Poema do dia 30/11/2017

Poema do dia 30/11/2017

Há erva verde e molhada lá fora
Lá fora ainda vive a esperança
No vento, nas nuvens, no chão…
Mas aqui dentro não…

Cá dentro a escuridão toma posse
Por entre luzes apagadas, portas fechadas
Carrego no peito carvão negro
Restos de um fogo ardente…
Restos de paz, de gente…

O sol emudece o canto das estrelas
A lua silencia-se, oculta pela luz
Nas cresce sem vida, sem partilha…
Deixei-me cair na consciência do ontem
Hoje não acordei, não sonhei,
Não sou absolutamente ninguém…

Alberto Cuddel
30/11/2017
15:40

Poema XXXV

Poema XXXV

A vida é constituída por pequenos nadas
Borboletas azuis que esvoaçam…

Entre sonhos e realidades ensaiadas
Escondemos os medos, de tudo, de nadas…

Somos organismos carbónicos saciáveis
Palparíamos gestos onde apenas palavras dançam?

Nos pés o cheiro a maresia, pegadas levadas
Lágrimas debruando beirais chorosos
Passados que nos enleiam no amanhã…
Rasgamos o hoje, atirando para à frente
Esperança trôpega de uma felicidade
Perseguida, imposta por falsos valores…

Ainda assim… perseguimos borboletas azuis
Dessas que nos habitam o estomago…
Cada vez que o amor nos toca
Pela mão da ausência trazendo a saudade
Tempo que nunca me elucidaram os gestos
Ou meus lábios tocaram…
Vogais aberta e gemidas,
Rimas estupidamente previsíveis…

O amor estupidifica-nos…
Ainda assim perseguimos sonhos
E borboletas azuis que nos habitam…

Alberto Cuddel
12/10/2017
22:50

Por três vezes…

Por três vezes…

Sobem-me aos lábios dúvidas estranhas
Saudades escorrem regidas por Neptuno
Incertas, ventosas e negras montanhas,
Semblante carregado, duro e taciturno
Noites distantes, ausentes e suplicantes
(…)
Caem sob os telhados gotas brilhantes
Sentires alheios, sonhos e passos perdidos
Segue o reinado, súbditos vacilantes
E por três vezes me negas os beijos
Triste e caído, dormentes desejos…
(…)
Ontem, apenas ontem, esqueceste
Por três vezes negaste, disseste não
O sonho do hoje perdeu-se no tempo
Sucedem-se nuvens e as lágrimas caladas
Pranto gritado na alma, preso entre dentes
Cerrado nas gengivas fechadas…
(…)
Por três vezes, disseste não
À terceira vez…
– eu, aceitei-o!

Alberto Cuddel

Por tudo…

Por tudo…

Deixei que as minhas mãos deslizassem
Que te contornassem levemente os seios
Rodopiassem redondamente e suavemente
Que te descessem pelo ventre, docemente
Que se quedassem quentes entre coxas!

Deixei que os dedos te procurassem
Que se humedecessem, que brilhassem
Que os lábios te procurassem a nuca
Que te sussurrassem, que te enlouquecessem…

Deixei que te crescesse o desejo
A apressada busca do beijo
A que fúria e a volúpia te possuísse,
Que me quisesses ardentemente em ti!

Que te lesse intimamente na ponta da língua
Que te declamasse em toda e cada rima…
Queiras tu no teu louco querer que te adentre
Promíscua profundidade da alma que te habita
A terra gira em torno de ti mesma
Movimentos profundos e amplos
Voz que se misturam no gemido
Respirações coordenadas, arfado…
Um grito, um gemido, uma loucura
Tudo jorra, quente num deleite supremo…
Eu, Tu, por tudo…
Num abraço profundo sem tempo…

Tiago Paixão

Poema do Dia 29/11/2017

Poema do Dia 29/11/2017

Na janela fechada do meu quarto
Cantam pássaros livres do lado de fora
Entre um beiral e um pinheiro que cresce
Do lado de dentro, silencio, lençóis chorosos!

O próprio sonho abandona-me, castiga-me
Entorpece-me a carne e a alma, nada sinto
Não me vejo na realidade do desejo, peco
Ainda que sonhe, nada há na gloria de ser!

Quanto mais conheço a realidade menos sei
Na verdade, nada é o que parece, nem a poesia
Por outro lado, a realidade da alma é mero sonho
A vida só subjectivamente pode ser vivida por inteiro,
Objectivamente apenas a alma vive, livre…

Os pássaros que cantam, não me alegram
Piam, cantam, procuram comida e companhia,
Os pássaros vivem a plenitude da vida
Os pássaros não sonham os desejos de amanhã…

Alberto Cuddel
29/11/2017
17:30

Poema XXXIV

Poema XXXIV

Embrenhei-me pelo sono
Sonhei o ontem e o depois
Por sonhos correntes
Gestos…. Esses? Ausentes…

Somos felizes sonhando
Mesmo que acordados?

