Poema do dia 24/06/2018

Poema do dia 24/06/2018

Na encruzilhada da vida desistimos todos os dias…
Nesta esquerda que é dia
Numa direita escura e sombria
Ou parados num banco de jardim
Rasa terra lapidar…

Carregamos pedras e cruzes, de sorriso na fronte
Há balas perdidas e obuses, disparados do monte
E gente de capuzes, que dispara não sei de onde…

Depois exaustos e cansados,
Deixamos cair os braços,
E esperamos o tempo passar
Que já não estamos para nos cansar…

Alberto Cuddel
24/06/2018

Onde nasci

Onde nasci 

Martelando-me os ouvidos segue o compasso, velocidade constante, lá vai o comboio, o que me trás, que ontem me levou, e lá vai ele serpenteando as curvas do rio, prateando o que é de ouro, no reflexo do sol da manhã. Rio Douro, corres antes que me leve. No apeadeiro curvado à direita, ninguém, hoje apenas as ervas secas se erguem à minha chegada, ontem cheio de vida de gentes, de vozes, risos das crianças, o meu riso, e a vontade de correr os 20 metros que me separam do rio, apenas para olhar o horizonte e sonhar. A viagem, subia ao meu íntimo adivinha-se longa, eu comungava silenciosamente comigo nestas memórias, como se a cada passo, sentisse os cheiros, do pão acabado de cozer, do mosto no lagar, da lenha queimada. Os sons do campo, das ervas, dos bichos, dos homens e mulheres da lavoura. Os sabores, da fruta madura, das uvas, das castanhas, dos fumeiros do inverno, da cevada com broa acabada de fazer. Ao longe o sino da igreja que ecoa no vale, o caminho de terra batida pelejado de pedras que serpenteia o monte, escadas e “escaleiras” que fazem transpor os socalcos, de uma vinha deitada ao abandono. De entre todos os lugares da freguesia, a Granja, lugar onde nasci, mas é entre Barreiros e Portinha, entre a paternidade e a maternidade, que as memórias do caminho, da infância, fazem-me ser quem sou! Mesmo avistando a terra neste cantinho plantado, tu Tomé, não acreditastes, tiveste que ver as suas mãos trespassadas, e meter a mão no seu lado para que acreditasses. Santo padroeiro de gente crente, de gente de fé, e as memórias, da catequese nas “escaleiras”, da “casa do padre”, da água da fonte, de ver nascer o sol no campo pela mão da minha avó. Esta não é a minha terra, esta é a terra em que nasci, é a terra que me fez, esta terra também sou eu. Memórias da minha infância, São Tomé de Covelas, Baião.

Alberto Cuddel
Oh! Minha terra, onde eu nasci…- MP edições- 2017 – ISBN 978-989-691-590-2

Poema do Dia 23/06/2018

Poema do Dia 23/06/2018

Soubessem eles o valor do tempo
E não te arrancavam de mim
Soubessem eles o nosso tempo
E te deixariam ficar assim….

Neste tempo perdido encontrado em mãos vazias, por onde nos escorre a areia dos dedos?
Relva orvalhada em leito fino, desenhando nas nuvens o futuro, quem nos falou das trovoadas? Tempo seco pardacento, dilacerando por dentro, o tempo que corre em manada, em dias silvestres…

Soubessem eles o nosso tempo
E não te arrancavam de mim
Soubessem eles o nosso tempo
Nesta estupida permanência do sim…

Alberto Cuddel
23/06/2018
10:30

Amar e porque não?

Amar e porque não?

Para amar, não é preciso estar
Ter, sentir ou possuir, basta ser!

Não há outra forma de amar
Que não seja apenas amando
Mesmo que as flores sequem
Ali ficará a semente
Um dia germinará
Quando tocada pelo sentir
Amo porque assim decidi
Que não existe outra forma de vida…

Não procures reciprocidade na doação
No amor apenas existe a plena doação
Um tudo ou nada altruísta,
Amar assim é também sofrer
Amar e porque não?
Se amar é a melhor forma de viver!

