Poema do dia 31/12/2017

Poema do dia 31/12/2017

Definhas no rosto envelhecido
Triste e cansado da vida, ilusões
Meros momentos, rasgos de lucidez
Transparências por segundos
Esquecidos compromissos
Depois, depois as capas do costume
Uma realidade fria e ríspida
Satisfação? Qual satisfação?
Egoísmo puro de uma vida triste!…

Deambulo carregando as pernas
Na vã explicação de que nada
Nada é realmente verdade
Tão pouco sentido e dado
Tudo é mentira, tudo é momentâneo…

Os versos morrem a cada palavra
A poesia um escape ilusório
De uma mente doente, que sonha
Sonha com a morte carbónica
Onde a alma se liberta fielmente
No egoísmo próprio de uma energia livre
Sem dono, que se dispersa no tempo…

Alberto Cuddel
31/12/2017
15:00

Menti, mas ganhei

Menti, mas ganhei

Lado esquerdo da direita
Por entre um símbolo de revolta,
Voto constrangedor de liberdade
Penso, depois penso que nem pensei
Arremessei a caneta em riste ao papel e votei…

Inscrevi, a ficção na realidade
Tornando em pesadelo o sonho,
Uma terra que gira, e hoje, nasceu o sol
E o ontem, nada do que disse ontem
Importa ou deixa de importar,
Foi eleito, terá que governar
Como todos, disse o que devia ser dito
Apenas para ganhar…
Hoje um tudo ou nada diferente
Na política, tudo igual
Nada irá definitivamente mudar!

Alberto Cuddel
03/11/2017
5:10
#Solutampoetica

Serás quem és

Serás quem és

Mesmo no pó que te tornarás
Serás, memória do que és
Pouco te chega do que escrito seja
[se de mim não retiveres]
Centelha do pensar que declamo
Contenta-te na piedade aos deuses
Que aos homens abstém
Pó que acumulam
Nas páginas brancas da vida!

Luz que se extingue
Vã ansiedade do dia
Na lassitude das horas
Há vida que mingue
Na perda do que sabia
Sob as tabuas onde moras!

Lapidar inscrito
Aqui jaz um poema
Que não fora escrito!

Alberto Cuddel

Reflexões

Reflexões

De entre todos os jorros de prazer em corpos vazios
Apenas o sonho do teu, em plenamente ti almejo
Depositar a vida tida no passado…

Hoje sou sombra de ontem amputado do teu desejo
Em ti quero-me, sem que verdadeiramente esteja
Na futilidade das horas não vivo, arrasto-me
Na inutilidade de um querer vazio em sonhos

Rasga o tempo no atiçar de sentimentos, tesão
De que te vale o banho-Maria em que me manténs
Se verdadeiramente nunca me terás, estou morto…
Verdadeiramente morto, morri em mim mesmo
Para toda a vã e mórbida realidade…

Sírio de Andrade
30/12/2017
22:59

Poema do dia 30/12/2017

Poema do dia 30/12/2017

Das enormes tábuas da lei antiga
Nessas esquecidas e quebradas
Onde gastas e maltratadas, jazem
As leis e ordem do mundo…
Dessas mesmas tábuas corto e recorto
Construo o sarcófago da minh’alma!…

Dos perdões novos e multiplicados
Transpira o amor gasto pelo verbo
Sangue, agua, vinagre… Paixão…

Que deuses novos perseguirdes?
Por entre prazeres mundanos
Calendários esquecidos, luas novas
Creiam, nada de novo amanhã
Apenas arrependimentos e dores…
As mesmas de ontem…

O passado não se dilui
Avoluma-se…
Amanhã é apenas o futuro de hoje…
Com os mesmos pecados….