Jamais saberei…
– Ou sequer que alguém saiba…
– Onde existe a realidade
Se nos sonhos, ou numa outra verdade?

Escorrem os dias pelas paredes
As noites pingam nos beirais
Luas que cruzam céus
E sois? Esses que martirizam a pele…
Queimando os sonhos alvos de pura ceda….

– Mesmo assim, não me amedronto
Diante todos os sonhos que ainda não sonhei…

Alberto Cuddel
11/10/2017
14:50

 

 

Sempre ou nunca

Sempre ou nunca

As noites morrem todos os dias
Os dias nascem de todas as noites…
(…)
Inevitavelmente persigo o tempo
Todo aquele que perco
No qual me encontro nos teus lábios
Nos sonhos recompenso-me
Notícias que me nascem na consciência
Alma voa pela letra da melodia
Pisando flores, perfumando
A dura e bela essência da vida!
(…)
Combates com obuses cor-de-rosa
Que se calam ao poder económico
Manténs o eu inviolável, e o nós?
Caem crianças à morte sem vida
Sob o peso do meu egoísmo
Movimentam-se orações audíveis
Braços elevados aos céus, à vista
Mas cruza-os na solidão do mundo!
(…)
– Talvez o amor te salve!
Salvífica virtude, essa a de amar
Sem homem, sem mulher, apenas amor
Humanidade que te procura,
Benevolência que te encontra,
(quanto nos vale o eu, o ter?)
Quanto nos vale um sorriso?
Os sorrisos acabam com as guerras!
(…)
Sempre esqueceste o amor, o sentir
O decidir e perdoar, o buscar perdão!
Nunca te importaste com o mundo?
Tu bastas-te a ti próprio?
A felicidade reside em ti?
Ou no mundo que te abraça?

Alberto Cuddel

Doem-me as noites

As noites banham-me o corpo,
As tuas mãos acalmam e aplacam
Desejos, lábios sedentos, Amor?
Necessidade de ti,
Em mim, sim também é amor,
Gemido e sussurado, gritado,
Paredes envergonhadas,
No abraço num, em que os corações
Também eles adormecem!…

Tiago Paixão

Poema do dia 28/11/2017

Poema do dia 28/11/2017

Na estrada do passado não se olha o futuro,
Nada já nos inquieta nem altura do muro,
Pedras arremessadas não rolam paradas
Construindo o hoje passo a passo, apanhadas!

Quebram-se as rosas no olhar marejado
Nos espinhos dos dias, escadas erguidas
Apoiado no querer, no caminho cajado
Assim és tu que comigo caminhas nos dias!

Perdi, para que ganhe novo alento
Mesmo que sempre morra algo cá dentro…

Alberto Cuddel
28/11/2017
23:00

Poema XXXIII

Poema XXXIII

Pertenço a um tempo que há-de chegar
Que está por vir, fazer ou sonhar…

Procuro entender-me amanhã
Hoje ainda é cedo, tão cedo
O sol que ainda a este não nasceu
Arde queimando o oriente
Longe, longinquamente…

Invento frases feitas e citações que nunca li
Perdidas e remisturadas na aurora ionizada da memória
Despi-me, erguendo-me nu, sequioso de palavras
Não tenho rancor de quem sabe, de quem procura
Não tenho inveja das palavras que nunca escrevi
Do sentir que nunca experimentei, dos corpos
Por quem nunca me apaixonei…

Se soubesse, invejava, se procurasse desejava
Invento quereres de nada, e opiniões sobre tudo
Sobre um amanhã que nunca vivi, nem trabalhei
Não invejo os que trabalha e lêem…
Tão pouco os que escrevem, escrevendo tudo
Num amor em que nunca dizem nada nas mãos…

Nunca desqualifiquei qualquer magistratura
Dos escreventes dos dias inventando assuntos
Ainda assim, proclamo, eu sou…
Abnegando todos os outros eu’s
Esses que inventam e nunca viveram…
Que nunca sentiram com os dedos
Os corpos que possui…
E eu? Eu que nunca possui ninguém…
– Ainda assim ouso sonhar o amor!