Alberto Cuddel
Pérolas de Poesia – Miká Penha edições- 2017 -ISBN 978-989-961-679-4

Poema do dia 22/06/2018

Poema do dia 22/06/2018

Crescem as palavras na escrita contínua, luas cruzam os céus sob a neblina matinal, o sol que espreita no varal, -poético quadro, rimas esquecidas, uma rosa oferecida, o despertar no teu abraço, esquecido de sonhar, (saudade)! Estrelas saltitantes teu doce olhar, o ruído do padeiro- pão quente, quente, corre, corre! Não há chuva, um nada de vento, corre, corre, pequeno almoço para dentro, o branco do tecto, que me prende na cama, o abraço desfeito pela pessoa que ama…

Manhã, apenas mais uma manhã, Igual a ontem, igual à do amanhã, já despachado a porta bateu, junta-me a mim, aqui como eu, abraço-me em ti, abraço dormente, ilusão do ser, talvez sonhado… Não vou trabalhar talvez por doente, preguiça de mim, entregue por fim, talvez dormindo por não ter acordado, sequer estar deitado, da noite? Talvez só sonhado!

Caem violetas azuis
Nos dias seguintes
Não há nada a fazer
Triste sina a do crer!

A vida corre torta
Por estradas direitas
Pro muitas coisas más
E outras bem-feitas!

Ergue-se o sol, por entre as árvores caídas, não há sina, que me condene, nem vida que me defina… apenas as horas, umas depois das outras, descontando tempo para um fim!

Alberto Cuddel
22/06/2018
18:15

Pérolas de poesia

Pérolas de poesia

Por entre os ferimentos das estrofes
Já cicatrizam calcificando a beleza
Mentes abertas em rimas limítrofes
Na poesia também cabe a tristeza!

Sopro de vida no amor produzido
Luares distantes em sonhos de vida
Semblante alado belo apaixonado
Lágrimas que rolam em cada partida!

Amor que se renova a cada contradição
Na madrugada dos dias, força do querer
A vida na crista das marés, reconciliação!

Nos passos pesados, cruzes que carregas
Firme caminho traçado, sentir que é viver
Alívio dos fardos, nas múltiplas entregas!

Alberto Cuddel
Pérolas de Poesia – Miká Penha edições- 2017 -ISBN 978-989-961-679-4

Poema do dia 21/06/2018

Poema do dia 21/06/2018

Nas majestosas formas paralelepipedas que piso, entre o negro dos dias e a alvura da noite, percorro as vielas da vida, contornando sombras, sob varandas pelejadas de sardinheiras violetas de veludo, e mulheres que apupam diante da forma máscula que caminha…

Não há nada a ver vizinha,
Apenas um ser que caminha,
– Vem cá vem, ver como ninguém
O que sou e fazia, enquanto há vida!

Nos jardins, bancos vazios e jornais abandonados, há amores-perfeitos no canteiro do lado, há vidas esquecidas quando o atravessam, numa diagonal perfeita esquecendo a sorte… declamo poemas vazios do palanque do centro, escutam os carros e montras da periferia, o poeta, os poetas, não vivem… morrem para serem lembrados…

“Alma Gentil que partiste,”
Depois de tão maltratado,
Não há povo mal-agradecido,
Apenas um modo de ser invejado…

Percorro vielas abertas e becos com saída… avenidas estreitas e linhas direitas, os poemas, esses talvez se fechem na redundância das estrofes… para uma dissecação linguística sob a luz do vosso ser…

Alberto Cuddel
21/06/2018
14:30

Antologia

Antologia

Nesta longa enciclopédia de poemas
Colhamos flores… dramaticamente
Desfolhamos as letras pretas
Impressas em brancas páginas
Poemas, janelas da alma abertas ao mundo
Ou jaulas onde se encerra o poeta
Numa fuga ao quotidiano visto pelo olhar!