Alberto Cuddel
30/12/2017
20:40

Inconsequências

Inconsequências

Contrárias são todas as vontades
Inimizades criadas e nascidas do corpo
Abstinência do prazer provocado
Jardim do Éden amaldiçoado…

Jogo que jogas jogando
Mão estendida em sedução
Vales depilados sem relva
Aves que voam em círculos
Não abdicam de ti, de mim
Creiam pois nos agoiros
Afoitos desejos pulsam nos corpos
Pelas tristezas do abandono
Criadas por uma vida longínqua…

Tão perto e tão longe mora o teu corpo do meu…
Mesmo que o pecado durma ao teu lado…

Alberto Cuddel
03/11/2017
05:00
#Solutampoetica

Poema VII

Poema VII

Nas noites em que há meia-noite
Procuro encontrar a solidão no universo inteiro
Encontro o silêncio nas palavras sobrepostas
Quebradas pelo silvo do camião do lixo
Desperto da sonolência das horas
Preso nas grades do tempo, onde moram as estrelas
Pólens literários esvoaçam na mesinha de cabeceira
De uma literatura avulsa remetida pelo correio…

Tudo dorme,
Viajo pelo sonho das metáforas
De uma mão calejada na alma
Que faz luz ao sentir de alguém
Que distante canta fados tristes
Numa solidão inconformada
Pelos aniversários de vida!

Na solidão que a meia-noite me dá
Sou eu, sendo outro, escrevo
Versos que a noite me dita
De um mundo exterior a mim…

Acima de tudo, adormeço
Como se nunca tivesse acordado…

Alberto Cuddel

Nevoa no olhar de ontem

Nevoa no olhar de ontem

Por entre o reboar do eco
Pairando sobre o vale
Asas abertas, soltas no vento
Pairam incómodos os olhos
Depositados no horizonte morto…

Renovados votos e esperanças
Por entre águas salgadas e neblinas
Olhamos distante o amanhã
Olhos nos olhos
Na direcção contrária…

Alberto Cuddel
02/11/2017
23:25
#Solutampoetica

Poema VI

Poema VI

Quantas vezes o que escrevo não faz sentido?
Quantas vezes penso estar completamente perdido?
Sinto que o tempo me esqueceu
Ou que as letras apenas viverão amanhã?
– Senhores sentar-me-ei ao vosso lado, declamemos…
– Poemas esquecidos dos homens, memória de poetas!

Escuta-me velho… Ela viverá para além de mim
Da desgraça que ditas, do amor que a bela inspira…

A exposição das rimas, decompõem a poesia
Que a arrastamos na lama…
– Puristas ignorantes, poesia é vida, e quem vive é quem lê!

Escrevo palavras cruas, vazias ou até cheias de lágrimas
Cobertas de espinhos, ou perfumadas com âmbar…
Escrevo gemidos orgásmicos, ou o grito de uma mãe
Que sozinha ajoelhada na areia olha o mar chorando…

E tu, letrado mandas calar-me, eu que nunca gritei…
Escrevo pois, e escreverei o que os que sentem
Não escrevem, apenas perpetuando o se sentir…

Não sou poeta, mas escrevente biográfico do sentir alheio…

Alberto Cuddel

Poema do dia 29/12/2017

Poema do dia 29/12/2017

Tenho escrito poemas sobre os poemas
Sobre coisas, até poemas de amor
Poemas de chuva, de sol e Verão
Poemas de lágrimas, poemas de paixão…
Mas não poemas ao poeta, poemas a mim…

As palavras parecem esquecer-me
Sem que me lembre de mim mesmo
Nunca me importei comigo, eu não escrevo…
Não me escrevo, ninguém me leria…

Escoro-me por entre as vírgulas e os silêncios
Nas antíteses metafóricas onde me escondo
Entre as pausas de uma estrofe, oculto
Por entre nuvens e espuma dos riachos…

Nunca me encontrei no teu olhar
Numa rebuscada interpretação do meu palrar…
Que importo eu, a conjugação do verbo amar
Se nele se conjuga a tristeza e a saudade?

Nunca nenhum de mim, falou do homem
Desta forma carbónica arredondada
Que a todos nos suporta, que nos importas tu?