Alberto Cuddel
10/10/2017
06:15

Depressão poética

Depressão poética

(…)
Esqueci-me dos versos
Das rimas e estrofes
Das quadras, dos poemas
Escrevo brancamente
Frases soltas, pensamentos
Sem amor, sem sentimentos
Sem desejos, sem beijos
Sem prazer, sem morte
Apenas frases, pensamentos…

(…)
A rua corria deserta
O chão desabrochava
Sob as pisadas das tulipas
As nuvens desenhavam
Sonhos perdidos no olhar
Os pensamentos morriam
Sob o peso da abóboda celeste
À sombra da figueira
Que me acolhe nos braços…

(…)
As areias que se agitam
Sob os ventos do tempo
Correm viajando sob o luar
Assim meus pés caminham
Sob águas mansas da manhã
Numa qualquer direcção
Onde te possa encontrar
Perdida memória do passado…

(…)
Escondo-me nas antíteses
Nas hipérboles da vida
Nas metáforas do sentir
Escondendo segredos por entre
Palavras aleatórias de um poema
Se o amor me possui
Todo o ódio me espreita…

Alberto Cuddel

Poema XXXII

Poema XXXII

Autobiografia e psicanálise de ninguém

Virgens de Jerusalém erguei-vos
O noivo chega… Canta Salomão…
Forjei-me a ferro e fogo em cavalos de pau
Ventos de mares alados esquecido no oriente
Amores de Diniz, de Pedro, de Inês, poemas…
Viajem a Paris, incestos, em tempo de Maias
Sintra, tragédias pelo teatro de São Carlos,
Leonor pela verdura, esta estrada não é segura,
Chuva que cai, leve, levemente
Poemas que chamam por mim…
Eis que “o filho do homem” é Régio…
Oh Portalegre… Onde leccionas?

Por entre nadas que tudos são, e os sonhos do mundo
Cantos negros, filhos da mãe poesia, metafisica do querer
Pedras que filosofam e poetas que são maiores que o mundo,
Orgasmos sofridos de mulher açaimada pelos homens…

Rimas decimétricas e estrofes marcadas,
Língua que desenha e tinta folhas vazias
Saudades universitárias de amores à janela
Grândolas que se alevantam, povo que ordena
Ainda assim os meninos em volta da fogueira
Cantam rimas de pobreza e outra de canela…

Sou fruto da miscelânea de tudo
Herança, torpe do nada,
Dos vivos, dos mortos, dos penantes
Dos errantes, dos que escrevem
E de todos os que calam…

Sou porque todos me fizeram
E sem eles eu? Eu seria NADA…

Alberto Cuddel
09/10/2017
15:10

Poema do dia 27/11/2017

Poema do dia 27/11/2017

Às vezes, em sonhos distraídos,
que me surgem das esquinas do pensamento
na emoção, visiono amores.

Uma vez encontrei-me desenrolado num enredo de uma paixão
Das que me ardem no corpo, salivando a alma
Desilusão, ó arrefecimento do ser: – Menstruação…

Os amores, aí os amores
Desses roubando flores devagarinho flores em jardins públicos
Enroladas em papel de alumínio esquecido na porta do cemitério
Um banho tomado à pressa, uma água de colonia barata,
Uma chegada, um jantar á luz das velas por corte de luz
E no leito, insónias: – até amanhã, hoje doí-me a cabeça…

Ainda assim pinto de cor de rosas o amor
Talvez pelo sangue no olhar de tantas horas sem dormir…

Na concomitância dos dias
Monotonia arrastada da vivência máscula
Sonho noites, loucas noites de pesadelo…
– Hoje estou cansada… e eu passo a noite sem dormira nada…

Às vezes, em sonhos distraídos,
que me surgem das esquinas do pensamento
na emoção, visiono amores.
Mesmo que a realidade seja tão cinzenta
Os olhos inchados dos poemas escritos
Permitem-me sonhar…
Mesmo que acorde deste pesadelo…
Para uma doce realidade….

Alberto Cuddel
27/11/2017
21:00

Delírios

Delírios

Podes correr sem destino
Contornando
Paredes brancas!

Podes ficar sentado
Sonhando
Cama sem lençóis!

A solidão que acomoda
Informa
Hoje abraça-te!

A luz que cai do tecto
Apagada
Candeia vazia!

Enforca-me na ternura
Humedecida
Dos teus lábios!

Alberto Cuddel

Poema do Dia 26/11/2017

Poema do Dia 26/11/2017

Às vezes quando ergo a cabeça
lendo os livros que nunca escrevi
os outros onde vomitei poemas
ilusões e sentimentos gravados a negro
por entre desejos de mim que escondo
nas nuvens que não pairam sobre mim…

ontem ou antes de ontem choveu
mesmo que não me lembre há quanto tempo já não chove,
ou há quanto tempo me caem as lágrimas,
ou ainda sequer se algum dia amei,
ou se soube o que isso era na plenitude de me dar,
de me teres plenamente… não sei se sabes…
se algum dia soubeste que fui teu…
apenas teu…

hoje sou do mundo…
dos livros que nunca escrevi…
dos poemas que nunca publiquei…
mesmo naqueles que nunca escrevi o teu, o meu, o nosso nome…
poemas em que deixei que adivinhassem apenas que nos amamos…

escondido nos silêncios,
gravo-me em vogais e consoantes
estupidamente escondidos em alfabetos de sentimentos
guardados na mente ou numa poética caixa torácica…

Alberto Cuddel
26/11/2017
20:00

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