Desdobramo-nos na leitura
Imaginária do diferente
Olhando e escrevendo a rosa,
Prendendo o perfume em letras redondas
Escrevendo a sangue os seus espinhos
Cravados no peito traído
Rosa essa, sem culpa de ter nascido…

E coleccionamos aglomerados de letras
Que formam palavras,
Que ditam versos,
Que se trocam nas rimas,
Capazes de humedecer o olhar
Quando tocam no fundo
Da alma, do poeta…
Esse que distraidamente
Leu o poema que era para si…

Alberto Cuddel
Livro Aberto – Ana Coelho/Autor Publica – 2017 – ISBN 978-989-691-618-3

Poema do dia 20/08/2018

Poema do dia 20/06/2018

Neste olhar o poço do fundo, ainda que seja um fundo sem poço, caímos apenas para no erguemos, ou fingirmos que tal acontece… depois vestimos o nosso melhor sorriso e saímos à rua…

Deixamos que a vida nos erga, de onde não queremos sair,
Deixamos que ou outros nos puxem da borda de onde queremos cair,
Deixamos que nos elevem nos ventos apenas pelo prazer se fingir,
Deixamos que a vida nos morra nas mãos pelo prazer de o sentir!

Neste voar de gaivota com fome, numa busca desértica pelo dizer, não vejo frases perfeitas, tão pouco um amor a condizer… tenho sede quero beber, mas a água esta longe sem ninguém para a trazer…

Neste voar, a cada beijo teu
Resta-me sonhar, sonho que é meu
Por entre frestas de porta fechadas
Não há que me escute, frases sentadas…

Longe morrem os dias, e quem os caminhou, pela estrada da vida, cansado se sentou… as noites, essas quentes e transpiradas, fazem-se de ilusões, tudos e essencialmente quase nadas…

Alberto Cuddel
20/06/2018
12:00

Calo(me)

Calo(me)

Calando em mim a arte e o ensejo…
Se nada de mim se aprouver
Nas palavras que dito, desbocado
Bafejando a calçada despida de vida,
Tudo do mundo que ainda houver,
Por nada de mim será calado,
Num tudo esquecido, hoje lembrado!

Milagre, nem chegada, nem partida,
Metade de mim, é assim desvairado,
Metade de mim, será sempre mulher!

Alberto Cuddel
Livro Aberto – Ana Coelho/Autor Publica – 2017 – ISBN 978-989-691-618-3

Poema do Dia 19/06/2018

Poema do dia 19/06/2018

Despi a alma rasgando as vestes de amor que a cobriam, por debaixo das vestes de seda apenas culpa, a desilusão que é o acto doloroso de viver… cortei as amarras da vida, vazio do fingimento de mim mesmo, eu que nunca fui, para que os outros existissem…

Cheguei a casa, rodei a chave, abri e entrei
Sentei-me no silêncio da sala, vazio de luz
Olhei o mundo, os versos, as palavras
Os livros e as obras, não me vi, lá não estava…

Nunca fui o que tenho, a casa, o carro, a vida
Nunca fui o que fiz, a chegada ou a partida
Nunca fui o que sou, a escrita, alegria fingida
Sentei-me na sala e fiquei, cheio do meu nada…

Olhei o mundo lá fora, cheio de tudo, fingido, nunca me procurei lá, onde nunca estive ou pertenci, sempre fui apenas o que quiseram que fosse… perfeito…

Hoje despi o corpo, despi o pouco amor que me cobria, as vontades do mundo, a pressa, o ter… E sentei-me na sala, na esperança que chovesse, uma gota de agua, um pouco de cloreto de sódio… mas nada… nada resta, nem amor, nem paixão, nem esperança ou gratidão… nada, apenas dor e escuridão…

Alberto Cuddel
19/06/2018
12:41

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