adormecem

Silêncios, cera e perfume que permanece…

És a palavra nascente, o pão amassado

O cheiro da lenha, o crespo das mãos

És o silêncio das estrelas e o luar quente

O grito dos grilos que embala a gente…

Declamei poesia nos teus silêncios

Versos repletos de lágrimas e sal!

E a saudade gritou, silenciosamente

Dentro do peito, e o mundo indiferente…

(silêncio)

Escrevendo poemas, chorando só…

Alberto Cuddel

15/08/2018

Embalo das palavras!

Embalo das palavras!

Nas imaginarias palavras que escrevo,
Onde te deixas embalar no longo sonho,
Nas noites de amor, na parca solidão,
Na saudade, na tristeza, na louca paixão,
No abandono dos sem-abrigo,
Na fome encoberta nos lares alheios,
Nas chagas do pés do pobre mendigo,
Nos tristes olhos de lagrimas cheios,
São as preces a Deus de joelhos no chão,
Orações de louvor, pelo sim ou pelo não,
São as noites de loucura navegando em ti,
Nos mares de lençóis amarotados deixados ali,
Na erva molhada sobe os pés descalços,
O cheiro das flores, as pedras e percalços,
O cheiro do mar, areia molhada,
O silencio das palavras sem dizer nada,
O olhar de ternura que tudo diz,
A candura do avô olhando o petiz!

E ficas assim, lendo e relendo palavras,
Que pela mão do poeta nascem,
Queles com prazer e te fazem sonhar,
Que te levam no sonho de não só estar!

Adormeces no embalo do verdadeiro fingir,
Fingindo sentir o que na realidade sente,
Escrevendo sozinho para um mar de gente!

Alberto Cuddel

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