Alberto Cuddel
29/12/2017
00:45

Julgado e condenado, nunca conformado

Julgado e condenado, nunca conformado

Errei, sim errei
Na condenação que me impões
Aceito-me na pena que me dita a sentença
Escrever-me-ei, enquanto não se gastarem
Todas as letras do alfabeto
Incluindo todas as vogais
As abertas e as fechadas,
Até que a pena se cumpra
Na eternidade perpétua!

Alberto Cuddel
02/11/2017
04:38
#Solutampoetica

Poema V

Poema V

Amar e crer, em tudo deposito acto de fé
O mesmo vos digo dos sonhos antigos
Pensamentos dispersos, olhares mendigos
Como as árvores firme ao vento mas de pé!

De ti cobro a queda incauta ao abismo
-Talvez Deus seja mulher, talvez seja
Condeno nas palavras a dor do eufemismo
Suavizante verdade, causa dor da inveja!

Nada se levanta e me contraria
Sem inimigos unidos em confraria
Choram roseiras o corte precoce
Por um botão mentindo amor,
A verdade atalha a corte de foice
Tudo o que pela boca, mentido for!

Não me peças palavras,
Apenas o doce sabor a mel
Dos meus lábios…

Alberto Cuddel

Poema do dia 28/12/2017

Poema do dia 28/12/2017

Quebram-se as asas já cortadas
Por voos picados, mergulhos cegos
Versos quentes de amor revestidos
Por entre dedos húmidos, mal dormidos
Sonhos a dois no acordar solitário!

Voam anjos e demónios
Em amores doentes traídos
Corpos caídos e almas chorosas
A noite encobre as sombras…

Arrastam-se asas e palavras
Fome nos dedos, nas mãos
Lábios quentes procuram a sede
A lua acobarda-se por entre nuvens…

Voam libertos os amantes
Em anjos de asas cortadas
Sofredoras palavras…

Alberto Cuddel
28/12/2017
04:50

O poema que não escrevi ontem

O poema que não escrevi ontem

Perfilam-se as palavras como passos
Como pétalas desfolhadas da rosa
Uma após a outra, consecutivamente…

Entre nuvens escassas num céu de Janeiro
E um acentuado arrefecimento nocturno
Avizinhasse um dia calmo
E um qualquer esvair do tempo…
 [onde moras saudade?]

Os deuses que te concedem o dia
Chamam-te à vida…
Ainda assim dormes
Docemente
Com a cabeça pousada na almofada…

E a gente que passa,
Que acorda e que olha
A que vive e desfolha
Os dias e as horas
E outros tantos que mentem
Que se escondem entre a gente
Que taciturnamente caminham
A passo miudinho e mesquinho
No caminho ao teu lado
Dando palmadinhas nas costas…

Não, não escrevi este poema ontem
Nem hoje faz muito sentido,
Apruma-te, olha sobre o ombro,
Sim é verdade…

Alberto Cuddel

Amor Invejado

Amor Invejado

Assassinos do sentir,
Rasgam-me a carne no desejo,
Queimam, dilaceram, esquartejam,
Destroem toda a inocente paixão,
Assoberbada pela impulsão da carne,
Adagas, sabres, balas, disparadas palavras,
Frases apunhaladas na alta maré,
No exponencial da loucura do amor,
Arde a serotonina nas veias,
Destruição da vida em teu corpo,
Em teu imaculado e humano corpo,
Abandonas-me na vida, representação,
Fingimento da parte, que o todo me compõe,
Queima bombeado o ciúme nas veias,
Arrastado por invejas alheias,
Arrasto-me carregando-te comigo,
Já sem vida num amor assassinado,
Pelo querer esquizofrénico de um tesão,
Retractado nas quentes palavras,
Gritadas aos ventos, no querer,
Da alma esquartejada do poeta!

Sírio de Andrade
14/09/2015

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